No romance de Jardim, o PSD morre no fim

Antigo governante madeirense apresenta esta sexta-feira diz NÃO!, romance político que resume muito do pensamento de Alberto João Jardim para o país.

Alberto João Jardim
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Alberto João Jardim LUSA/MIGUEL A. LOPES

Primeiro o cinema. Depois as memórias políticas. Agora um romance. Alberto João Jardim, o homem que durante quase quatro décadas se confundiu com a Madeira, tem explorado uma vertente mais artística, desde que se reformou da política activa em 2015. Esta sexta-feira, apresenta o segundo livro no espaço de um ano, depois de, em 2017, ter assinado Relatório de Combate, uma compilação de memórias políticas.

diz NÃO! - assim mesmo, em maiúsculas como quando endurecia o discurso, é um romance assumidamente político que procura retratar a sociedade portuguesa, e a madeirense em particular, desde os primeiros anos da democracia, projectando-a uma década no futuro: o livro fecha-se em 2027. Na realidade do romance, que Jardim ressalva ser ficção, o PSD praticamente desaparece do mapa político nacional. Mesmo na Madeira, onde governa ininterruptamente há mais de 40 anos, perde a maioria absoluta já nas regionais do próximo ano.

Não é difícil, ao longo da narrativa, encontrar muito do pensamento político do antigo presidente do governo madeirense. Principalmente aquele que foi sendo defendido com maior urgência nos anos finais do jardinismo. A refundação da República, através de uma profunda reforma constitucional, que chegou mesmo a servir de "manifesto" para o esboço de uma candidatura à Presidência da República que Jardim acabou por não protagonizar em 2016, é tema central no livro.

No romance, é a fictícia Frente para uma Nova República (FNR) que dá corpo a essa ideia. “Quero que exista um PSD novo. O livro tem uma FNR, porque o PSD e os restantes partidos, no futuro, não souberam regenerar-se do conservadorismo constitucional situacionista”, diz ao PÚBLICO o autor, explicando que a ideia do livro é mostrar que existem “futuros possíveis” sem os radicalismos tão na moda.

O romance, justifica Alberto João Jardim, nasce da intenção de “inventar” e “criar”, mesmo aos 75 anos. “De contrariar a vulgaridade repetitiva do pessimismo, do niilismo, da tragédia, das “causas fracturantes” e da pornografia disfarçada de realismo.” Tudo, acrescenta, o que tem marcado o “folclore escrevinhado” pela impropriamente autodenominada "esquerda".

As personagens que vão desfilando ao longo das mais de quatrocentas páginas do romance são fictícias, sublinha o autor, mas são facilmente encontrados paralelos e até provocações. Como a personagem Edgar Gomes, enviada pelo comité central do PCP para controlar o partido no Funchal. O actual coordenador dos comunistas na Madeira chama-se Edgar Silva.

Leituras sobre o passado recente do partido e premonições sobre o futuro – “resultado da postura dos que em 2013 haviam mandado votar na oposição autárquica, contra o próprio partido, e que em 2015 haviam assaltado e ocupado o PSD [Madeira]. Em 2019, pela primeira vez em eleições regionais, o PSD perdera substancialmente a maioria absoluta” – fazem também parte da história deste diz NÃO!.

Antes deste livro, que tem a chancela da Casa das Letras, e do Relatório de Combate, Alberto João teve uma breve, mas bastante mediatizada, incursão pelo cinema. Foi em 2017 quando vestiu a pele de um pastor visionário, no filme O Feiticeiro da Calheta, do realizador Luís Miguel Jardim.

E agora, o que se segue? “Se Deus e os médicos me permitirem vida e saúde, a partir daí, nunca se sabe...”