"Não podemos ser 'nós contra eles'", diz Merkel ao recordar a Noite de Cristal

Chanceler Angela Merkel congratula-se pelo reflorescimento da vida judaica na Alemanha numa cerimónia assinalando os 80 anos da Kristallnacht

Sinagoga de Prenzlauer Berg, em Berlim, onde foi comemorado o aniversário da "Noite de Cristal"
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Sinagoga de Prenzlauer Berg, em Berlim, onde foi comemorado o aniversário da "Noite de Cristal" CLEMENS BILAN/EPA
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A chanceler alemã, Angela Merkel, marcou o 80.º aniversário da Kristallnacht (Noite de Cristal), noite de perseguição e ataques violentos contra judeus na Alemanha levados a cabo pelos nazis, com um discurso numa sinagoga de Berlim.

Chamou ao reflorescer da vida judaica na Alemanha “um presente inesperado depois da Shoah”, em que foram assassinados seis milhões de judeus por nazis alemães e seus colaboradores em país ocupados pela Alemanha nazi.

Por isso, a Alemanha tem um dever moral de lutar contra o anti-semitismo, disse Merkel. “Estamos a ver um anti-semitismo preocupante que ameaça a vida judaica no nosso país”, admitiu.

Mas Merkel também disse que tem de haver tolerância zero para ataques contra judeus, sejam estes levados a cabo pela extrema-direita ou por "pessoas de outros países", assim como nunca se deve culpar a grande comunidade muçulmana da Alemanha pela violência cometida por islamistas radicais.

A Noite de Cristal foi chamada assim pelos estilhaços de vidros nas ruas de cidades da Alemanha e Áustria após os ataques a sinagogas, lojas e casas de judeus. Pelo menos 91 pessoas foram mortas nesta noite, foram queimadas centenas de sinagogas (como a de Berlim em que Merkel discursou), foram vandalizadas cerca de 7500 lojas de judeus, e mais de 30 mil judeus foram presos, muitos mandados para campos de concentração.

“Isto deu a possibilidade a muitos alemães para agir com base em ressentimentos muito antigos, de dar corpo ao seu ódio e violência”, disse Merkel. “Com o pogrom de Novembro, foi desenhado o caminho para o Holocausto.”

Pouco antes do discurso, um tribunal em Berlim decidiu dar “luz verde” a uma marcha de extrema-direita planeada para a noite de sexta-feira. A polícia tinha-a impedido argumentando que era inaceitável ter uma manifestação de extremistas no dia em que o país assinalava ataques a vítimas da violência nazi. Estava também planeada uma contra manifestação da esquerda.

Merkel mencionou as manifestações da extrema-direita em Chemnitz (após a morte de um alemão numa luta com dois requerentes de asilo) em que foram perseguidas pessoas que pareciam estrangeiras e atacados um restaurante judaico, o único da cidade, e um judeu em Berlim, não muito longe daquela sinagoga. “Esta forma de violência anti-semita faz lembrar o início dos pogroms”, declarou a chanceler.

O partido radical Alternativa para a Alemanha (AfD) tem relativizado o passado nazi do país – um dos seus líderes, Alexander Gauland, chamou-lhe “uma caganita de pássaro na História”; outro, Björn Höcke, criticou o monumento do Holocausto em Berlim. Este partido tem também culpado refugiados pela violência, incluindo anti-semita, na Alemanha, e formou uma pequena ala judaica para afastar acusações de anti-semitismo.

“Há duas questões a que precisamos de responder com urgência”, disse Merkel. “Primeiro, o que aprendemos realmente com a Shoah, esta ruptura na civilização? E segundo, são as nossas instituições suficientemente fortes para que um aumento do anti-semitismo, ou mesmo caso uma maioria apresente anti-semitismo, possa ser impedido no futuro?”

“Todo o indivíduo é único e nunca deve ser objecto de generalizações”, disse ainda a chanceler no seu discurso. “Não podemos deixar que as nossas sociedades sejam divididas entre nós e eles, nós contra outros. Toda a pessoa tem o direito e pode reivindicar ser vista como um indivíduo pelo Estado”.

“A democracia é o melhor de todos os sistemas passíveis de serem postos em prática”, continuou. “Baseia-se no equilíbrio. No equilíbrio entre maiorias e minorias, entre governo e oposição. Na divisão de poderes.”

O presidente do Conselho Central dos Judeus da Alemanha, Josef Schuster, disse que era “um escândalo” que a cada duas semanas uma sinagoga ou uma mesquita seja alvo de grafitti com palavras de ódio ou, pior, de um ataque. E mencionou um “partido, que se senta muito à direita no Bundestag [Parlamento]”, que incentiva o ódio. “Estes são os autores morais dos incêndios.”