Talvez por tudo ser tão absurdamente perfeito em Sgt. Pepper’s, o White Album só poderia ser concebido como resposta anárquica e fragmentária à música dos Beatles

White Album, o disco em que tudo parecia possível

Faz 50 anos o álbum menos ordeiro dos Beatles. É reeditado esta sexta-feira e volta a colocar-nos diante de um disco que pode salvar músicos – que o digam Joana Barra Vaz, Miguel Araújo, Domingos Coimbra ou Nuno Rodrigues.

Após o cúmulo da experimentação que tinham levado a cabo em Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o futuro para os Beatles não era fácil de descortinar. Se Revolver (1966) e Sgt Pepper’s (1967) tinham significado passos gigantes na expansão da sonoridade pop/rock que começara por ser uma bem trabalhada reconversão do reportório rock’n’roll/r&b, impossível prenúncio da revolução que se encontrava a uma escassa meia década de distância – Kurt Cobain, confesso fã da banda, afirmaria o seu espanto com a hipótese irrealista de haver apenas quatro anos a separar Please Please Me e Sgt. Pepper’s –, o passo seguinte era quase inimaginável como parte de uma escalada tão vertiginosa.

Sgt. Pepper’s, álbum que acumulou 700 horas no estúdio 2 de Abbey Road, era um álbum em que as canções tinham a desfaçatez de desembocar nas seguintes sem qualquer pausa para respirar (o tema-título transforma-se em With a little help from my friends sem pedir licença), em que as cançõem podiam colidir umas com as outras para originar algo novo (A day in the life resulta da montagem de excertos distintos compostos por John Lennon e Paul McCartney), em que o tema final (novamente A day in the life) podia implodir num crescendo orquestral dissonante mais facilmente atribuível a Berio ou Cage, em que os últimos segundos na edição em vinil original poderiam apontar à eternidade (quando a agulha não passava das últimas espiras, fazendo desse último instante um loop sem fim).

Talvez por tudo ser tão absurdamente perfeito em Sgt. Pepper’s, tão desenhado ao pormenor, saltando por cima da banda sonora de Magical Mystery Tour, o álbum homónimo que ficou para a História como White Album só poderia ser concebido como resposta quase anárquica e altamente fragmentária à música dos Beatles. Esse carácter fragmentário é especialmente curioso quando a génese da maior parte dos temas constantes em White Album é proveniente da viagem à Índia que os quatro (enquadrados num grupo maior, de que faziam parte Mia Farrow ou Donovan) realizaram em conjunto, correndo atrás do Maharishi Mahesh Yogi e dos seus ensinamentos de meditação transcendental. No entanto, depois dessa estada em Rishikesh, no regresso a Inglaterra a entrada em estúdio, como descreve a revista Mojo, testemunharia “os fab four a transformarem-se em four fabs”.

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Durante cinco meses, os Beatles habitaram em Abbey Road, trabalhando num conjunto de 30 canções que eram reveladoras das diferentes personalidades dos municiadores de reportório do grupo, um espectro tão alargado que vai do puro rock’n’roll à country, do experimentalismo radical à pop xaroposa

Ou seja, durante cinco meses, os Beatles habitaram em Abbey Road, ocupando três estúdios em simultâneo que operavam de forma autónoma, trabalhando num amplo conjunto de trinta canções que eram reveladoras, como nunca antes, das diferentes personalidades dos três municiadores de reportório do grupo – McCartney, Lennon e George Harrison. Mas neste espectro tão alargado de canções, que vão do puro rock’n’roll à música country, do experimentalismo mais radical à pop mais xaroposa, cada um dos autores revela-se em facetas que podem ser quase antagónicas. Isolemos por momentos Paul McCartney e oiçamos um compositor que, no interior de White Album, é capaz da delicadeza acústica de Blackbird e do arrebatamento rockeiro que é Helter Skelter, a suposta canção mais ruidosa registada até àquela data, nascida da ciumeira que tomou conta do músico ao ler declarações de Pete Townshend em que este dizia que tinha composto a canção “mais suja e barulhenta de sempre”.

Para muitos, a dispersão fixada em White Album é espelho do desnorte que se instalou no grupo após a morte de Brian Epstein, o seu manager de sempre, em 1967. Mas havia todo um cenário de tempestade perfeita à volta dos Beatles: o desaparecimento de Epstein, a erosão das relações entre os quatro, os casamentos de McCartney e de Lennon com a corda ao pescoço, o abandono temporário das sessões de estúdio do “quinto Beatle”, o produtor George Martin, desesperado com as gravações que decorriam em paralelo, a auto-exclusão de Ringo Starr que, durante um par de semanas, se despediu do grupo. White Album parecia, assim, documentar o colapso da banda entre quatro paredes.

Ecos portugueses

Pode dizer-se que foi a completa dispersão do disco, a sua falta de preocupação com a coerência (que pode até confundir-se com displicência), a mostrar-se salvífica para a cantautora Joana Barra Vaz. Estava em fase de pré-produção do seu álbum de estreia, Mergulho em Loba, com as inseguranças activadas em modo de híper-sensibilidade, preocupada com que tudo fizesse sentido. “Depois ouvi aquele disco”, diz antes de ceder ao riso, “e pensei: não tem nada [de fazer sentido]!” “Ouvir aquela liberdade toda, num álbum em que tudo está fragmentado” havia de revelar-se providencial. “Hoje em dia toda a gente se preocupa muito com a estética dos discos, em ter tudo muito controlado, dentro do mesmo espectro. Eu não me identificava e andava muito preocupada com isso. Ouvir o White Album deu-me imensa coragem para assumir tudo, para ser mais honesta  e não ter tenta preocupação em limar e aprimorar.”

Também Miguel Araújo, na altura em que integrava ainda Os Azeitonas, havia de ser salvo pelo White Album – embora admita que, mesmo jurando fidelidade a toda a discografia, hoje prefere os early Beatles, até Revolver – e encontrar consolo nessa abordagem quase enciclopédica da pop que levam a cabo no disco duplo. “Na altura em que andávamos a trabalhar no quarto álbum, vivi o drama de estar a fazer música em 2010 ou 2011 que soava à música de há 30 ou 40 anos. Foi o White Album que me salvou este pensamento, porque tem exercícios kitsch de uma banda a tentar soar à música dos anos 20 ou 30”, defende. E cita Honey pie ou Martha my dear como canções que carregam essa marca da canção embrulhada em arranjos orquestrais ou de big band. “Foram os Beatles que me desataram esse nó na cabeça.”

Para Miguel Araújo, os Beatles são “aquela banda que uma pessoa nem sequer se lembra de ter conhecido – da mesma maneira que ninguém se lembra de conhecer os pais”. Quando se começou a interessar por música, com 10 ou 11 anos, eram já a sua grande referência e depois de se ter desfeito – aos 14, pôs um anúncio num jornal gratuito do Porto e vendeu os álbuns para poder comprar CD de Metallica e Megadeth – e ter refeito toda a discografia dos quatro de Liverpool, lembra que aos 17/18 os seus ouvidos não tinham espaço para música que não pertencesse aos Beatles. Foi com essa idade que Domingo Coimbra, baixista dos Capitão Fausto, começou a prestar verdadeira atenção ao grupo de Liverpool, depois de anos a ouvi-los (assim como aos Beach Boys) no autorádio do carro dos pais. “Na altura em que se começa a fazer canções – e tenho a noção de que é assim com todas as bandas – acabamos por ir parar aos Beatles e apercebemo-nos do quão incrível é o que eles andavam a fazer.”

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Foi então que Domingos começou a devorar documentários, livros e tudo aquilo a que conseguia deitar a mão sobre a história dos Beatles. E foi adentrando no lado mais vanguardista do grupo, percebendo o quanto a experimentação desenvolvida pelos quatro se normalizou num contexto pop, como se deixasse de ser uma intromissão de elementos estranhos e apenas mais um conjunto de recursos e ferramentas que permitiam pensar as possibilidades da canção de forma elástica. O experimentalismo menos evidente – se esquecermos, por momentos, uma Revolution 9 pejada de técnicas de colagem inspiradas por Stockhausen – em White Album leva Domingos, na verdade, a “associar sempre o disco a uma fase mais antiga dos Beatles”. “Acho isso interessante porque acredito que pertença a uma altura da carreira em que se tenham fartado um bocadinho do experimental e tenham querido fazer um disco só de canções.”

Para Nuno Rodrigues, vocalista e guitarrista dos Glockenwise e do projecto Duquesa, o álbum homónimo dos Beatles era um dos grandes enigmas musicais com que cresceu – o vinil existia lá em casa e aquela capa branca, sem qualquer informação, sempre o intrigou. Mas só na chegada à faculdade, a Coimbra, é que estabeleceu uma relação com a música que estava guardada dentro daquela capa. A adolescência fora passada em Barcelos ao som de pós-punk e proto-punk, “dos Stooges aos Fugazi”, descreve. “Os Beatles estavam ligados à minha ideia de conformismo, à música dos meus pais”, confessa. Daí que só querendo arriscar o desterro social é que se atreveria a dizer em voz alta que os Beatles eram a sua banda favorita. Mas esse perigo nem sequer existia. “Só quando comecei a desenvolver um pouco de sensibilidade, autonomia e independência em termos de personalidade – no período da faculdade, aos 21 anos – é que fui vencendo o tabu.”

Ainda assim, ele que se afirma fã sobretudo de Abbey Road, nunca conseguiu deixar de considerar White Album um disco enigmático: “Não é um disco maravilhoso, também não é um disco fraco, e tem algumas das melhores coisas e mais vanguardistas que ouvi dos Beatles.” Para Joana Barra Vaz, que reclama uma influência directa do disco na sua música – Sol que aquece (Barbados) foi feita a pensar em Long, long, long, de George Harrison –, o White Album “permanece muito contemporâneo, parece que foi feito agora”. E chama-lhe “um diamante em bruto” em que tanto se pode ouvir “os pezinhos do McCartney” a acompanhar voz e guitarra em Blackbird, como um final sintonizado com o mundo Walt Disney a seguir uma Revolution 9 “que soa a coisa feita nos anos 2000 pelo Prefuse 73”.

Acredita, por isso, não existir outro disco em que os Beatles se encontrem menos diluídos uns nos outros. Quatro personalidades a ganhar espaço e a alastrar por um álbum duplo que teria de o ser –  porque reduzir o alinhamento seria matar a natureza fractal de um disco cujo maior encanto é nunca se deixar aprisionar em linguagem alguma. Em White Album cabe tudo, sem necessidade de se filtrar ou de limitar para se definir.