Do fado a Sassetti: outras paragens de Toscano

Formado pelo jazz norte-americano, a investigação constante das raízes e de novos estímulos têm conduzido o saxofonista a outras paragens com sotaque português.

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Pauliana Valente Pimentel

Às sextas-feiras e sábados, se a agenda lho permite, é bastante possível encontrar Ricardo Toscano não no Hot Clube de Portugal ou nas jams de jazz que vão eclodindo nalguns bares de Lisboa, mas antes em Alfama, na Mesa de Frades, a ouvir fado. “A catedral”, chama àquele que é o mais habitual poiso para fadistas e músicos de fado fora de horas, tão a salvo dos circuitos turísticos quanto é possível. “O objectivo”, confessa o saxofonista, “é aprender, tentar chegar à essência de cada coisa que quero compreender.” E, por isso, mesmo sabendo três ou quatro fados, recusa sempre os convites para tocar. Vai ali para ouvir. E talvez para perceber melhor como se relacionar com as actuações que, pontualmente, faz ao lado de Ana Moura. Mas, garante, não quer “daqueles gajos que agora vai usar o fado para ter mais um assunto e vender umas cenas”.

Em certa medida, para alguém que tem por heróis músicos norte-americanos ligados ao hard bop – uma escala na evolução do jazz fortemente marcada pela adopção de códigos ligados a músicas de raiz como gospel e blues –, a investigação do fado poderia fazer sentido enquanto procura de um sotaque local, fazendo um movimento simétrico de descida às raízes. “Não posso fazer nada em relação a isso: sou português, da Amora e toco jazz”, ri-se Toscano. “Então o meu blues se calhar não é um blues da igreja do Harlem – embora já tenha ido lá e ache aquilo lindo e arrepiante. E, enfim, sendo uma pessoa espiritual não sou religioso.” Se é do fado ou não, ele diz não saber, mas tem a certeza de que terá um sotaque diferente no saxofone alto moldado pela sua origem portuguesa.

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Pauliana Valente Pimentel

Talvez a influência que o fado possa exercer na sua música, reflecte, possa ser consequência da profundidade dos poemas cantados – que, na sua opinião, contrasta com a maior leveza que abunda nos standards de jazz. Como gosta de se inteirar da letra de uma balada para procurar a forma mais pessoal de se relacionar com o tema, Toscano imagina que possa ir buscar o seu registo emocional para essas ocasiões “tentando colocar a força de um fado” no tema. “Isto pode parecer que estou a fazer uma grande pesquisa para inventar alguma coisa, mas não é isso, estou só a tentar ser o mais expressivo possível.”

Cada passo que Toscano dá para fora da sua zona de acção natural acaba, sempre, por manifestar-se na música que faz. É uma inevitabilidade, comum a qualquer músico, mas que no seu caso liga, por vezes, pontos pouco comunicantes. Numa das experiências mais imprevistas do seu percurso, juntou-se a Miguel Moreira e ao Útero para uma performance intitulada Fraternidade, em que lhe cabia improvisar durante toda a peça, à medida que respondia aos movimentos de bailarinos como Romeu Runa, Luís Guerra, Maria Fonseca e Francisco Camacho. “Foi uma performance de duas horas em que não toquei nenhuma melodia bonita. E então percebi que o meu dever ali não era ilustrar – eu também era uma personagem. Aprendi muito com eles e com as regras que têm entre eles, em que quando uma coisa acaba não há outra a começar, tudo funciona por camadas.”

Por caminhos acidentados, a experiência com o Útero no palco do Teatro Aveirense haveria de ecoar ainda no concerto que o Ricardo Toscano Quarteto dedicou, há duas semanas, à música de Bernardo Sassetti no Centro Cultural de Belém. À experiência de tocar sozinho em Fraternidade, o saxofonista juntaria a intenção de abrir no meio da sonoridade do quarteto um espaçoso lugar para o silêncio que Sassetti geria com mestria cirúrgica nas suas peças. “Nunca me tinha sentido vulnerável daquela maneira, como me senti no concerto com a música do Sassetti”, recorda. “Não sentia que estivesse a tocar saxofone ou sequer música, parecia que estava apenas a ser veículo de uma expressão.”

Quando os quatro subiram ao palco do CCB, iam confessadamente “muito assustados pela responsabilidade e pelo legado tão forte, tão vasto e tão incrível”. E esse medo, confessa Toscano, foi usado como mola para a superação. Tendo de lidar com uma proximidade paradoxal – Sassetti assistiu ao concerto do saxofonista na Festa do Jazz, em 2010, ano em que venceu o Prémio de Saxofonista Relevação, Toscano viu vários concertos do pianista, mas nunca se conheceram – e com uma forte carga emocional, os quatro acabaram por sintonizar-se mais com “uma melancolia bonita” em que já se reconheciam, mas que nunca tinham aprofundado de forma tão declarada.

É uma das deixas que o quarteto espera vir a aplicar no seu reportório futuro – e nos possíveis novos concertos com a música de Sassetti, a convite da Casa Bernardo Sassetti, que se poderão suceder. Outra, descreve Toscano, diz respeito a “momentos super calmos em que parece que a cadência abranda mas o movimento nunca pára, há sempre qualquer coisa a acontecer”. Talvez devido a essas precisas características, houve temas em que tentaram obrigar-se a tocar tão lento quanto possível. Tanto assim que ao escutar a gravação do concerto, Toscano espantou-se: “Nem parecemos nós a tocar!” Parecendo que não, esse o objectivo nunca deixa de ser esse.