Uma banda rock chamada Hinds

As madrilenas regressam a Portugal para apresentar I Don't Run e tocam no Musicbox na sexta-feira, dia 9, às 22h30.

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Alberto Van Stokkum

Leave Me Alone, o primeiro disco das madrilenas Hinds, de 2016, levou-as a todo o lado em pouquíssimo tempo. Tinham crescido a ouvir bandas como Arctic Monkeys, The Strokes ou Black Lips, e de repente estavam a partilhar palcos com elas. Ao contrário do que acontece com a maioria das bandas de rock ibéricas, conquistaram num ápice a América: actuaram na TV generalista norte-americana, no Late Show with Stephen Colbert, lançaram uma linha de roupa com a cadeia de lojas Urban Outfitters, deram a volta ao mundo, sempre a tocar, tocar, tocar.

“Para nós aconteceu naturalmente, passo a passo, não foi assim tão chocante”, conta ao Ípsilon a baterista Amber Grimbergen numa conversa para antecipar o concerto de sexta-feira, dia 9, no Musicbox, às 22h30. É uma actuação que trará a banda de volta ao clube lisboeta “que era como uma gruta, com pessoas a fumar lá dentro” e a fez, garante, divertir-se.

Havia um problema: saber o que fazer a seguir. “Com o primeiro disco, não tivemos tempo nenhum para perceber de que é que as canções precisavam. Foi difícil”, explica. Desta feita, tiraram “dois meses, entre Janeiro e Fevereiro de 2017”, para “pensar em tudo e escrever as canções” e ir para estúdio em Abril, com a ajuda de Gordon Raphael, produtor de nomes como Strokes ou Regina Spektor, e gravar I Don’t Run, co-produzido pelas próprias. Entretanto, pararam de tocar em todos os sítios que as convidavam, tornando-se mais selectas. “O mundo é tão grande, se quisermos ir para todo o lado não conseguimos fazer tudo o que queríamos”, afirma a baterista. Continuam, contudo, a preferir “sítios pequenos” como o Musicbox. “É mais íntimo”, justifica.

A abordagem às canções, que estão mais variadas e igualmente viciantes e pop, mudou de um disco para o outro. Carlotta Cosials e Ana Perotte, que escrevem as canções, cantam juntas e tocam guitarra, decidiram ser menos obtusas e mais directas nas palavras, sem rodeios nem medos de dizerem o que querem dizer, já que, alegam, “ninguém lê letras”. A definição delas de “ninguém”, pelos vistos, não inclui a baterista, que não toca sem saber as letras. “Gosto de saber sobre o que é que elas estão a cantar e cantar com elas.”

Além disso, também estão, garante, mais entrosadas umas com as outras enquanto grupo, e a tocar cada vez melhor. E a inspiração já não se cinge às bandas que ouviam em novas – Matt Helders, dos Arctic Monkeys, foi uma das razões que levaram Grimbergen, a pegar numa bateria quando era adolescente em Pamplona, a cidade de Navarra onde nasceu filha de pais holandeses. “Ainda gostamos das mesmas coisas, mas à medida que vamos continuando em digressão estamos sempre à procura de novos sons e bandas”, adianta, mencionando nomes como a banda Twin Peaks, de Chicago. Ao mesmo tempo, antes de entrarem em palco ouvem canções de artistas como Shakira, Dua Lipa ou Natasha Bedingfield. “Para esses momentos gosto de pop que nos faz sempre felizes”, comenta. Outra inspiração de que Amber Grimbergen tem falado em entrevistas é tacos, o prato tradicional mexicano. Como? “Quem é que não gosta de tacos? Encontramos inspiração no que conseguimos”, responde.

O disco saiu em Abril, mas não será o único motivo para voltarem a Portugal - passaram por Paredes de Coura em 2015, um ano depois de as duas vocalistas terem ido ao festival como fãs, quando a banda era um duo chamado The Deers e Amber Grimbergen ainda nem as conhecia, pelo Rock in Rio e pelo Hard Club. Apenas meia hora antes do telefonema do Ípsilon, a banda tinha acabado de lançar um novo single e teledisco, British Mind, que não vem em I Don’t Run – um acontecimento comum: no ano passado também tinham lançado Caribbean Moon, fora de um álbum. Não conseguem parar e é pouco provável que demorem mais dois anos a lançar um álbum novo.

PÚBLICO -
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Alberto Van Stokkum

Não existe rock de raparigas

As Hinds são quatro mulheres, mas não querem ser “uma banda de rock de raparigas”. Nem que as encaixem numa cena de bandas só com mulheres. “É frustrante, é como se agrupar bandas numa cena assim descrevesse a música que fazes. Não descreve. Descreve talvez a nossa aparência ou o nosso comportamento. Não tem nada que ver com a música. Prefiro que nos chamem ‘uma banda rock’”, afirma a baterista. Tal como, em 1996, Corin Tucker, das Sleater-Kinney, cantava, no disco Call the Doctor“I wanna be your Joey Ramone” (ou “Thurston Moore”). Estavam a pedir um lugar à mesa – ou, nesse caso, um poster na parede – não como “uma versão feminina” de uma banda ou um artista masculino, mas como uma banda rock. Tal como elas, as Hinds também só querem ser, existir, sem terem de ser "aquela banda de raparigas".

Isso não quer dizer que não estejam atentas a desequilíbrios de género no que toca aos cartazes dos festivais em que actuam. “É uma questão delicada. Às vezes diz-se que era melhor ter mais raparigas, mas não é assim tão simples. Também é preciso haver mais bandas, as raparigas precisam de se levantar e pensar ‘sim, posso tocar como vocês’”, continua. É algo em que elas têm ajudado: “Não acreditarias na quantidade de raparigas que vêm ter connosco depois dos concertos e dizem ‘Comecei uma banda por vossa causa’ ou ‘Toco bateria por tua causa’. É louco. Uma coisa bonita que estamos a ver cada vez mais é que nos clubes temos mais raparigas do que rapazes. É incrível, é tão bonito.”

E gostam de dar o exemplo. New For You, o primeiro teledisco deste álbum, que saiu em Janeiro, mostrava-as a elas e várias amigas a jogar futebol, um desporto tradicionalmente masculino. “Tentámos usar tantas raparigas como rapazes, mas acabamos por usar mais raparigas, é fixe porque se torna normal ver mulheres a jogar futebol", de uma maneira natural, sem parecer estranho. Como elas a tocar.