Crítica

O escritor que tem paixão pelas aves

Um conjunto de ensaios de Jonathan Franzen que vale mais pelas histórias contadas do que pelo exercício de introspecção pessoal.

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mmmmm Para Jonathan Franzen, o “ensaio” é aquele texto que obriga o autor a confrontar-se consigo mesmo DAVID LEVENSON/GETTY IMAGES

O mais recente livro do norte-americano Jonathan Franzen (n. 1959) é uma colectânea de textos a que ele chama “ensaios” — forma que define como algo em que o autor “arrisca tendo por base a sua experiência pessoal e a sua subjectividade”. Logo a abrir o livro ele dá conta que o jornalismo, que era tradicionalmente rigoroso, “amoleceu” permitindo que a voz do Eu, as suas opiniões e impressões, “ganhasse a ribalta das primeiras páginas”; que a ficção literária se aproxima cada vez mais do ensaio (na forma como Franzen o define) mencionando autores dos romances mais influentes dos últimos anos, como Rachel Cusk e Karl Ove Knausgård. E num texto a meio do livro, titulado Dez regras para o romancista, demarca-se destes autores dizendo que o romancista deve escrever sempre “na terceira pessoa, a menos que uma primeira pessoa verdadeiramente diferenciadora se te ofereça irresistivelmente”. Para Jonathan Franzen, o “ensaio” é aquele texto que obriga o autor a confrontar-se consigo mesmo (como se a ficção não o obrigasse também), e mais adiante acrescenta que uma das lições que aprendeu com Henry Finder, editor da The New Yorker, foi que “qualquer ensaio, mesmo um texto de reflexão, conta uma história”.

Ora, técnica e literariamente, a maioria destes textos de Franzen em nada diferem dos textos romanceados dos autores que refere, Rachel Cusk e Knausgård, o que lhes confere uma dimensão quase irónica — numa ironia que o próprio tenta disfarçar nas histórias que conta ao leitor ao chamar-lhe “ensaios” e não lhe dando o mesmo estatuto de “ficção literária” que os referidos autores atribuem aos seus. Da veracidade na primeira pessoa, ou não, dos textos dos três escritores só os próprios podem atestar, o leitor não pode, ou não sabe, verificar se estes estas histórias de Franzen obedecem à regra número 6 do seu texto das regras para um romancista, referido acima: “A ficção mais puramente autobiográfica exige pura invenção.”

A ironia (ou puramente contradição) sobre a ideia de ensaio é também bem visível no excelente texto a propósito da escritora Edith Wharton (1862-1937), escrito aquando do 150° aniversário do seu nascimento. Se na primeira página do livro afirma, quase em tom de desilusão, que hoje os críticos literários se sentem cada vez “menos obrigados” a analisar os livros com qualquer espécie de objectividade, e que a simpatia é “agora um elemento central do juízo crítico”, no texto sobre Edith Wharton ele afirma que “sem simpatia, seja pelo escritor ou pelas suas personagens ficcionais, uma obra de ficção tem uma enorme dificuldade em ser relevante”.

A maioria dos textos de O Fim do Fim da Terra denota o grande romancista que é Jonathan Franzen, se não na forma típica de “ensaio” pessoal, de subjectividade, de introspecção profunda, pelo menos na maneira como monta as suas identidades ao contar histórias sobre si próprio; a forma de “ensaio” parece ter sido uma boa maneira de ultrapassar aquele seu “horror tipicamente midwestern” (a expressão é dele) de falar demasiado sobre a sua pessoa. São, por vezes, textos brilhantes e claros no modo de narrar: Jonathan Franzen tem uma paixão desmedida pelas aves (habitam em quase todos os seus textos) e por isso viaja para vários lugares da terra (Jamaica, Santa Lúcia, Albânia, alguns países africanos, e Antártida) para as observar, são as narrativas destas viagens uma espécie de eixo central deste livro (há várias excepções, como o já referido texto sobre Edith Wharton, um sobre uma exposição de retratos de gente de Filadélfia, um sobre o escritor e seu amigo Bill Vollmann, entre outros), a par com o assunto das alterações climáticas, de onde diverge para algumas polémicas que teve com os ambientalistas — polémicas estas que tiveram mais a ver com as formas de luta escolhidas para defenderem as suas ideias do que com o conteúdo das mesmas. Tudo isto aparece sempre misturado com uma história pessoal, não raras vezes familiar, e é isso que fascina nesta escrita, que por vezes parece ainda esforçar-se pela procura de subjectividade.

Jonathan Franzen confessa quase no início: “sou aquilo que no mundo da observação das aves se chama um listador”, e diz ter uma compulsão para a contagem. Conta as espécies de pássaros que vê pelo mundo fora, mas também os que vê em cada país. Este aspecto da sua personalidade de “listador pessimista” não é dispiciendo, pois não faz isto apenas com as aves, no ensaio The Regulars (a propósito das fotografias de Sarah Stolfa) faz uma lista de elementos presentes nas quarenta fotografias, desde em quantas aparece a cerveja, ou tatuagens, chegando ao pormenor de quantos fotografados usam aliança de casamento; e há ainda um outro ‘ensaio’ (já referido acima) que consiste apenas na enumeração e listagem de regras para um romancista.