Crítica

Breve encontro

James Salter: relíquias do amor amealhadas em cidades, hotéis e estradas secundárias.

A ficção de Salter é feita de planos fragmentários e fixos que só justapostos nos dão o sentido e a amplitude da sequência
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A ficção de Salter é feita de planos fragmentários e fixos que só justapostos nos dão o sentido e a amplitude da sequência DAVID LEVENSON/GETTY IMAGES

As frases de James Salter são geralmente curtas. Ou muito curtas. A que abre este romance contém uma palavra: “Setembro.” Têm uma acentuada preferência pelo presente do indicativo. Assim escandido, o ritmo é sincopado, obsessivo, plácido: “Estradas de França. Restaurantes e cemitérios. Árvores negras e chuva suspensa. O ponteiro marca cento e quarenta. Os eixos estalam como lenha.” (p. 19) Se fosse realizador de cinema, o escritor (que, aliás, trabalhou alguns anos para aquela indústria) raramente “faria” uma panorâmica ou um travelling e nunca, nunca utilizaria o plano-sequência. Embora o clima, a temperatura, a vibração deste livro, como a de tantos dos seus contos, nos façam recordar, por exemplo, o bom velho Godard, a ficção de Salter é feita de planos fragmentários e fixos que só justapostos nos dão o sentido e a amplitude da sequência. Com uma espécie de objectividade imperturbável, discreta e precisa, só muito criteriosamente alteada por metáforas vistosas ou outras imagens de efeito, a prosa de Salter alcança, não obstante, o mais alto lirismo, a mais funda pungência, o mais ardente erotismo. Tão competente na descrição da materialidade terrena — “Estamos a comer ‘salada de tomates’, as rodelas grossas polvilhadas de salsa, reluzentes de azeite” (p. 151); “Na praia fronteira ao hotel os gritos das crianças sobem no ar como se fossem de aves. Anne-Marie anda nua pelo quarto. […] O seu tampão tem um pedaço de cordão que lhe pende, ligeiramente encaracolado, entre as pernas.” (p. 167) —, quanto na sugestão das mais imprecisas oscilações emocionais — “Regresso a pé. Nas ruas há um silêncio absoluto, não passa um carro, uma pessoa. Não há pássaros no céu claro. É como entrar no passado. Nada mudou. Nada faz barulho. À esquina, na janela de um café aonde eles vão às vezes, dorme um gato, um gato enorme, macio como um sonho.” (p. 140)

A tradução para português dos livros de James Salter (1925-2015) — um escritor mais cultuado pelos seus pares do que pelos restantes leitores — tardou enigmaticamente. Foi só no ano da sua morte que a Livros do Brasil promoveu, finalmente, a sua estreia em Portugal, publicando Tudo O Que Conta, o último dos seis únicos romances escritos por Salter em seis décadas de produção literária. A lentidão do autor — na escrita e na publicação — era lendária, bastando dizer que, entre o penúltimo romance e o último, Salter (que cedo desistira de uma carreira na Força Aérea norte-americana a favor da literatura) deixou escoar trinta anos. Em 2016, a mesma editora publicou em português o volume de contos A Última Noite e Outras Histórias e fez imprimir agora Brincadeira e Divertimento (que, no original, foi o segundo romance publicado pelo autor, em 1967). Sublinhe-se que as três traduções portuguesas são de Francisco Agarez.

A acção de Brincadeira e Divertimento decorre em França, no início dos anos de 1960. O ambiente, familiar a Salter, é o dos meios frequentados pelos expatriados americanos, vagamente endinheirados e vagamente boémios. Dean, o protagonista, um jovem “para quem tudo era demasiado fácil” (p. 81), foi um promissor prodígio matemático que se fartou das suas faculdades, e que uma indecidível dor existencial fez abandonar Yale e rumar à Europa para, ao volante de um belo carro desportivo francês, encontrar talvez um sentido para a vida. Ou o que lhe queiram chamar: “Como diz Rilke, não há aulas para principiantes na vida, fazem-nos sempre primeiro as perguntas mais difíceis.” (p. 47) Na ficção de Salter são recorrentes estas personagens heroicamente inquietas que descobrem ou pressentem, com mudo horror e tranquila aceitação, que não têm ‘jeito’ para a vida quotidiana. Ao mesmo tempo que suspende provisoriamente a ameaça de uma vida vulgar — aquela na qual o protagonista “vai ter de arranjar trabalho, pagar renda, ir todos os dias a pé almoçar a casa” —, a viagem torna também desejáveis, paradoxalmente, certa “calma provinciana”, aquelas “manhãs de domingo” nas avenidas desertas —“Os portões de ferro trancados diante daquelas alamedas compridas e húmidas que cheiram a urina.” E o narrador ecoa: “Aqueles domingos de província em que eu ia pelas ruas […], encontrando pelo caminho, quando não as inventava, aquelas pequenas epifanias de que a cidade é feita.” (p. 71)

Curiosa é a ambivalência deste narrador que, arvorando pontualmente trejeitos metaficcionais, já antes nos alertara: “Estou apenas a anotar pormenores que entraram em mim, fragmentos que conseguiram rasgar-me a carne. É uma história de coisas que nunca existiram, se bem que a mais ténue dúvida sobre isso, a mínima possibilidade, mergulhe tudo na escuridão. Só quero que quem ler isto seja tão resignado quanto eu. Já existe no mundo paixão que baste.” (p. 16) Umas páginas adiante, o “agent provocateur” do autor explicitará a sua poética num parágrafo decisivo: “Algumas coisas, como disse, presenciei-as, outras descobria-as e outras ainda sonhei-as, e já não consigo destrinçá-las. Mas os meus sonhos são tão importantes como aquilo que adquiri furtivamente. Mais importantes […]. Sem eles, os factos não passam de uma espécie de destroços, dispersos, como pedras de um colar. Os sonhos são tão verdadeiros e evidentes quanto as vedações de ferro de França que brilham negras à chuva. Mais verdadeiros, talvez. São o esqueleto de toda a realidade.” (p. 56)

Entretanto, Dean, que tem 24 anos, conhece Anne-Marie, que tem 18. Comenta o narrador: “Tinha eu acabado de entrar para o liceu e masturbava-me duas vezes ao dia […], quando ela nasceu, numa cama de violetas, como diz — todas as mães francesas dizem isso aos filhos.” (p. 52) O encontro será breve. Intensamente sexual e melancolicamente amoroso. Outras epifanias e premonições. Os alimentos terrestres. As “relíquias do amor” amealhadas numa deambulação por cidades, hotéis e estradas secundárias. São várias as locuções que sinalizam a itinerância sem remédio dos amantes com pouco dinheiro: “Angers. Orleães. Perros-Guirec. Fartámo-nos de andar de carro”; “caminham sem destino”; “Atravessam as ruas de uma cidade desconhecida. […] Não têm para onde ir. São forasteiros, as portas da cidade estão-lhes fechadas.” O resto, que se adivinha, conta-o liricamente o subtil e delicado narrador, que observa tanto quanto imagina. Magnificamente.