Canadá pede desculpa por não ter evitado a morte de 254 judeus

Em 1939, o Canadá rejeitou o desembarque de um navio com 907 judeus alemães que fugiam ao regime nazi. O navio foi obrigado a regressar à Europa, e pelo menos 254 passageiros morreram em campos de concentração.

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Reuters/CHRIS WATTIE

O primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau pediu desculpa em nome do Canadá por, em 1939, o país ter rejeitado o desembarque de um navio que transportava 907 refugiados judeus que tentavam fugir da Alemanha Nazi. O navio alemão MS St Louis e os seus passageiros já tinham sido igualmente rejeitados por Cuba e pelos Estados Unidos. Sem autorização para desembarcar, o navio regressou à Europa. Após o retorno, 254 passageiros acabariam por ser assassinados durante o Holocausto.

"Lamentamos a insensibilidade da resposta do Canadá. Recusámos ajudá-los quando podíamos tê-lo feito. Contribuímos para selar os destinos cruéis de muitos deles em lugares como Auschwitz, Treblinka e Belzec. E por isso, pedimos desculpa", declarou o primeiro-ministro canadiano, na quarta-feira, durante o seu discurso na Câmara dos Comuns, em Ottawa.

Apesar de terem conseguido vistos par entrar no Reino Unido, Holanda, Bélgica e França, os passageiros do navio acabaram por não conseguir escapar aos campos de concentração nazis.

“Pedimos desculpa às mães e pais das crianças que não salvámos e às filhas e aos filhos dos pais que não ajudámos. Não restam grandes dúvidas de que o nosso silêncio permitiu que os nazis avançassem para a sua ‘solução final’ em relação ao que chamavam de ‘problema judaico’”, acrescentou, citado pelo Guardian.

"Usámos as nossas leis para mascarar o nosso anti-semitismo, a nossa antipatia, o nosso ressentimento", disse Trudeau. “Lamentamos a insensibilidade da resposta do Canadá. E sentimos muito por não ter pedido desculpas mais cedo.” Escreve o New York Times que, entre 1933 e 1945, o Canadá concedeu asilo a 5 mil judeus. Um número muito inferior aos 70 mil refugiados aceites por Inglaterra e os 200 mil aceites pelos Estados Unidos.

O primeiro-ministro acrescentou ainda que, após o recente massacre numa sinagoga norte-americana, os judeus canadianos se sentem novamente “vulneráveis”. Descrito como o mais “mortífero ataque à comunidade judaica norte-americana”, o tiroteio na Pensilvânia fez 11 vítimas. “Estes trágicos acontecimentos recentes mostram que ainda temos trabalho a fazer”, vincou.

Antes do discurso, o primeiro-ministro canadiano esteve reunido com Ana Maria Gordon, uma das passageiras sobreviventes do navio a que o país negou desembarque, e que agora vive no Canadá.

PÚBLICO -
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Ana Maria Gordon é a única sobrevivente do navio a viver actualmente no Canadá Chris Wattie

No último ano, Justin Trudeau pediu também desculpa à comunidade LGBTQ pelo sofrimento causado pela acção do Governo do Canadá ao longo dos anos.