Como Tancos está a envenenar o ambiente entre Costa e Marcelo

Suspeitas mútuas, troca de “recados” e uma tensão entre o Presidente da República e o primeiro-ministro que não se sentia desde a demissão da antiga ministra da Administração Interna, em Outubro do ano passado. Motivo: o que sabem eles sobre Tancos?

rcelo, Costa e Ferr Rodrigues no desfile das Forças Armadas do último domingo
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rcelo, Costa e Ferr Rodrigues no desfile das Forças Armadas do último domingo LUSA/MIGUEL A. LOPES

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, com mais ou menos insistência, sempre convergiram sobre a necessidade de tudo apurar sobre o assalto a Tancos. Agora convergem na garantia de que nada sabiam sobre a suspeita operação de recuperação do material militar furtado. Só que hoje dão sinais de estarem costas voltadas e de que existe uma desconfiança mútua. Há uma subida de tensão entre o Presidente da República e o primeiro-ministro que não se sabe como vai acabar e que consequências terá. Como é que chegaram aqui?

A frase é dura, muito dura, surpreendente e tem um destinatário, embora não tenha sido revelado. “Se pensam que me calam, não me calam.” Marcelo Rebelo de Sousa reagia assim, sábado último, no PÚBLICO, a uma notícia da RTP que, na véspera, dizia de forma clara que a Presidência da República tinha conhecimento do encobrimento que terá levado à recuperação, em Outubro do ano passado, do material, ou da maior parte dele, alegadamente roubado em Tancos em Junho de 2017.

Mas, afinal, quem é que quer calar o Presidente da República? Quem quer criar “uma nebulosa” que, como Marcelo também afirmou, tem o único efeito prático de não apanhar o ou os responsáveis pelo furto das armas? Quem visa o mais alto magistrado da nação, quando diz que o querem silenciar?

Alguns comentadores, nomeadamente Marques Mendes, conselheiro de Estado e próximo de Marcelo, logo viram António Costa como destinatário das palavras do Presidente da República. O primeiro-ministro desmentiu de pronto, nesta terça-feira, a existência de qualquer dissidência ou de “atritos”. Chamou-lhes "teorias conspirativas bastante absurdas”, assegurando que os dois têm “tido uma posição absolutamente convergente desde o primeiro dia" sobre Tancos.

Nesta terça-feira, repetiu que ele e o chefe de Estado “estão em total convergência desde o primeiro dia”. E para os que viram como uma farpa a Marcelo Rebelo de Sousa a referência, na véspera, à "ansiedade" do Presidente da República em relação à conclusão do processo de Tancos e a afirmação de que o Governo tinha de ser mais contido sobre essa matéria embora não tivesse ansiedade menor, Costa sublinhou nesta terça-feira que quem está “de boa-fé” não leu nas suas palavras qualquer conselho ao chefe de Estado.

Também nesta terça-feira Marcelo Rebelo de Sousa, ainda que de forma mais fria, desmentiu divergências com o Governo, afirmando que ele, Costa e todos os portugueses querem que se apure toda a verdade, com conclusões o mais rapidamente possível. Perante a insistência dos jornalistas se não havia mesmo nenhuma divergência com o executivo soltou um simples "não".

Estão Marcelo e Costa “em total convergência” desde que se soube do assalto aos paióis de Tancos? A resposta só pode ser uma: sim. O Presidente, com mais insistência, e o primeiro-ministro, com mais discrição, sempre pediram o total apuramento do sucedido.

Até que chegamos a este fim-de-semana e início de semana em que foram notórias as divergências, as farpas e em que um silêncio de Marcelo foi até mais ruidoso do que todas as palavras. Quando questionado pelos jornalistas, ao final da tarde de segunda-feira, sobre se havia um mal-estar em relação ao Governo por causa de Tancos, o Presidente nada respondeu.

A ausência de resposta ou esclarecimento sobre o estado da sua relação com Costa sobre Tancos reforçou a convicção dos que viam no primeiro-ministro o homem que queria o silenciar o Presidente da República de que falou Marcelo. Isto, já depois de o chefe do Governo garantir que tudo ia muito bem entre ambos sobre a matéria. O silêncio de Marcelo Rebelo de Sousa reforçou igualmente as convicções dos que viram na referência à ansiedade do Presidente uma resposta ou uma farpa de Costa a Marcelo.

Mas por que razão é que se chega a esta tensão entre ambos por causa de Tancos? Porque um e outro começaram a ver os seus nomes envolvidos no alegado encobrimento que levou ao achamento das armas. Ou melhor, porque se começou a questionar se não sabiam ou o que podiam saber sobre essa operação.

Nesta matéria, ambos também sempre convergiram na negação de terem tido qualquer conhecimento sobre o que se tinham passado até ao dia (25 de Setembro) em que foram detidos vários elementos da Polícia Judiciária Militar (PJM), da GNR e um civil, alegadamente o autor do assalto aos paióis.
Mas, na verdade, um e outro deram sinais públicos de que podiam saber mais do que o que podiam saber em ocasiões diferentes.

Primeiro Marcelo, quando, a 10 de Setembro, 15 dias antes das detenções dos homens da PJM, fez a seguintes afirmação: "Estamos, penso eu, na ponta final da investigação criminal. (…) E eu hoje tenho uma forte esperança que seja uma questão de dias ou de semanas, e não de meses, portanto, que estejamos mesmo muito próximos do conhecimento das conclusões da investigação criminal."

Depois Costa, quando, a 26 de Setembro, no Parlamento dirigindo-se a Fernando Negrão (PSD), que o questionava sobre se mantinha a confiança no então ministro da Defesa, Azeredo Lopes, afirmou: “Um dia ainda haveremos de saber o que cada um sabia sobre esta história de Tancos.” A chegada desse dia nunca foi tão importante.

Dezanove intervenções

A questão de Tancos tem sido motivo de várias declarações públicas por parte do Presidente da República e do primeiro-ministro, desde que se soube do assalto aos paióis nacionais. Mas essas declarações tornaram-se mais frequentes desde que, a 25 de Setembro, foram detidos os homens da PJM, da GNR de Loulé e de um civil, alegadamente responsável pelo assalto. Tudo por causa de um possível encobrimento dos militares ao alegado ladrão a troco da devolução do material de guerra.

E não faltaram razões para um e outro abordarem o tema com frequência. Entre 25 de Setembro e hoje aconteceram surpreendentes detenções, caiu o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, demitiu-se o chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, e foram lançadas várias suspeitas de que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa podiam saber mais do que o que diziam sobre a operação que levou ao achamento das armas de Tancos.

Segundo uma exaustiva recolha de declarações feita pela agência Lusa, desde que os homens da PJM foram detidos até hoje (43 dias), Costa e Marcelo falaram publicamente sobre Tancos pelo menos 19 vezes. Onze por parte do Presidente e oito pela voz do chefe do Governo.