Editorial

O vírus da suspeição tomou Tancos de assalto

O caso de Tancos criou um vírus que alastrou da esfera militar, ganhou resistência nas instâncias judiciárias e ameaça tornar-se endémico na política. A natureza do processo que envolve armas, oficiais do Exército, gabinetes de políticos e segredo de justiça é muito propenso a teias de suspeição (a “nebulosa”, como lhe chamou o Presidente da Republica) e nada propenso ao apuramento de culpados e responsabilidades. A suspeição, viu-se nos últimos dias, começa a envenenar a vida pública. O Exército, a Judiciária, o Ministério Público, o Governo, a Presidência, todos parecem suspeitar de todos. Depois de se saber que a entrega das armas foi uma farsa organizada, Tancos transformou-se num problema sem fim à vista. Um terreno fértil para a especulação, para a intriga e para a fuga em frente. 

O pior que podia acontecer já começou a acontecer. Um claro mal-estar entre o Governo e a Presidência da República tornou-se evidente, por muito que António Costa se esforce por o mistificar. É um mal-estar real e perigoso porque não conhecemos factos capazes de o justificar. Sem esses factos, nem a veemência do aviso de Marcelo Rebelo de Sousa (“Não me calo”), nem a sua advertência de que as Forças Armadas têm de ser subtraídas aos “jogos de poder” fazem sentido. Como faz pouco sentido o apelo de António Costa para que o Governo seja “mais contido em expressar a sua ansiedade”. Perante a incongruência destes estados de alma, resta uma óbvia conclusão: há algo nos bastidores que nos escapa mas que preocupa muito as mais altas instâncias do poder político.

Depois da demissão de Azeredo Lopes, a suspeição instalou-se no Governo, que, seguindo receitas antigas tratou de a conter criando uma cortina de silêncio que leva ao esquecimento. António Costa bem tentou aplicar esse plano com o seu proverbial optimismo, mas Marcelo jamais deixou sair Tancos da agenda. Será que esta divergência de estilos criou um foco de conflito? Depois da reportagem da RTP, que levou o foco de contágio para Belém, seria possível acreditar que o infortúnio comum poderia levar Marcelo e António Costa a preservar a boa relação. Mas aconteceu o contrário. Se é por causa de suspeitas que um está a espalhar o vírus para o outro, não sabemos. Sabemos sim que Tancos se tornou num factor de corrosão da estabilidade institucional. Um perigo para o estatuto de Presidente-Rei de Marcelo e ainda mais para as ambições de maioria do PS nas próximas eleições legislativas.

Texto actualizado às 10h50: Trocou-se a frase “Como faz pouco sentido o apelo de António Costa para que Marcelo seja ‘mais contido em expressar a sua ansiedade’” por “Como faz pouco sentido o apelo de António Costa para que o Governo seja ‘mais contido em expressar a sua ansiedade’”. O primeiro-ministro de facto mencionou a “ansiedade” do Presidente, mas não lhe dirigiu um apelo para que a “contenha”.