Opinião

Eleições nos EUA: o fim do princípio?

Enfatizo o que mais importa a longo prazo numas eleições nos EUA: não a Câmara dos Representantes, não o Senado, nem sequer a Casa Branca, mas sim o Supremo Tribunal.

Nova Iorque, EUA. — Há dois anos e dez dias, uma sondagem dava Hillary Clinton e os democratas cerca de cinco pontos percentuais acima de Trump e dos republicanos. Nas condições específicas daquele ano, isso significaria não só uma vitória de Clinton na Casa Branca como uma vitória do Partido Democrático nas duas câmaras do Congresso. Por sua vez, um resultado desses permitiria a Obama, nos últimos meses do seu mandato, concluir com sucesso o processo de nomeação do seu candidato ao Supremo Tribunal, que os republicanos tinham bloqueado numa tática dilatória. Com uma possível maioria progressista no Supremo Tribunal, coisas que antes pareceriam impossíveis nos EUA passariam a ser matéria de debate: por exemplo, a abolição da pena de morte ou o fim das doações de empresas a partidos políticos, que Hillary Clinton, sob pressão de Bernie Sanders, prometera tornar no teste decisivo para a nomeação de qualquer juiz no Supremo.

Repito esta memória não para especular sobre o que teria sido uma presidência Clinton — se a minha avó tivesse rodas era um carro elétrico —, mas para enfatizar o que mais importa a longo prazo numas eleições estado-unidenses: não a Câmara dos Representantes, não o Senado, nem sequer a Casa Branca, mas sim o Supremo Tribunal. Com a vitória de Trump, os republicanos têm assegurada uma maioria por 5-4 ou mesmo 6-3 de conservadores sobre progressistas entre os nove juizes do Supremo. Com essa maioria, aquilo de que os EUA vão falar por muito tempo não vai ser em abolir a pena de morte ou limitar o poder das empresas nas campanha eleitorais no país. Com um Supremo Tribunal que vai ser conservador durante décadas, os temas das decisões judiciais futuras vão sobretudo ser os prediletos de Donald Trump: como impedir imigrantes de terem acesso à cidadania americana, garantir que não se faz nenhum esforço para que as minorias étnicas e raciais possam votar, e assegurar que o dinheiro privado e empresarial continua a falar mais alto do que a mobilização política dos cidadãos comuns.

Por sua vez, enfatizar esta conclusão não serve apenas para provar que as eleições têm consequências que podem durar gerações, nem para reforçar qualquer tipo de fatalismo. Pelo contrário; a razão para nos focarmos no Supremo Tribunal americano é simples e analítica: entendermos que a vitória de Trump em 2016 é uma vitória cujas consequências nos vão acompanhar por muito tempo.

Enquanto escrevo, milhões de americanos exercem o seu direito de voto (mesmo na Geórgia, onde as secções de votos de maioria negra têm uma irritante mania de ter todas as máquinas de votação avariadas — o secretário de estado que organiza as eleições é também o candidato republicano a governador, contra uma candidata democrata negra). Mesmo aqui em Nova Iorque, onde as vitórias dos democratas, incluindo socialistas democráticos como Alexandria Ocasio-Cortez, são certas, as filas para votar são longas.

Mas mesmo na melhor das hipóteses, uma vitória democrata na Câmara de Representantes permitiria iniciar um processo de impeachment contra Trump por uma das suas várias vilanias — mas não encerrar esse processo. E uma vitória dos democratas no Senado, improbabilíssima, mesmo que numa hipótese ainda mais remota encurtasse o mandato de Trump, não chegaria para lidar com o impacto total da sua ação na Casa Branca — e aí não falo só da maioria a longo prazo que ele firmou no Supremo mas também da agressividade, polarização e corrosão que ele introduziu no discurso público neste país e que vão demorar muitíssimo a expurgar, ainda que parcialmente. O tempo não anda para trás, é a lição que fica de 2016.

Independentemente dos resultados, o melhor desta eleição intercalar nos EUA é desde já a iniciação política de uma geração mais à esquerda que qualquer outra no pós-guerra americano. O horizonte político dessa geração terá sempre de ser a longo prazo. Para os próximos dois anos, porém, a sua principal missão vai ser a limitação de danos.

Estas eleições não vão ser o fim de Trump, nem sequer o princípio do fim. Com um bocado de sorte, poderão ser apenas o fim do princípio.