Torne-se perito

Negociações sobre cessar-fogo só fizeram piorar “pesadelo sem fim” no Iémen

Pressões para obrigar sauditas e huthis a discutir o fim da guerra não trouxeram alívio aos iemenitas. Pelo contrário, as forças árabes só intensificaram os ataques à cidade de Hudheida. "Estamos presos aqui, sempre à espera, sempre com medo", diz um residente.

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Quem podia fugir saiu de Hudheida logo em Junho, quando começaram os ataques Mohamed al-Sayaghi/REuters
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Forças leais ao Governo participam na ofensiva contra Hudheida EPA

Parece ser a derradeira tentativa de alcançar ganhos no terreno enquanto não chegam as planeadas conversações de paz, que a ONU quer organizar na Suécia ainda este mês ou no início de Dezembro. Certo é que na primeira semana de Novembro mais de 100 bombardeamentos atingiram bairros civis na cidade de Hudheida, cinco vezes mais do que nos primeiros dias de Outubro.

As contas são dos funcionários da Save the Children na cidade portuária do mar Vermelho, antiga principal entrada de alimentos, medicamentos ou combustível no Iémen.

Primeiro veio a guerra civil e a cidade caiu nas mãos dos huthis, que se rebelaram contra o Governo reconhecido internacionalmente. A verdadeira tragédia começou em Março de 2015, quando a Arábia Saudita formou uma coligação árabe sunita para defender o Governo e combater os huthis, uma tribo xiita com laços ao Irão. Antes, o Iémen importava 90% da alimentação e 80% de tudo o que entrava no país chegava por Hudheida.

“Os confrontos tornaram-se absolutamente loucos. Dói-me a cabeça dos bombardeamentos e dos disparos. As pessoas passam horas fechadas em casa por causa dos estilhaços e das balas. Mas as casas também não são seguras”, conta Baseem al-Janani, um residente de Hudheida ouvido pelo jornal The Guardian. “Muitas pessoas são demasiado pobres para fugir, o combustível é demasiado caro. Estamos presos aqui, sempre à espera, sempre com medo.”

O representante do Conselho de Refugiados Norueguês (CRN) em Hudheida, Isaac Ooko, diz que a situação "está pior do que catastrófica". "Os ataques aéreos têm sido muito intensos, os aviões a sobrevoar a cidade causam uma ansiedade permanente... Hudheida tornou-se numa cidade fantasma", descreveu à Reuters por telefone.

“Os últimos 12 meses têm sido um pesadelo sem fim para os civis iemenitas”, descreve num comunicado divulgado esta quarta-feira Jan Egeland, ex- chefe da ajuda humanitária da ONU e actual director do CRN, referindo-se ao início do bloqueio a Hudheida, imposto por Riad e entretanto aliviado sob pressão internacional.

Não é uma surpresa: “No Iémen, uma criança morre a cada dez minutos de uma doença que podia ter sido evitada”, repetiu no regresso de uma viagem ao país o representante da UNICEF (fundo de emergência para as crianças da ONU) para o Médio Oriente, Geert Cappelaere. “O Iémen tornou-se num verdadeiro inferno para as crianças. Não para 50 ou 60% das crianças. É um verdeiro inferno para cada menino e cada menina no Iémen.”

Quantos mortos?

Ninguém sabe quantas pessoas já morreram por causa da guerra – a estimativa de 10 mil, muitas vezes citada, corresponde a declarações de um responsável da ONU no início de 2017. Segundo os números de um grupo de investigação ligado à Universidade britânica de Sussex (The Independent Yemen for the Armed Conflict Location and Event Data Project), até ao início de 2016 tinham já morrido 56 mil pessoas – sem incluir mortes provocadas por malnutrição e doenças como a cólera.

Como a coligação árabe, responsável por grande parte das mortes, é apoiada por Washington, Paris ou Londres, ninguém tem um real interesse em contar as vítimas.

A ONU estima que em Hudheida estejam ainda 600 mil pessoas, metade delas crianças. Hudheida era “a linha vermelha”, a ligação do Iémen ao mundo; e os iemenitas acreditavam que os aliados de Riad não permitiriam uma operação ali. Enganaram-se: os Estados Unidos, o Reino Unido e outros deram a sua bênção ao ataque iniciado em Junho, anunciado como primeiro passo na “recaptura do Iémen”.

Seis meses depois, quase todas as cidades iemenitas permanecem controladas pelos huthis e Hudheida está sob fogo como nunca. Isto numa altura em que o Governo britânico, principal fornecedor de armas, informações e logística aos sauditas, começa a ser alvo de pressões internas para deixar de apoiar Riad, e os Estados Unidos decidiram aproveitar a conjuntura de vulnerabilidade dos líderes da monarquia para tentar convencê-los a negociar um cessar-fogo.

O outro crime

É o efeito Khashoggi – o assassínio do jornalista Jamal Khashoggi, no consulado saudita de Istambul, a 2 de Outubro, pôs o mundo a olhar para outros crimes sauditas e países que têm apoiado Riad nesta guerra decidiram agora empenhar-se em pôr-lhe fim. “Parece que há um novo esforço para acabar a guerra por parte da coligação [árabe]. Os sauditas querem encobrir o seu outro crime”, diz ao The Guardian um iemenita membro de uma organização humanitária.

“Temos de avançar no sentido de um esforço de paz e não podemos dizer que o faremos um dia no futuro”, afirmou o chefe do Pentágono, James Mattis, numa intervenção no Institute of Peace, em Washington. As partes em conflito têm de se “reunir na Suécia em Novembro e encontrar uma solução ", insistiu, numa das declarações mais claras até ao momento por parte de responsáveis americanos.

Não é fácil convencer comandantes sauditas nem huthis de nada, principalmente “a considerarem a segurança dos civis nas suas operações”, disse em Outubro ao PÚBLICO o director-geral dos Médicos Sem Fronteiras. A principal particularidade do conflito iemenita, “o maior drama humanitário da actualidade”, sublinha Joan Tubau, é não gerar refugiados: “As pessoas movimentam-se dentro do país. Há o mar, e do outro lado está a Somália ou a Eritreia, maus destinos, e depois a enorme fronteira com a Arábia Saudita. Não há por onde escapar”.

O Iémen é hoje uma nação encurralada, com a ONU a estimar (antes da notícia da intensificação dos confrontos em Hudheida) que até 13 milhões de civis podem morrer à fome se as forças lideradas por Riad não puserem fim aos bombardeamentos. Numa população de 25 milhões, 22 milhões de pessoas dependem de ajuda para sobreviver.

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