Análise

Um “novo dia na América” mas não no mundo

Com a agenda interna bloqueada, Trump, como outros antes dele, tenderá a concentrar-se na política externa, procurando arrecadar rapidamente alguns sucessos e continuando a destruir a ordem liberal que os EUA construíram depois da Guerra

1. Se a vitória democrata na Câmara dos Representantes vai limitar a agenda interna do Presidente, o mesmo não se pode dizer da sua política externa. O Presidente americano tem vastos poderes neste domínio, incluindo na capacidade de utilizar a força militar em determinadas circunstâncias, desfazer acordos comerciais ou tratados internacionais, assinar novos tratados, embora sujeitos à ratificação do Senado, que continua em mãos republicanas. Com a agenda interna bloqueada, Donald Trump, como outros antes dele, tenderá a concentrar-se na política externa, procurando arrecadar rapidamente alguns sucessos e continuando, ao mesmo tempo, a destruir paulatinamente a ordem liberal que os EUA construíram depois da Guerra. “Ele acusará Paul Ryan [o speaker republicano da Câmara], dará os parabéns a Mitch McConnell [o líder do Senado], embarcará no avião [rumo a Paris] e continuará a dizer ‘Eu sou o Rei do Mundo”, diz ao Politico.us Wendy Sherman, conselheira de Barack Obama e voz respeitada entre a elite das relações internacionais.

2. Depois de algumas semanas a olhar para dentro, é provável que o Presidente regresse em força às negociações com a Coreia do Norte para um acordo que encha a vista, mesmo que não seja fácil. E haverá uma pequena diferença, neste como noutros domínios: com representantes democratas a presidir às comissões da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, os pedidos de informação e as audições serão muito mais insistentes. Os democratas apoiam a iniciativa coreana mas querem mais garantias sobre as promessas de Kim Jong-un. Na sua maioria, também não têm objecções em relação à linha dura de Trump em relação a Teerão. Quanto a Vladimir Putin, não terá visto com satisfação a vitória dos democratas, muito mais críticos em relação ao seu comportamento na Ucrânia ou na Síria e, sobretudo, muito mais incómodos sobre o fácil relacionamento que mantém com o seu homólogo americano ou nas interferências russas nas eleições de 2016.

3. Será, de resto, um alívio para Trump, depois desta semiderrota, poder voar no domingo para Paris, onde vai participar nas comemorações dos 100 anos do Armistício. Falará com o seu homólogo francês sobre vários temas na agenda, nomeadamente as sanções contra o Irão, que afectam indirectamente as empresas europeias. Mas também sobre o anúncio da retirada do Tratado sobre redução dos mísseis nucleares de médio alcance, assinado entre Reagan e Gorbatchov no início do fim da Guerra Fria, mais um motivo de preocupação dos aliados, não apenas pelo receio de uma nova escalada nuclear, mas porque estes mísseis têm como alvo o território europeu. De resto, os aliados europeus não têm ilusões sobre qualquer correcção na mudança de 180 graus da política norte-americana em relação à NATO e à integração europeia. Querem apenas minorar os danos. Em Paris, Berlim ou Londres também se sabe onde estão os amigos europeus de Trump. James Carafano, da Heritage Foundation, diz ao mesmo site: “Honestamente, os europeus não vão mudar o que pensam sobre Trump. Se o Presidente quiser continuar o baile, deve ir a Varsóvia e a Budapeste, não a Paris.” Eliot Engel, o democrata que deverá presidir à nova Comissão do Negócios Estrangeiros na Câmara, comentando o que pode ser feito, limitou-se a dizer: “Devemos tentar reparar os estragos feitos nas nossas alianças.” Alguns republicanos diriam exactamente o mesmo.

4. Já na “guerra comercial” com a China, as divergências entre europeus e americanos são mais de método do que de conteúdo. Nos dias anteriores às eleições, o Presidente adoçou um pouco a sua retórica, declarando que os dois lados se estavam a aproximar de um entendimento em meteria comercial, enquanto Mike Pompeo anunciava que a China seria um dos oito países isentos durante seis meses de aplicar as sanções petrolíferas contra o Irão. Neste domínio, não há no Congresso qualquer divergência entre Trump e os democratas.