Crítica

Às portas do inferno

Tem sido um bom ano para o cinema de terror e esta variação sobre o filme clássico de guerra é mais uma prova disso.

<i>Operação Overlord</i> não renega os lugares-comuns do género, antes os configura de outro modo para acordar o desconforto, o medo
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Operação Overlord não renega os lugares-comuns do género, antes os configura de outro modo para acordar o desconforto, o medo
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A guerra é o inferno. É um lugar-comum, mas os lugares-comuns têm sempre um pingo de verdade; e todo o heroísmo abnegado do cinema clássico de guerra sempre colocou os seus heróis a atravessarem o inferno (metafórico) em nome de uma causa justa. Operação Overlord vai buscar o seu título à operação de 1944 na qual as tropas aliadas chegaram à Europa para rechaçar os nazis — com uma primeira cena em que se estabelecem as personagens, à boa velha maneira do filme de pelotão.

Depois o pára-quedista Boyce cai por trás das linhas inimigas e ele e os seus camaradas sobreviventes, encarregados de destruir uma torre de transmissão instalada num castelo francês, dão de caras com um laboratório alemão que parece saído do Juízo Final de Bosch ou de um livro de Lovecraft. Passámos do inferno da guerra para o inferno tout court, inventado por Billy Ray, estimável argumentista (Capitão Phillips) e realizador (Quebra de Confiança), entregue nas mãos do australiano Julius Avery por J. J. Abrams, o discípulo de Spielberg que fez nome na televisão com Perdidos e Fringe e Alias e devolveu fôlego no grande ecrã às sagas Star Trek e Star Wars. Operação Overlord redime os tropeções que foi dando com a série Cloverfield, bastando para isso pegar na fórmula do filme de guerra e remeter para os verdadeiros casos das experiências levadas a cabo por Josef Mengele e outros cientistas nazis. Basta pegar na realidade e desviá-la apenas uns quantos centímetros para o lado, pegar no mal que já existiu e está documentado, sem precisar de criar universos alternativos, para tornar um filme de terror em algo de singular.

Operação Overlord não renega os lugares-comuns do género, antes os configura de outro modo para acordar o desconforto, o medo — um argumento mais sólido do que é habitual que sabe manter o espectador sempre no escuro sobre o que vai acontecer a seguir e sobre o que aquele castelo em França esconde. 2018 tem sido um bom ano para o cinema de terror, e Operação Overlord é — a par de Mandy ou O Interminável, apesar de Hereditário ou A Freira Maldita — mais uma prova disso.