Crítica

A diva e os guerrilheiros

Salva-se pouco daqui, deste cruzamento do thriller e do melodrama. E Bel Canto desfaz o mito de que Julianne Moore consegue fazer tudo.

<i>Bel Canto</i> desfaz o mito de que Moore consegue fazer tudo
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Bel Canto desfaz o mito de que Moore consegue fazer tudo
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Desde o American Pie que Paul Weitz trabalha no registo da comédia deprimida, centrada em personagens desajustadas, por vezes com resultados satisfatórios (About a Boy ou Uma Boa Companhia, no princípio dos anos 2000). O cruzamento do thriller e do melodrama é que não parece ser para ele, como o indica este insosso Bel Canto. Estamos num pais da América do Sul (o “alerta cliché” soa cedo, a caracterização cultural é estereotipada), e uma festa cheia de convidados internacionais é tomada de assalto por um grupo de guerrilheiros, que pretendem trocar os reféns pela liberdade de outros guerrilheiros que estão na prisão.

Weitz filma os dias do cativeiro, a aproximação entre reféns (sobretudo, a relação entre as personagens de Julianne Moore, a cantora de ópera, e Ken Watanabe, o industrial japonês) e a aproximação entre guerrilheiros e reféns (fatalmente, todos vão “compreender-se” uns aos outros, e até criar laços afectivos, numa demonstração prática do sindroma de Estocolmo). Infelizmente, nada funciona — porque as personagens (construidas com um “elenco internacional” que até é relativamente singular) são “genéricas”, porque Weitz falha a tensão gerada pela clausura em tempo indeterminado, porque nunca se acredita na vertente sentimental do filme, cujo desenvolvimento parece sempre forçado. Resultado: não se sente nada, nem no desfecho da situação militar (dada por inevitáveis ralentis trágico-musicais), nem no ensemble melodramático, cujo climax é, aliás, duma lamechice pegada. Subsidiariamente, Bel Canto desfaz o mito de que Julianne Moore consegue fazer tudo, pois as cenas em que “canta” (na verdade, faz apenas lip sync) andam perto de serem ridículas. Salva-se pouco daqui.