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Palavra de Aurélio

Sol-e-dó

Vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa.

Muitas foram as pessoas cuja bondade intrínseca me fez chegar inquirições sobre o meu amigo Nestor, de que tenho feito silêncio após a menção, em crónica anterior, da sua salvação para o nosso mundo. Pois bem, aqui o têm, a ele e a mim, atarefados, no castelo onde o acolhi e onde nos abrigamos de todo o tipo de intempéries, sejam meteorológicas, sejam de urdidura exclusivamente humana.

O nosso local de trabalho comum é a biblioteca, onde eu investigo e ele organiza, entre os famosos reposteiros de veludo, os cortinados de cambraia e as estantes de madeira maciça que acrescentam beleza à responsabilidade de arcar com a livralhada que eu tenho agrupado ao longo da vida, seguindo a lógica da curiosidade.

Estando eu, há um par de dias, no alto da escada móvel de madeira nobre em que me empoleiro para consultar os volumes mais fora de alcance — e que admirável escada, salva de um solar esventrado para melhor acomodar uma fábrica de dinheiro de alojamento local —, ouvi um canto que voava de uma janela do andar superior que reconheci como uma canção popular antiga que raramente se ouve, já que dela não foi feita nenhuma versão recente pelos Xutos e Pontapés.

Suspendendo a minha consulta, pedi ao Nestor, mais afoito com as novas tecnologias, que procurasse saber que transcrições daquela letra havia nos internéticos lugares da especialidade. Limitando-nos à primeira estrofe, encontrou a seguinte:

“Lá em cima está o tiro-liro-liro 
Cá em baixo está o tiro-liro-ló
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina
A dançar o solidó”

Não sei se conhecem a canção, muito antiga, que é espantosa. Não o será menos, com certeza (“concerteza” é erro ortográfico; “concertina” é instrumento musical), pela nossa falta de compreensão do texto e do que pretende exactamente descrever: o que será um tiro-liro-liro? O que será um tiro-liro-ló? Como se dançará o solidó?

Esta é apenas uma amostra do que passo para tirar estas coisas a limpo, para fazer todas estas investigações, para manusear todos estes calhamaços, com um esforço de subida e descida da tal escada lindíssima que me exige uma forma física muito para lá da idade que me gritam os meus pobres ossos e músculos, prestes, bem o temo, a apresentarem queixa contra mim.

Voltando ao tiroliro. Atendendo a que a palavra existe, assim grafada, com o significado de pífaro, podemos imaginar que o autor da canção terá avistado — ou terá criado para esta canção — duas variedades de tiroliro, a que deu o nome de tiroliro-liro e tiroliro-ló, cujas grafias, por essa razão, proponho do modo que aqui vêem, à semelhança de saxofone-barítono ou saxofone-tenor. Quanto a solidó, não se dança, corrige-se; o que se dança é o sol-e-dó, que, tal como a palavra muito expressivamente indica, é uma música muito rudimentar composta por apenas dois acordes, o sol e o dó, podendo alargar-se o significado a uma orquestra que padeça das mesmas limitações.

Ilustrando, um estudioso demonstrou, há um par de anos, como a maior parte dos êxitos de música das últimas dez décadas se baseiam naqueles acordes, podendo ser tocados em rapsódia (em português corrente: medley) num instrumento como o cavaquinho. Esta descoberta teve tal arte em manter os espectadores boquiabertos que esteve na base de uma digressão transcontinental com lotação esgotada das salas de espectáculos até chegar às TED Talks pelas mãos de alguém que parecia estar possesso de uma oportunidade de negócio. Num ápice, da sua perícia instrumental presa por arames tirou arremedos de Hello Dolly, What a Wonderful World, Somewhere Over the Rainbow, Riders on the Storm, Raindrops Keep Falling on My Head que demonstraram cabalmente a teoria. Sem parar, progrediu para Highway to Hell, Like a Virgin, Smells Like Teen Spirit, Macarena, Strangers in the Night, O Dia em que o Rei Fez Anos, e, dando ares de moto contínuo, atacou, como se nada fosse, London, Still Loving You, Eviva España, Bed of Roses, Gangnam Style, A Little Green Rosetta, Puppet on a String e a suite sinfónica Sheherazade. Não consegui ver mais. 

Para ele, deu certo: foi convidado para apresentador de televisão e agora pondera as suas opções entre fazer parte do júri do America Got Talent ou candidatar-se ao Senado. “Only in America”? Não. A América, agora, is all over the place. Veja-se o êxito do transplante do Halloween para partes do globo onde uma tradição importada fazia tanta falta como uma nova variedade de queijo…

Não é fácil ter de revolver assuntos como este para satisfação do público leitor, que, na segurança dos seus sofás, não imagina os perigos a que se expõe o filólogo, o etimófilo, o verbófilo, que é mais o meu caso. Se o léxico consagrou pé-de-atleta (leva hífenes para se distinguir do pé de um qualquer atleta), também deveria ter consagrado cabeça-de-filólogo para significar um crânio envolto em ligaduras em consequência de reacções vândalas de pessoal em bares ou cervejarias (as novas tabernas), quando se lhes tenta dizer que tal ou tal grafia não está correcta. Bem esteve a equipa do novo Dicionário da Academia em ter permanecido cuidadosamente no exterior das tabernas dos bairros populares de Lisboa a tomar notas de como falavam os seus ocupantes activos. Assim se resguardaram sabiamente e assim justificaram as incríveis grafias e pronúncias inovadoras que figuram naquele duplo tomo académico (o resto atribuíram ao Diário de Notícias, Jornal de Notícias, PÚBLICO e Expresso, respigando frases por vezes publicadas em dias de guarda dos revisores).

Vem isto a propósito de sol-e-dó. Quando disse a um fadista mais compenetrado que a sua letra estava errada no ponto em que exibia “solidó”, escrevendo que a forma era uma e uma só, sol-e-dó, pus involuntariamente em marcha um dínamo cuja corrente gerada o electrificou a ele e aos seus apaniguados da comunhão dos ritos castiços que, num repente, e sem o saberem, recriaram o famoso “número do garfo sujo” do grupo Monty Python Flying Circus.

Termino chamando a atenção para o meu próximo livro, A Vida É Dura na Verbofilia Activa, em que aconselho os confrades verbófilos sobrevivos a esquecerem os seguros de vida e a investirem em capacetes de policarbonato e em coletes de Kevlar®. Resta-me o consolo de acreditar naquele ditado que diz: “Quem com guitarras portuguesas e violas mata, com guitarras portuguesas e violas morre.” E é bem feito!

Correio Premente

De Almerindo Cascalho, do lugar de Pafarrão, freguesia de Chancelaria, concelho de Torres Novas: “Num dos seus Correios Permanentes, apercebi-me de que respondeu a uma pergunta de um ditador da América do Sul. Acho descabido que um ditador seja autorizado a fazer perguntas sobre língua portuguesa, ainda para mais sendo estrangeiro. Acho mesmo mal.”

Caro leitor, apresso-me a desfazer um equívoco que pode estabelecer-se antes de o ser: tendo eu tratado o assunto das eleições brasileiras com as pinças que a conjuntura exigia, ou seja, não as abordando nesta rubrica, para evitar as tão temidas represálias que levam os depoentes em casos bicudos, na televisão, a alterarem as suas vozes para versões de barítono que se possam confundir com as do habitante médio do cosmo mais remoto – e como não posso recorrer a esses estratagemas –, é com o coração transbordante de alegria que posso garantir, tendo na minha mão cópia autenticada da certidão de nascimento de narrativa completa, que o leitor e consulente Anastácio Somoza, que me escreveu do lugar de Tornaleites, freguesia de Espinhal, concelho de Penela, não é actualmente da família – nem nunca foi (salvo, talvez, recuando ao século XVI) – do ditador da Nicarágua Anastasio Somoza Debayle, tendo-me também enviado uma declaração reconhecida em notário de que não é – nem nunca foi – membro do Partido Nacionalista Liberal. Por isso pede o favor de desconvocarem, pelo Datebook, a manifestaçãozinha convocada para lhe incendiar a casa. Obrigado.