O Partido Democrata também quer construir um muro — no Congresso, contra Trump

Milhões de eleitores norte-americanos regressam esta terça-feira às mesas de voto para escolherem os homens e as mulheres que vão fazer as leis até ao fim do mandato do Presidente Trump. É a última oportunidade para o Partido Democrata conquistar a maioria na Câmara dos Representantes e travar a agenda da Casa Branca até 2020.

Foto
Comício com a participação de Trump em Chattanooga, no Tennessee Reuters/JONATHAN ERNST

Dois anos depois de Donald Trump ter triunfado nas eleições para a Casa Branca com uma América em ruínas nos olhos e uma promessa de salvação nas mãos, os eleitores dos Estados Unidos regressam esta terça-feira às mesas de voto em todo o país. O principal objectivo é escolher os congressistas que vão propor e aprovar leis nos próximos dois anos, até às presidenciais de 2020, mas toda a gente sabe que há muito mais do que isso em jogo: tal como o próprio Presidente fez questão de proclamar nas últimas semanas, estas eleições são também um referendo à sua liderança, num momento em que a saúde da economia contrasta com o aumento dos crimes de ódio contra as minorias.

Em causa estão várias eleições no mesmo dia, desde a escolha de 35 dos 100 senadores e de todos os 435 membros da Câmara dos Representantes, à eleição de presidentes de câmara e votação em propostas um pouco por todo o país, passando pela escolha de 39 governadores em 36 estados e três territórios norte-americanos.

Mas a atenção está virada para uma conta mais simples: conseguirá o Partido Democrata roubar a maioria no Congresso ao Partido Republicano, e dessa forma travar a agenda política do Presidente Trump até às próximas eleições presidenciais? Ou será que o Partido Republicano vai resistir à fúria anti-Trump no eleitorado mais à esquerda, mantendo a maioria no Congresso e, dessa forma, ganhando um novo fôlego para a reeleição do seu Presidente em 2020?

O enigma da abstenção

Mais do que qualquer manifestação pública a favor ou contra o Presidente Trump — ou de qualquer caso mais ou menos escandaloso a rondar a Casa Branca —, são os indícios que existem sobre uma maior ou menor afluências às urnas que ditam os cenários possíveis para o que vai acontecer esta terça-feira.

Numa situação normal, as eleições para o Congresso em anos em que não se escolhe também um Presidente dizem pouco aos eleitores, mas não deixam de ser vistas como um referendo ao trabalho da Casa Branca — principalmente quando acontecem a meio de um primeiro mandato, como é o caso este ano.

Em 2010, por exemplo, a meio do primeiro mandato de Barack Obama, o Partido Republicano teve uma votação avassaladora, impulsionado pelos candidatos do movimento Tea Party — nesse ano, roubou seis lugares no Senado e 63 lugares na Câmara dos Representantes ao Partido Democrata.

Mas desde que Donald Trump venceu as eleições em 2016, a política nos Estados Unidos nunca mais teve um momento normal. E é por isso que muitos especialistas em sondagens e analistas políticos dizem que as eleições desta terça-feira vão ficar marcadas por uma participação muito superior ao que é habitual — um cenário que obriga a muito mais cautelas na leitura das sondagens.

"Estamos a ver muitos sinais de que a afluência às urnas vai crescer em todos os sectores, um recorde nas eleições intercalares modernas", diz Charles Cook, fundador do site Cook Political Report.

"O factor mais determinante para uma surpresa nas eleições é uma afluência desproporcionada, quando um ou mais grupos participam em números anormalmente altos ou baixos", explica Cook numa nota publicada na sexta-feira, que termina com um aviso para quem está disposto a apostar em certezas absolutas: "Há muitos sinais de que as mulheres estão muito mais envolvidas do que é habitual. A questão é saber se o aumento da participação de outros grupos que também estão mais motivados pode vir a anular parte dessa divisão entre géneros, em benefício do Partido Republicano."

Câmara OK, Senado KO?

Ainda assim, sabe-se que o caminho do Partido Democrata para reconquistar a maioria no Senado tem muito mais obstáculos do que a estrada em direcção à maioria na Câmara dos Representantes. E aqui não estão em causa grandes análises políticas. Enquanto nas eleições para a Câmara dos Representantes estão em jogo todos os 435 lugares, nas eleições para o Senado isso só acontece em 35 dos 100 lugares — e destes, o Partido Republicano só tem de defender nove, contra 26 do Partido Democrata.

Como a maioria do Partido Republicano no Senado é actualmente de 51-49, o Partido Democrata tem de terminar o dia de eleições com pelo menos mais duas vitórias do que os republicanos naquelas 35 corridas — o que seria um feito extraordinário, tendo em conta outro obstáculo: em dez dessas 35 eleições para o Senado, os candidatos do democratas têm de manter lugares em estados onde o Presidente Trump bateu Hillary Clinton em 2016.

Como resumiu o analista Nate Silver no site FiveThirtyEight, o Partido Democrata tem este ano "o mapa mais desfavorável que qualquer partido enfrentou no Senado desde sempre".

Ainda que a surpreendente campanha do candidato Beto O’Rourke no Texas, contra o peso-pesado Ted Cruz, deixe muita gente no Partido Democrata a sonhar com um dia perfeito, essa eventual vitória — que seria uma notícia do tamanho do mundo, quanto mais não seja pelo seu simbolismo — seria provavelmente anulada pela possível derrota de Heidi Heitkamp no Dacota do Norte.

A senadora do Partido Democrata votou contra a nomeação do juiz Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal, em Outubro, e ficou com o seu lugar em risco num estado em que Donald Trump venceu Hillary Clinton, em 2016, com uma das maiores margens em todo o país: 63% contra 27,2%.

Campanha radical

Mas a história é outra na corrida pela maioria na Câmara dos Representantes, a câmara baixa do Congresso — onde nascem, por exemplo, os processos de destituição contra Presidentes e juízes do Supremo Tribunal. E onde podem vir a morrer as mais variadas promessas de Donald Trump, das reduções fiscais à construção do muro na fronteira com o México, se o Partido Democrata reconquistar a maioria esta terça-feira.

Talvez por isso — por saber que o seu caderno de promessas poderá ficar fechado até às eleições de 2020 —, o Presidente Trump partiu para a campanha eleitoral nas últimas semanas como se fosse mais candidato do que qualquer dos candidatos cujos nomes aparecem nos boletins. Assim se explica a "perigosa escalada da retórica demagógica" de Donald Trump, nas palavras de Laura McGann, directora do site Vox.

"Pode ser [uma estratégia] desesperada, mas não é irracional", diz McGann num texto intitulado "O demagogo desesperado". "Trump tem uma boa razão para agir como tem agido. É a sua estratégia política mais eficaz. Os demagogos sabem que têm de elevar ainda mais essa estratégia para que ela funcione. Se ele não for travado agora, só vai piorar."

Na semana em que várias personalidades ligadas ao Partido Democrata, incluindo Barack Obama e Hillary Clinton, receberam no correio envelopes com bombas artesanais, e em que dois negros e 11 judeus foram mortos por confessos racistas nacionalistas brancos, o Presidente Trump intensificou o seu discurso contra alguns dos alvos preferidos da sua base de apoio — em particular os media e os imigrantes sem documentos.

O radicalismo das declarações políticas já teve reflexo nas ruas. Segundo os números da organização não-governamental Liga Anti-Difamação, com sede em Nova Iorque, o número de ataques contra judeus nos Estados Unidos subiu de forma dramática nos últimos dois anos — 34% de 2015 para 2016 e 57% de 2016 para 2017.

Na última década, desde que os Estados Unidos elegeram o seu primeiro Presidente negro, os grupos de radicais da extrema-direita foram responsáveis por 71% das mortes em crimes de ódio, contra 26% atribuídas a extremistas islâmicos.

Mais do que salientar a boa saúde da economia do país e a redução do desemprego, o Presidente Trump tem aproveitado os comícios de apoio aos candidatos do Partido Republicano para prometer uma luta sem quartel contra os imigrantes sem documentos — do envio de soldados para a fronteira, com ordens para responder à bala contra quem atirar pedras (uma promessa mais tarde retirada), ao fim da nacionalidade automática para os filhos de imigrantes sem documentos que nasçam no país (uma promessa que os seus críticos dizem ser claramente inconstitucional).

É aqui que se joga uma parte importante do sentido de voto dos eleitores esta terça-feira. Numa sondagem do Pew Research Center publicada na passada quinta-feira, 85% dos eleitores do Partido Democrata dizem que a forma como as minorias são tratadas será um factor muito importante no momento de escolherem os seus candidatos — do outro lado, no Partido Republicano, apenas 43% dizem que esse é um tema que os preocupa.