Facebook reconhece que criou "ambiente propício" para a propagação do ódio na Birmânia

A rede social assumiu que deveria ter tomado providências para travar publicações que estiveram por trás da perseguição contra a minoria rohingya. Eleições de 2020 podem ser o próximo alvo.

Cerca de 700 mil rohingya fugiram para o Bangladesh por causa da violência dos militares birmaneses
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Cerca de 700 mil rohingya fugiram para o Bangladesh por causa da violência dos militares birmaneses CLODAGH KILCOYNE/Reuters

O Facebook admitiu que deveria ter “feito mais” para conter a disseminação de discurso de ódio na Birmânia, que acabou por ser um dos ingredientes por trás da crise humanitária da minoria rohingya.

Um relatório encomendado pela gigante tecnológica norte-americana concluiu que “o Facebook se tornou um meio para aqueles que procuraram espalhar ódio e causar mal-estar, e as publicações estiveram relacionadas com violência fora da rede”.

Os falhanços por parte da rede social em localizar e travar as mensagens de incitação à violência contra minorias étnicas deram origem a “um ambiente propício” a violações de direitos humanos da população, acrescenta o documento da consultora sem fins lucrativos Business for Social Responsibility (BSR).

O responsável pelas políticas de produto do Facebook, Alex Warofka, disse que a empresa reconhece os erros cometidos. “O relatório conclui que, até ao último ano, não fizemos o suficiente para impedir que a nossa plataforma fosse usada para fomentar a divisão e incitar a violência fora da rede. Concordamos que podíamos e devíamos ter feito mais”, afirmou Warofka, através de um comunicado.

Não é a primeira vez que o Facebook assume ter errado ao não conter o discurso de ódio na Birmânia – um país onde existem 20 milhões de utilizadores da rede social, que para muitos é a principal fornecedora de informação. Em Agosto, a empresa reconheceu a lentidão “a prevenir a informação falsa e o discurso de ódio”, depois de uma investigação da Reuters ter revelado mais de mil mensagens de apelo à violência contra os rohingya que continuavam alojadas na rede social.

Pouco tempo depois, o Facebook cancelou as contas de vários responsáveis militares birmaneses acusados de promover o “ódio e a desinformação”, adoptando uma medida inédita.

De olho nas eleições

A Birmânia, um país etnicamente muito diverso, mas com uma população maioritariamente budista, é pródiga em conflitos entre grupos étnicos e religiosos diferentes. Um dos grupos mais discriminados são os rohingya, uma minoria muçulmana que não tem sequer direito à cidadania e que é alvo de uma perseguição quase constante.

No Verão do ano passado, o Exército lançou uma ofensiva de larga escala no estado de Rakhine, habitado maioritariamente por rohingya. Várias organizações de defesa dos direitos humanos documentaram abusos cometidos pelos militares, como a destruição de aldeias inteiras, execução de civis, violações e raptos.

A ONU chegou a alertar para a iminência de uma limpeza étnica desta minoria muçulmana e pediu o julgamento de vários dirigentes militares. A violência a que os rohingya foram sujeitos levou a que 700 mil fugissem para o Bangladesh, onde vivem em campos de refugiados em péssimas condições.

Os militares, que continuam a exercer uma forte influência na política nacional, negaram os abusos e disseram estar a combater um grupo terrorista rohingya com financiamento externo.

Ao mesmo tempo, a população birmanesa continuou a apoiar as operações do Exército em Rakhine, influenciada pelo discurso de ódio contra os rohingya disseminado nas redes sociais. Há quatro anos, por exemplo, a divulgação de uma notícia falsa que dava conta de uma violação feita por um homem rohingya esteve na origem de violentos confrontos.

O relatório da BSR alertou para os perigos que a desinformação no Facebook pode assumir à medida que as eleições gerais de 2020 se aproximam. “As difíceis circunstâncias de hoje irão provavelmente subir de intensidade nas vésperas das eleições, e o Facebook faria bem se começasse a preparar-se desde já para as várias eventualidades”, concluem os autores do estudo.