Crónica

Palavras, expressões e algumas irritações: comboio

Em Portugal, o “meio de transporte colectivo” comboio só às vezes é que se desloca “sobre carris”. No final da semana, houve mais uma greve a travar o “conjunto de carruagens engatadas umas nas outras”. Desta vez, com a assinatura da Infra-Estruturas de Portugal. “Pouca-terra, pouca-terra, pouca-vergonha, pouca-paciência.”

Para descodificar a palavra “comboio”, vamos viajar… a partir de dicionários do presente para o passado. Assim, num registo recente, pode ler-se sobre este substantivo masculino: “Meio de transporte colectivo, interurbano, formado por uma série de carruagens atreladas entre si e movidas por locomotiva, que se desloca sobre carris.”

Em Portugal, este “meio de transporte colectivo” só às vezes é que se desloca “sobre carris”. No final da semana que passou, houve mais uma greve a travar este “conjunto de vagões ou carruagens engatadas umas nas outras e puxadas por uma locomotiva”. Felizes, os sindicatos anunciaram que a paralisação suprimiu “entre 80% e 90% dos comboios”.

Desta vez, as reivindicações foram assinadas pela Infra-Estruturas de Portugal, mas podiam ter vindo de maquinistas, revisores, funcionários das bilheteiras da CP ou da Refer ou de todo um universo de empresas e funções que um simples passageiro já não consegue descodificar. Só consegue indignar-se, pois continua a pagar o passe e a ficar apeado. Sobretudo em vésperas de fins-de-semana prolongados…

“Comboio” provém do francês “convoi”, informa-nos um dicionário de 1960, que descreve assim o vocábulo: “Grupo de carros ou navios de transporte, carregadores ou bestas de carga que se dirigem ao mesmo destino.” Nessa altura, quem assegurava o transporte não teria os subsídios de hoje nem os seus familiares teriam as regalias de que actualmente desfrutam.

Faça cálculos aos descontos de que os filhos de funcionários no activo e reformados (talvez até defuntos…) beneficiam. Já agora, informe-se sobre indemnizações.

Mesmo quem não é fã de privatizações cegas começa a olhar para os casos felizes de outros países europeus. Como a Alemanha.

Por cá: “Pouca-terra, pouca-terra, pouca-vergonha; pouca-terra, pouca-terra, pouca-paciência.”