Reportagem

Biodanza: “É remédio santo. Posso entrar chateada, mas saio com a alma lavada”

Mais de duas mil pessoas praticam biodanza. Mas na Acapo do Porto há um grupo muito especial. São cegos e amblíopes. Para eles, os movimentos lentos, as palavras, o som da música que caracterizam esta actividade têm efeitos “quase terapêuticos”.

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PAULO PIMENTA/PÚBLICO
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Helena Gomes precisa delas para dançar e é tão bem-disposta que, às apalpadelas no chão e na mesa, pergunta: “Vocês que vêem: ajudam-me a encontrar as minhas meias?” Depois, com os seus 70 anos de sorriso rasgado, junta-se ao grupo de cegos e amblíopes de Biodanza — também chamada “dança da vida” — na sala do primeiro andar da Acapo, no Porto. A aula vai começar.

Mais de duas mil pessoas praticam biodanza em Portugal, segundo a Associação Portuguesa de Facilitadores (APF) de Biodanza, que tem inscritos mais de 80 “facilitadores” em todo o país — “facilitadores” é o nome dado aos professores da actividade, explica Rui Miguel Lopes, presidente da APF Biodanza, também ele “facilitador” num grupo regular.

A biodanza foi criada nos anos 60 por Rolando Toro, no Chile (o psicólogo e professor começou por lhe dar o nome de psicodança, mas o termo foi substituído por biodanza em 1979), conjuga dança e movimentos especialmente pensados para “despertar os sentidos” e “estimular a criatividade”, lê-se no site da APF. Em Portugal, pratica-se há mais de 15 anos.

Luís Miguel Alfaro que, quinzenalmente, às quintas-feiras, “facilita” a biodanza a um grupo especial, na Acapo (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal), teve, como todos os outros no país, de fazer formação numa das três escolas de biodanza existentes em Portugal — Porto, Lisboa e Faro — durante três anos, ter um grupo regular durante um ano para supervisão e, por fim, desenvolver uma monografia para ficar com o título de facilitador, explica ao PÚBLICO.

O grupo de Helena tem 15 pessoas que, apesar de serem cegas ou terem reduzida visão, aderiram de coração cheio à actividade que os faz “mergulhar no seu interior”, elucida Luís Miguel Alfaro que já lhes dá aulas há cinco anos. “A biodanza é uma metodologia de desenvolvimento humano que expande o fenómeno da vida. Faz-se em grupo, com vivências integradoras que estimulam as funções primordiais da vida”, descreve, entusiasmado. Diz que nestas aulas recebe mais do que dá.

“A biodanza também tem efeitos quase terapêuticos”, acrescenta, como melhorar a auto-estima, e promover a saúde e o bem-estar. “Além da conexão comigo, com o outro”, elucida no final da aula com o grupo da Acapo.

Helena Gomes vai logo dizendo que anda por aqui há cinco anos. Procurou a actividade depois do marido morrer, quando ficou a sentir-se “mais sozinha e a precisar de companhia”. Na biodanza surpreendeu-se: conheceu-se melhor a ela própria. “Tornei-me uma Helena diferente, mais extrovertida, confiante e brincalhona do que era, e até consegui dar mais abraços aos outros que era um complexo que tinha.” Luís Miguel Alfaro dá-lhe a mão e diz, voz suave e pausada: “Já todos sabemos qual é a dinâmica da biodanza, estimular que passe para fora o que se tem cá dentro. É um mergulho interior.” A maioria dos participantes costuma dizer-lhe que o que mais valoriza na aula é o toque e o contacto com o outro. “É uma desconstrução das crenças. É um processo contínuo. A sala é como se fosse uma espécie de laboratório e depois lá fora acontece a biodanza real.”

“Algumas destas pessoas dizem que estão diferentes, mais disponíveis para o relacionamento humano”, sublinha. A biodanza traz “uma predisposição diferente para a vida”.

Francelina Rocha, 62 anos, conta que isto de abraços “não os dá a qualquer pessoa”, mas já consegue fazê-lo dentro e fora da sala de biodanza. O que já é um avanço para si. A actividade enche-a de alegria.

Já Rosa Santos, 66 anos, com o seu ar todo despachado, desabafa, entre risos: “Às vezes choramos porque nos toca no interior e botamos cá para fora os problemas.” Depois, continua, “ficamos com uma sensação de alívio e muito melhor do coração”.

“Quando comecei, a Rosa dançava com óculos escuros. Dizia que era para esconder as lágrimas. E agora já não os usa”, conta o facilitador. José Ferreira, 69 anos, de “baixíssima visão”, como faz questão de dizer, aproxima-se e desabafa também: “A Biodanza mexe connosco. Às vezes vem uma lágrima quando ouvimos as palavras do Luís Miguel.”

“Não há óculos para mim”

Também Helena deixa escapar que “naqueles dias de maior sensibilidade, já aconteceu chorar”. Ao lado, Francelina Rocha acrescenta: “Olha que o facilitador Luís Miguel diz que faz bem deitar as emoções cá para fora”, e ri, explicando que é amblíope, tem baixa visão. “Não há óculos para mim. Conheço as pessoas pela voz”, lamenta. Mas as lamentações não são para agora, como diz, porque a boa-disposição é que prevalece. “É remédio santo. Posso entrar aqui chateada, mas é certinho que saio com a alma lavada”, continua Francelina Rocha.

Também Rosa, que na brincadeira costuma dizer que não gosta nada daquilo, deixa cair, com uma gargalhada: “Sinto-me muito bem aqui e é muito divertido.” E porquê? Porque nesta sala ser cega não interfere em nada. Dança-se, convive-se.

“Lá fora, passo muitas horas sozinho. Não é fácil e temos de nos adaptar. Mais a mais, quando não nasci cego”, lamenta José Júlio.

A presidente da delegação do Porto da Acapo, Paula Costa defende que esta actividade “é muito importante”, porque é uma forma de as pessoas exteriorizarem “o que sentem”. “É uma espécie de terapia. Faz-nos pensar em coisas que, se calhar, de outra forma, não pensávamos.”

Ao som de José Cid

Logo no início da aula, Luis Miguel vai explicando que a primeira roda é uma “roda de saudação”, para “dizer olá ao mundo”. E assim começam a andar pela sala e a soltar as mãos. “Para caminhar pelo mundo e perceber como estou, se estou mais cansado ou energético. Sentir o momento do aqui e agora ao som da música”, continua.

O grupo responde com movimentos circulares; alguns deles esticam as mãos como que a apalpar caminho. Luís Miguel pára a música para lhes dar novas indicações: “O próximo exercício é caminharmos juntos. Vou construir junto com esta pessoa. Não vou arrastar a Rosa pela sala fora”, diz, a gracejar enquanto lhe dá a mão. “Mas vamos caminhar juntos, com as nossas mãos dadas e depois, quando a música pára, despeço-me dela e passo para outra pessoa, que é outra experiência”, elucida. Os alunos seguem as indicações e na troca de par, abraçam-se e beijam-se no rosto. De mãos dadas vão pela sala.

“O próximo convite é entrarmos na parte da brincadeira. Acordar a criança que há em nós.” Luís Miguel pede aos participantes para imitarem as brincadeiras preferidas dos tempos de criança, ao som da música “Os vinte anos”, de José Cid. E ao som do “Há muito, muito tempo, eras tu uma criança que brincava”, os participantes imitam as brincadeiras de pequenos. Um salta ao pé-coxinho, outro joga à macaca, outra à cabra cega, outro basquetebol — a encestar bolas. E sorriem. Muito.

O facilitador continua: “Há memórias que já fazem parte da nossa mochila do passado, que nos custam a carregar.” Por isso, pede-lhes que sacudam as memórias de que já não precisam. E eles dançam e sacodem as mãos, outros os pés.

“Agora que já nos libertámos, o próximo convite é que fiquemos frente a frente. Dois a dois ou grupos de três. Agradecemos aos nossos companheiros. A próxima dança é caminhar sozinho”, indica. E fala de “nos amarmos primeiro a nós próprios para depois amar os outros”.

Segue-se outra dança ainda, em que o grupo tem de dar as mãos. “Este é um exercício de auto-acariciamento em grupo. Os amblíopes, que fechem os olhos. Vão pondo as mãos umas em cima das outras. Mão a mão...” Helena sorri. Ao som de uma canção de Salvador Sobral. Depois, é a vez de tocarem no rosto. Porque, afinal, diz Luís Miguel, “tem inscrita a nossa história, o acumular das experiências que tivemos ao longo da nossa vida”.

Dois passinhos atrás, alarga-se a roda e Rosa, Francelina, José, Helena, todos, movem-se para a direita para dançar novamente. “Para sairmos alegres e bem-dispostos, fazemos uma roda final.” A vida continua fora de portas. Como está inscrito numa camisola de um dos participantes: “Somos o que sonhamos.”