Opinião

Os liberais portugueses e Bolsonaro

Há muito que se percebeu bem que, quando a extrema-direita ganha escala e atrai uma parte tão significativa da direita clássica, esta não hesita em colar-se-lhe.

Por uma vez, estou de acordo com António Araújo: “Bolsonaro e Trump revelaram que há uma direita que, em parte se julgava liberal, mas que tem traços muito mais autoritários do que propriamente liberais” (PÚBLICO, 31.10.2018). Há quinze anos, Freitas do Amaral chegou à mesma conclusão. Não surpreende que Jaime Nogueira Pinto apoie Bolsonaro, ou que, entre este e o PT, Nobre Guedes opte pelo homem que acha que polícia que “matar dez, quinze ou vinte [bandidos], com dez ou trinta tiros cada um, ele tem que ser condecorado e não processado” (Bolsonaro, 28.8.2018). Ou até que Paulo Portas não tenha encontrado na “vida pública do capitão Bolsonaro nenhum indicador eticamente reprovável em termos pessoais” (TVI, 29.10.2018). Há muito que se percebeu bem que, quando a extrema-direita ganha escala e atrai uma parte tão significativa da direita clássica, esta não hesita em colar-se-lhe.

Aquilo, contudo, para que já não há paciência é para a tese de que quem “fabricou” Bolsonaro e é culpado do seu triunfo, é a esquerda! “Tantas vezes a esquerda gritou pelo fascismo, que o fascismo finalmente apareceu” (João Miguel Tavares, PÚBLICO, 25.10.2018). A tese, que explica História com fábulas, baseia-se na ideia de que “o obsessivo anúncio [da chegada do fascismo] ajudou, e muito, a que [a profecia] viesse a concretizar-se”. Claro que JMT sabe (deduz-se) que o fascismo chega com as crises. Para ele, contudo, o fascismo não vem pela mão daqueles que, criando e beneficiando com as elas, se reservam a carta do fascismo para atrair o descontentamento das classes médias e de uma parte das classes populares (no Brasil, a grande maioria destas virou-lhe as costas) e, simultaneamente, optar por uma transição autoritária para suprimir as formas mais perigosas de contestação social. Não: JMT acha que Bolsonaro é culpa de uma “esquerda que se tornou profundamente conservadora, recusando qualquer mudança no statu quo”, deixando aberto o “espaço revolucionário” (sic) para aqueles que “anunciam mudanças radicais e o combate aos interesses instalados”.

Estranho: esta mesma direita andou os anos da troika a queixar-se da resistência dos “profissionais dos serviços e empresas públicas [que] são hoje a aristocracia ofendida do regime democrático”, e que, “privilegiados a quem os regime deixou de satisfazer as expectativas”, “com os seus diplomas, contratos coletivos, ordens e sindicatos”, e que, “na sua compreensível irritação, podem ser tentados a deitar tudo abaixo” (Rui Ramos, Expresso, 14.7.2012) - isto é, fazerem revoluções, sinónimo, pelos vistos, de defesa de direitos e da dignidade social. Agora, queixa-se a mesma direita de que a esquerda que representa estes “contratos coletivos” e estes “sindicatos”, afinal, já não querem fazer revolução alguma e deixam a bandeira aos fascistas… Não se queixem, portanto, professores, operários, empregados, mulheres, indígenas, LGBTs, estudantes, que os fascistas venham atrás deles, que os intimidem no emprego, na rua, nas redes sociais, que os processem juízes tão independentes quanto Sérgio Moro - e que os espanquem e ameacem literalmente de morte.

Queixam-se estes liberais (assim se dizem eles) da “oligarquia” da esquerda e do que chamam (que lata!) uma “elite” de “escritores, comentadores, historiadores, músicos ou jornais a criar vídeos, e manifestos (…) e o diabo a quatro, onde do alto da sua imensa sabedoria tentam explicar ao povo brasileiro (…) em quem ele deve votar” (JMT, PÚBLICO, 29.10.2018). Quem usa esta retórica (que muito fascista, dos anos 30 ou de hoje, subscreveria) que denuncia o elitismo dos “intelectuais” relativamente ao “povo”, parece esquecer-se de quem desde há mais de trinta anos, desde os anos do cavaquismo, dispõe de quantas páginas e microfones quiser (os Barretos, as Mónicas, os Ramos, os Espadas, os Valentes, os Césares das Neves, os Nogueiras Pintos…, querem que prossiga?), pontificando nas universidades e nos media públicos e privados contra o 25 de Abril, o “totalitarismo” socialista, a descolonização, as políticas sociais, a educação pública, as ciências sociais, os portugueses que vivem à custa do Estado e não aprendem… Não lhes perguntem pelo passado deles mesmos, nem das suas relações com o Estado. O que lhes interessa agora é dizer que Bolsonaro está “muito em consonância com o povo e nada em consonância com os professores da Universidade de São Paulo ou com os letristas das maravilhosas canções brasileiras” (F. Bonifácio, PÚBLICO, 1.11.2018). Isso. Profes e músicos. Pelos vistos eram quem mandava no Brasil.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico