A guerra na Síria roubou as pernas a Ahmad. O basquetebol devolveu-lhe o ânimo

Ahmad chegou à primeira divisão turca de basquetebol em cadeira de rodas, Anwar conseguiu uma prótese para a sua perna amputada e Whalid move-se com mais conforto. Em Esmirna há um centro de reabilitação, financiado pela UE, que ajuda refugiados a recuperar de ferimentos de guerra e acompanha portadores de deficiências graves.

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Anwar, amputado devido a uma bomba em Aleppo Eren Aytug/Comissão Europeia

A Ahmad, Anwar e Whalid une-os a nacionalidade síria, a vida de refugiados, na Turquia, e até o local de onde vêm, Alepo. Têm, no entanto, necessidades médicas e perspectivas de vida totalmente distintas. Os motivos que os levaram até ao Centro de Reabilitação Física de Esmirna são, por isso, também diferentes. Mas entre recuperar a vontade de viver, conseguir uma prótese para andar ou obter uma cadeira de rodas para se deslocar com maior conforto não há grande diferença. São todos triunfos notáveis para quem sobreviveu à guerra na Síria e conseguiu ultrapassar as limitações do acesso à saúde na Turquia para melhorar a sua vida.

No âmbito da protecção temporária concedida em 2014 pela Turquia aos cidadãos da Síria, os mais de 3,5 milhões de refugiados deste país que residem no país têm de acesso gratuito a determinados serviços, como a Saúde. Esse privilégio não inclui tratamento especializado. Uma realidade difícil para feridos de guerra, deficientes e doentes com necessidades especiais que não têm, na maioria dos casos, capacidade para pagar medicamentos e tratamentos.

Foi com a missão de facilitar o acesso dos refugiados mais vulneráveis a tratamento especializado que abriu o centro de reabilitação de Esmirna — um dos bons exemplos que nasceu do polémico acordo entre a União Europeia e a Turquia — que incluiu a deportação para a Turquia de todos os requerentes de asilo que chegassem à Grécia de forma irregular — que Bruxelas e Ancara mostraram a um grupo de jornalistas, entre eles o do PÚBLICO.

Financiado pela UE através do mecanismo de assistência aos refugiados, acordado com o Governo de Recep Erdogan em 2016, este centro situado numa rua estreita do bairro de Kahramanlar é gerido por duas organizações não-governamentais: a Müdem e a Relief International.

Jogador famoso?

Ahmad Razie entrou no centro carregando o fardo de ser um refugiado em situação vulnerável. Tem 23 anos e não sente nada da cintura para baixo. Quando a guerra civil rebentou na Síria, em 2011, trabalhava como canalizador. Fazia um serviço numa escola nos arredores de Alepo quando uma das paredes do edifício desabou, atingida por uma bomba. Os que estavam com ele escaparam, mas Ahmad perdeu o uso das pernas. Tinha 18 anos e entrou em profunda depressão.

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Ahmad perdeu o uso das pernas num bombardeamento em Aleppo. Faz parte da equipa de basquet do centro de reabilitação EREN AYTUG/COMISSÃO EUROPEIA

A decisão de fugir para a Turquia deu-se um ano mais tarde, quando elementos de grupos militares ligados ao regime de Bashar al-Assad começaram a visitar a região de Alepo. “Apareciam a recrutar pessoas, algumas à força. Eu e os meus irmãos tivemos medo e, de um dia para o outro, abandonámos a casa, a família e os amigos, para partir para um lugar desconhecido”, conta em voz baixa Ahmad, que é corpulento, tímido, de braços fortes e pernas magras.

Apesar dos esforços dos irmãos, as passagens por Kilis e Karamamaras, já na Turquia, não animaram Ahmad, que se fechava cada vez mais em casa e “não queria ver ninguém”. Foi em Esmirna que as coisas começaram a mudar.

Convidado por uma organização local para participar num jogo de basquetebol em cadeira de rodas, experimentou e gostou. Numa das sessões com um psicólogo clínico no centro de Kahramanlar, reflectiram sobre o que sentira ao jogar e como isso o fazia esquecer, por momentos, os problemas: “Nunca tinha jogado basquetebol, nem sequer gostava. Mas o jogo teve um grande impacto na minha vida e deu-me um novo ânimo para sair de casa e fazer amigos”.

Para além do trabalho psicológico, o centro ajudou Ahmad a encontrar um clube. Hoje faz parte da equipa de basquetebol em cadeira de rodas do Karsiyaka Sport Club e aguarda pela licença de jogador para poder viajar e competir.

“O basquetebol pode vir a abrir-me portas no futuro e, ao mesmo tempo, é uma boa forma de passar o tempo e ter uma vida social. Neste momento estou mais focado nesta segunda parte, mas não rejeito a primeira. Se melhorar, talvez possa tornar-me num jogador famoso. Porque não?”, lança Ahmad.

O optimismo de Ahmad encontra paralelo em Basma. Esta síria de 35 anos perdeu o marido na guerra e tem à sua guarda cinco filhos.

O filho mais velho, Anwar, tinha 13 anos quando deu entrada num hospital de Alepo, com um ferimento grave na perna direita, esmagada por um bloco de pedra que se soltou após um bombardeamento aéreo. Foi amputado do joelho para baixo. “A perna dele podia ter sido salva, mas os hospitais em Alepo não estavam em condições por causa da guerra. Foi mal amputado, segundo nos disseram aqui na Turquia”, diz a mãe.

Sem ajudas para cobrir os custos da reabilitação de Anwar, foi o centro que avaliou a sua perna, intercedeu junto das autoridades turcas para lhe arranjar uma prótese e o ajudou, com sessões de fisioterapia, a familiarizar-se com ela. Depois de algumas tentativas falhadas, o rapaz tem hoje uma prótese especialmente desenhada para si.

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Mohamed com o filho, Whalid Eren Aytug/Comissão Europeia

“Já não sinto dor. Consigo andar facilmente, consigo correr e até jogo futebol”, diz um tímido, mas orgulhoso, Anwar.

A luta de Whalid Alimo move-se por um objectivo menos ambicioso que a de Anwar ou Ahmad, mas não menos importante: o conforto mínimo. O rapaz de 16, explica o pai Mohamed, tem uma doença congénita relacionada com falta de oxigénio no cérebro. Whalid não consegue falar, andar ou ser independente. Comunica por gestos e sons, que só Mohamed, a mulher e os outros três filhos do casal conseguem decifrar.

Ao contrário de Anwar, Basma ou Ahmad, a vida da família de Whalid na Síria “não era boa antes da guerra”. “Gastei todas as minhas poupanças à procura de ajuda para o meu filho e por isso vivíamos em muito más condições”, narra Mohamed, tristemente. “Na Síria é o Governo que distribui as cadeiras-de-rodas, mas é necessário ficar em lista de espera e aguardar cerca de dois anos. Pedi ajuda há 15 anos, não recebi os apoios que nos prometeram e a cadeira nunca chegou”.

O desabamento de um prédio muito próximo do local onde a família vivia, em Alepo, atingindo num ataque aéreo, afectou Whalid — que desde essa altura fica fisicamente stressado quando houve um barulho intenso. E fez a família entender que não poderia ficar muito mais tempo na Síria. “Depois de uma viagem de carro até à fronteira, perto de Kilis, entrei na Turquia carregando o meu filho nos braços”, conta Mohamed, interrompendo de vez em quando o discurso para acalmar um agitado Whalid.

Há quatro anos chegaram a Esmirna, mas a barreira linguística manteve-os isolados da comunidade turca. Só recentemente é que Mohamed soube da existência do centro. Mal entrou em contacto com os seus funcionários, arranjaram-lhe rapidamente a ansiada cadeira de rodas para Whalid — que entretanto cresceu e já não pode ser carregado pelo pai. O centro fez ainda um relatório médico, que será apresentado a um hospital e permitirá o acesso a tratamento adequado especificamente para a deficiência do rapaz.

“Durante muito tempo não sabíamos que tipo de assistência precisava. A nossa prioridade era mantê-lo confortável”, confessa Mohamed, encolhendo os ombros. “A cadeira de rodas teve um impacto incrível na sua vida. E com esse conforto, podemos finalmente focar-nos em procurar tratamento para o Whalid”.

O jornalista viajou a convite da Comissão Europeia