Descargas da ETAR de Arruda preocupam ambientalistas e autarcas de Vila Franca de Xira

Efluentes lançados no Rio Grande da Pipa seguem para o Tejo.

Efluentes lançados no Rio Grande da Pipa seguem para o Tejo
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Efluentes lançados no Rio Grande da Pipa seguem para o Tejo Sebastiao Almeida

Os efluentes lançados pela Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Arruda dos Vinhos no troço local do Rio Grande da Pipa estão a gerar preocupação, sobretudo porque alguns efluentes de origem industrial estarão a passar pela ETAR sem o devido tratamento e seguem, depois, em direcção ao Tejo. O caso foi denunciado pelo conhecido ambientalista Arlindo Marques, ligado ao movimento ProTejo, e pelo vereador do Bloco de Esquerda na Câmara de Vila Franca de Xira. O líder do município também se mostra preocupado.

A Águas do Tejo-Atlântico (AdTA), empresa responsável pela gestão da ETAR, admite problemas, mas garante que, em articulação com a Câmara de Arruda, está a tentar identificar a origem de uma carga anormal de efluentes industriais. No plano de actividades da AdTA está previsto o desenvolvimento de um projecto de ampliação e remodelação da ETAR de Arruda, mas a empresa não adianta datas para a sua concretização. A Câmara arrudense espera que o processo avance em 2019.

Certo é que Arlindo Marques divulgou na sua página de Facebook um vídeo, captado a 13 de Outubro, onde é bem visível a má qualidade da água despejada pela ETAR  no Rio Grande da Pipa. “Espero que as autoridades ambientais resolvam mais este grave foco de poluição, pois praticamente todos os dias repete-se o mesmo, e poluir linhas de água é crime”, referiu o ambientalista. Já na penúltima reunião pública da Câmara de Vila Franca de Xira, Carlos Patrão, vereador do Bloco de Esquerda, disse ter recebido denúncias de uma situação “ambientalmente grave” que se verifica no vizinho concelho de Arruda, mas que tem também repercussões graves no território de Vila Franca, para onde corre o Rio Grande da Pipa, desaguando no Tejo junto à localidade da Vala do Carregado, no norte deste município.

“O Rio Grande da Pipa neste momento é um esgoto a céu aberto. Há uma ETAR em Arruda que é manifestamente insuficiente para tratar as águas residuais que recebe e que, basicamente, está a despejar esgoto dentro do Rio Grande da Pipa. E isto é particularmente grave porque o local em que a ETAR faz estas descargas em Arruda é praticamente dentro do parque urbano local. E isto tem também um impacto significativo no concelho de Vila Franca de Xira, porque o Rio Grande da Pipa depois cruza o nosso concelho, nas Cachoeiras e na Castanheira. Inclusivamente pode ter impactos na bacia hidrográfica do Tejo e nos lençóis freáticos”, observou Carlos Patrão, que tem residência na freguesia de Cachoeiras e admite que a contaminação do seu furo de captação tenha sido causada precisamente por estas águas residuais com origem em Arruda.

Carlos Patrão disse ter participado a situação ao SEPNA (Serviço de Protecção da Natureza) da GNR e entregou fotografias das águas poluídas a executivo camarário. Alberto Mesquita, presidente da Câmara de Vila Franca, também tem conhecimento desta situação e garante que já abordou o assunto em conversa com André Rijo, presidente da Câmara de Arruda. “Já falei com o presidente da Câmara de Arruda. Infelizmente o rio não começa só na Ponte da Couraça [entrada no território de Vila Franca] e quem está no nosso território apanha com os problemas que outros territórios nos causam, que é o caso”, observou o autarca do PS.

“Estamos a trabalhar com um empenho grande na melhoria das condições do rio Grande da Pipa no nosso território e, qualquer dia, está cheio outra vez de plásticos e outras coisas mais. Os outros municípios deviam também avançar com a requalificação do rio Grande da Pipa”, sustentou Alberto Mesquita.        

AdTA e Câmara prometem medidas

O PÚBLICO questionou a Águas do Tejo-Atlântico (empresa responsável pela gestão da ETAR de Arruda, que sucede nesta tarefa às antigas Águas do Oeste e Águas do Vale do Tejo) e a Câmara de Arruda sobre esta matéria e as respostas das duas entidades são em tudo idênticas.

Sublinham que esta ETAR entrou em funcionamento em 2004, com o objectivo de tratar adequadamente águas residuais provenientes do município de Arruda dos Vinhos, servindo uma região com mais de oito mil habitantes.

“A ETAR de Arruda dos Vinhos foi concebida para receber águas residuais domésticas que são tratadas através do sistema de lamas ativadas com nível de tratamento secundário e é eficaz para efluente com as características atrás referidas. A instalação está dimensionada para receber e tratar um caudal de cerca de 1.750 m3/dia. Em 2014, foram efectuadas ligações à rede da zona Industrial das Corredouras, até então a descarregarem diretamente para a linha de água”, explicam, admitindo que, “recentemente, de forma ocasional, o efluente que tem chegado à ETAR contém também uma substancial carga industrial de origem desconhecida que leva à degradação da qualidade de descarga face ao habitual, factos devidamente reportados ao Município e à Agência Portuguesa do Ambiente”.

Nesse sentido, acrescentam a AdTA e a Câmara de Arruda, “foram implementadas medidas na operação da instalação com o objetivo de minimizar a situação decorrente da recepção a montante do referido efluente com características indevidas. Em simultâneo e seguindo a prática das boas relações entre a Águas do Tejo Atlântico e a Câmara de Arruda dos Vinhos, estamos a trabalhar em estreita colaboração para a resolução desta situação, nomeadamente na identificação das indústrias que possam estar a efectuar este tipo de descargas, por forma a promover a suspensão das irregularidades e a encontrar soluções técnicas para a resolução definitiva deste problema”, concluem.