Na Universidade de Aveiro há um roteiro que é uma aula de arquitectura

Siza Vieira, Souto de Moura, Alcino Soutinho e Gonçalo Byrne são alguns dos arquitectos que têm o seu nome inscrito no campus da instituição de ensino aveirense. Um património arquitectónico que serve de pretexto a uma visita guiada, aberta ao público em geral.

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A pala vertical na fachada é “a assinatura de Siza Vieira”, mas o imóvel exibe outras características que justificam a sua fama. Estamos à porta da Biblioteca da Universidade de Aveiro, um dos 65 edifícios assinados por arquitectos portugueses de renome — entre os quais dois mestres galardoados com o Pritzker (Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto Moura) — e, sem sombra de dúvida, “o mais procurado em visitas de profissionais da área”, conta Sónia Nunes. É ela quem nos guia ao longo de uma visita pelo chamado Museu Aberto da Arquitectura Portuguesa Contemporânea da UA, um roteiro que tem vindo a ser especialmente procurado por especialistas mas que também é recomendado aos leigos na matéria. Na prática, a UA consegue proporcionar importantes lições de arquitectura, mesmo sem a leccionar enquanto curso superior.

A “aula” começa na Praça Central do campus universitário, junto ao Edifício Central e da Reitoria, assinado por Gonçalo Byrne e Manuel Aires Mateus. É aqui que Sónia Nunes explica a razão de ser deste verdadeiro “museu de arquitectura”. “Nos anos 1980, quando se decidiu fazer a revisão do plano urbanístico da universidade, a reitoria decidiu encomendar esse trabalho ao arquitecto Nuno Portas”, enquadra a guia. A jovem instituição de ensino superior (foi criada em 1973) tinha ainda poucos edifícios e precisava de crescer. A equipa de Nuno Portas apostou num “sistema claustral”, desenvolvido ao longo de uma alameda que tem início na praça central. Por essa altura, conta a guia, “já a reitoria tinha também contactado alguns arquitectos de renome com a ideia de eles projectarem alguns edifícios da nova fase do campus”.

Começava, assim, a nascer o “museu” de arquitectura da UA, com nomes como Alcino Soutinho, Alfredo Matos Ferreira, Adalberto Dias, Joaquim Oliveira, José Rebello de Andrade, Luís Fernandes, entre outros — e para além dos já referidos. Cada um deles foi desafiado a deixar o seu cunho pessoal no conjunto de edifícios da universidade aveirense, mas sem colocar em causa a imagem de unidade. “Foram definidas algumas chaves de orientação que todos os arquitectos tiveram de seguir”, desvenda a guia. Exemplos? “Todos os edifícios deviam ter a forma de um paralelepípedo, ter três andares e usar tijolo cerâmico, que é uma marca da cidade, na sua fachada”, especifica Sónia Nunes. A partir daí cada um criava o seu próprio desenho.

Na biblioteca projectada por Siza Veira, por exemplo, a fachada para sudoeste apresenta uma forma ondulada — “há quem diga que faz lembrar as páginas de um livro”, repara a guia —, destacando-se, também, as várias aberturas para o exterior, que permitem observar a paisagem da ria. Uma vista que servirá, com certeza, de fonte de inspiração a quem por ali passa horas a estudar e trabalhar. Na biblioteca, o arquitecto, que assinou também o projecto do depósito da água (uma torre com 30 metros de altura), apostou, ainda, na criação de várias clarabóias na cobertura, permitindo, assim, a entrada de luz natural.

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A caminhada ao longo da Alameda prossegue até aos departamentos de Engenharia Mecânica, de Adalberto Dias, “outro dos que regista maior procura de visitas”, repara a funcionária da UA. São dois edifícios autónomos e um pequeno volume de cobertura curva, que alberga um café. Mais à frente está outro dos imóveis que costuma ser alvo de maior atenção por parte dos especialistas: o Departamento de Geociências, desenhado por Souto Moura, que, sem deixar de cumprir a regra de usar tijolo cerâmico na fachada, criou um desenho completamente diferente: o tijolo aparece em lâminas horizontais, junto às fachadas envidraçadas.

No topo final da alameda, o visitante é conduzido até à entrada do Complexo Pedagógico, Científico e Tecnológico, desenhado por Vítor Figueiredo (1929-2004) e que contrasta com os restantes edifícios pela sua forma oval e pelo recurso a um tijolo mais claro. Ali mesmo ao lado, está o famoso depósito em betão armado.

A ponte é uma passagem para uma terceira fase

O campus da UA é um daqueles locais que engana. Por estar tudo concentrado, à primeira vista parece pequeno. Mas não é. “A área total equivale a 92 campos de futebol”, nota Sónia Nunes. É provável que só comece a ter consciência disso quando é conduzido para a nova área do campus — que corresponde a uma terceira fase. Para lá chegar, é preciso atravessar uma ponte pedonal que é, também ela, uma obra de referência. Projectada por Carrilho da Graça, a estrutura que liga a zona de Santiago à de Agra do Crasto — separadas por um braço da ria (esteiro de São Pedro) — é sustentada por uma viga dupla treliçada.

Para além da ponte está, então, o conjunto arquitectónico mais moderno da UA: as Residências de Estudantes do Crasto, projectadas por Adalberto Dias, a Escola Superior de Saúde, de Bruno Dray e Paulo Cirne, bem como o Complexo de Refeitórios do Crasto, de Manuel Aires Mateus e Francisco Aires Mateus.

Uma visita temperada com arte e sal

Aqueles que além do gosto pela arquitectura nutrem também um carinho especial pela arte, podem e devem prolongar a visita guiada à UA. É que a instituição é detentora de colecção de arte pública considerável. São várias obras de grande porte, de artistas como Manuel Patinha, Xico Lucena e Zé Penicheiro, entre outros, que estão expostas um pouco por todo o campus. Essencialmente esculturas e murais que embelezam a paisagem e que tornam a arte acessível a quem passa.

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Uma das obras que mais dá nas vistas é o grande painel em cerâmica (15,6 por 5,5 metros) da autoria de Zé Penicheiro, instalado em frente ao edifício da reitoria. Também não precisará de procurar muito para dar de caras com as esculturas de Isaque Pinheiro e de Paulo Neves, ambas em mármore de Estremoz. A primeira está instalada no jardim entre o edifício do Complexo Pedagógico e o edifício do Laboratório Central de Análises; a segunda está na Alameda Central, entre o Departamento de Geociências e o Departamento de Química.

Se ainda lhe souber a pouco, reserve mais alguns minutos para visitar a marinha de sal Santiago da Fonte — está situada ali mesmo ao lado. Adquirida pela UA em 1993, está aberta a visitas durante todo o ano e dá a conhecer os diferentes tipos de sal artesanal que são produzidos e extraídos dela, assim como a sua fauna e flora.