Um dia no paraíso escondido

A leitora Teresa Marques partilha a sua experiência pelo concelho de Idanha-a-Nova.

Foto
Enric Vives-Rubio

A casa é pequena e acolhedora. Pertence a um primo, Pedro, que convidou a família toda a passar uns dias na sua terra natal, Idanha-a-Nova. No total, somos nove pessoas, entre os nove e os 36 anos. Os meus pais não vieram e, embora tenha adultos a tomar conta de mim, a sensação de liberdade é muito maior.

O Pedro é o nosso guia. Delineou um itinerário para cada dia, de modo a que possamos desfrutar destas pequenas férias da melhor maneira possível. O de hoje começa com uma visita à histórica aldeia de Monsanto, a cerca de 30km da vila de Idanha. A dita aldeia mais portuguesa de Portugal tem uma vida que eu nunca imaginaria. Enquanto subimos as ruelas estreitas e inclinadas, há restaurantes típicos dos quais emana um cheiro maravilhoso, lojas de artesanato típico, até uma pequena gruta escavada na rocha.

Chegamos ao topo do monte, onde se situa o castelo. A vista deslumbrante com que nos deparamos deixa-nos boquiabertos. Percebemos que este é um daqueles momentos que ficarão na nossa memória para sempre. Estamos em Julho e, enquanto descemos, o calor já se faz sentir. Compramos gelados a um senhor muito simpático que os vende no meio da rua.

A próxima paragem são as piscinas naturais de Penha Garcia. Chegamos lá após uma curta mas animada viagem de carro, e as inúmeras vezes que o Pedro nos descreveu como o sítio era bonito não nos prepararam para a paisagem que nos esperava. A água fria e cristalina, com uns dois metros de profundidade no sítio mais fundo, uma pequena cascata, as sombras de árvores perfeitas para pousarmos as toalhas e o silêncio contrastante com o ruidoso mundo exterior tornam esta paisagem numa das mais paradisíacas em que já estive. As crianças deliram, os três adultos tentam em vão disfarçar os sorrisos de êxtase. Não trouxemos almoço de casa, e já passa da hora de almoçar, mas ninguém pensa sequer em abandonar este sítio sem dar um pequeno mergulho para abrir o apetite. Concordamos ficar só um pouco, para nos instalarmos e irmos depois procurar um restaurante nas redondezas.

À medida que as horas vão passando, a fome vai apertando, mas vai sendo tenuemente saciada pelas bolachas e peças de fruta que trouxemos para servirem de lanche. Ainda não almoçámos, mas ninguém tem vontade de abandonar este local, por isso vamo-nos deixando estar a brincar na piscina. Penso que todos partilhamos o receio de que, se formos embora, quando voltarmos este lugar já não esteja cá, como se fosse agora fruto da nossa imaginação, um delírio apenas, talvez resultante da ingestão de gelados em estado de conservação duvidoso.

Para além de lúdico, o lugar tem também uma componente histórico-cultural. Mesmo ao lado da piscina há uns trilhos que enveredam pela serra, pelos quais quatro de nós decidimos aventurar-nos. Chamam a estes trilhos a rota dos fósseis, por causa da enorme quantidade de restos de animais pré-históricos que podemos identificar nas rochas que ladeiam o caminho.

Acabamos por não almoçar, mas, graças às bolachas, ninguém está muito preocupado. Sabemos que vamos comer quando chegarmos a casa. Por volta das seis da tarde, levantamos acampamento e vamos embora, com a barriga vazia e o coração cheio.

Teresa Marques