De aldeias perdidas, ela traz tecidos de outro tempo

Rafaela Fortunato viaja pelo mundo à procura de comunidades que ainda utilizem técnicas ancestrais na produção de tecidos.

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Andreia Patriarca
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Falaram-lhe de uma aldeia a norte num mercado e ela alugou uma mota com o namorado e pôs-se a caminho. O alcatrão cedo se fez terra batida e, às tantas, já se sentiam muito observados. “Acredito que muitas daquelas pessoas nunca tinham visto um ocidental ali antes.” Não foram precisas palavras para saber que tinham chegado ao sítio que procuravam. “Gostava de conseguir descrever melhor a sensação que tive, porque foi como se tivesse viajado no tempo.” As casas de madeira, sem electricidade nem água canalizada, tinham símbolos esculpidos nas fachadas. E no rés-do-chão, que se abria à rua entre as estacas que sustentavam os edifícios, estavam “várias senhoras aos teares, a cantar e a tecer”.

Desde finais de 2013 que Rafaela Fortunato viaja pelo mundo (o foco tem sido a Ásia e, este ano, Marrocos) à procura de comunidades que ainda utilizem técnicas ancestrais na produção de tecidos, da tecelagem às tintas naturais. E ali, naquela aldeia perdida no interior do Laos, acabou por encontrar tudo isso. Aos poucos, na linguagem universal dos gestos e da confiança que se vai ganhando com o passar do tempo, foram-lhe mostrando “de onde é que tiravam o algodão, como é que o fiavam e teciam”. Como é que, só com as plantas que tinham em redor, conseguiam fazer aquelas cores todas: “dourados, castanhos, laranjas, verdes, azuis, tudo”.

De todos os lugares que visitou foi aquele “o mais real”. Pelo menos o mais intacto, apartado da civilização moderna e do turismo. “A certo ponto tiro-lhes uma fotografia com o iPad e o histerismo foi tal que acho que nunca se tinham visto num ecrã.” Rafaela acabou por comprar alguns lenços de algodão feitos por aquelas mulheres e, já em Portugal, tingiu-os para criar mais uma das minicolecções da Oficina Shanti, o projecto que lançou com Filipa Castanhinha depois de uma viagem que fizeram juntas à Índia e ao Nepal, quatro anos antes.

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Na altura, Rafaela e Filipa, ambas psicólogas, uma ainda com um pé em Inglaterra, a outra a querer deixar definitivamente o Brasil, meteram-se num avião em direcção a Nova Deli para cumprir “o sonho de conhecer a Índia”. Não havia qualquer ideia de criar um projecto em conjunto (Filipa foi entretanto mãe e deixou a Oficina Shanti; Rafaela já fez a viagem ao Laos sem ela).

Era uma viagem de exploração, três meses de mochilas às costas. Primeiro pelo Norte da Índia. Depois um mês no Nepal. “Fizemos um trekking pequenino que se chama Poon Hill, de três dias, mas nós demorámos seis”, ri-se. “E, a seguir, acabámos por ficar quase três semanas em Pokhara, que tem um lago lindo à frente e as montanhas de Annapurna atrás. Sentíamo-nos nos vales suíços do Nepal.” Terminaram na Índia, já no Sul, entre Goa e Querala.

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Os primeiros dias, no entanto, foram difíceis. Confessa que pensaram “seriamente em desistir”. “Acho que foi o maior desafio vivido fora de Portugal.” O taxista enganou-as à chegada, inventou um festival enorme a fechar as ruas da cidade que não existia; acabaram a dormir numa pousada que ainda hoje Rafaela não sabe onde fica. Depois foram parar a uma agência de viagens que lhes cobrou “um dinheirão” por bilhetes de comboio. Estavam num “ciclo vicioso” de gente a querer enganá-las do qual não conseguiam sair. “Foi preciso telefonar a uns conhecidos que viviam em Deli para nos virem buscar”, recorda.

Mas assim que saíram da capital começaram a sentir “que afinal gostavam” daquilo. Continuaram. E quando deram por elas estavam a parar em todas as bancas de artesanato de rua que encontravam, a visitar todas as oficinas de têxteis e salas de tingimento e a passar tardes inteiras a ver senhores a talhar blocos de madeira com os símbolos com que depois carimbavam os tecidos.

“Nunca tinha visto estampas manuais nem tintas naturais. Nunca tinha sequer pensado sobre como é que se produziam padrões antes do digital.” Ficaram fascinadas, começaram a comprar tecidos para elas. Depois Filipa lembrou-se de tirar fotografias e partilhar com os amigos. “Nesse mesmo dia vendemos tudo”, recorda Rafaela. Nascia assim a Oficina Shanti, por mero acaso, com uma “minicolecção de tecidos indianos estampados à mão”. Com eles, criaram ainda uma linha de almofadas e colchas de cama.

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A Rafaela, psicóloga especializada em famílias e comunidades, cativam-na sobretudo as pessoas, mais do que os tecidos ou as técnicas. “Ver a felicidade com que trabalhavam, a perícia, a mestria, a sabedoria por trás daquilo.” E a mística por trás dos velhos rituais. “No Laos, por exemplo, as tinas de índigo são tapadas e atadas com laços para afastar as más energias e, por vezes, cobertas com os panos mais bonitos para atrair as boas.” Em Marrocos, passou a “adorar tecelagem” porque as artesãs utilizam henna para desenhar nas mãos os símbolos daquilo que “querem transmitir na peça que vão criar”.

Depois de pensar um pouco, no entanto, Rafaela admite que “a paixão dos têxteis já existia”. “Tirei um curso de costura e de criação da própria marca em Londres, só não achei que fosse acontecer, porque sentia que não tinha conhecimentos suficientes.” Na altura, conta, o objectivo era fazer reciclagem de roupa, “muito na óptica da sustentabilidade e da ecologia”. Preocupações que a definem há muito, garante, e que têm um papel decisivo na Shanti.

Para a linha de sapatos de pano, por exemplo, fizeram uma parceria com uma pequena oficina na Tailândia e pensaram em conjunto “como criá-los de uma forma um bocadinho mais ecológica”. Borracha natural para a sola, materiais naturais na parte têxtil, atacadores de sisal. Brevemente vão lançar uma nova linha, com botas para o Inverno. Já de Marrocos, nada veio das tinturarias de Fez porque utilizam muitos químicos no tratamento das peles. Mas trouxe muitas ideias para uma palestra no Green Fest sobre viagens mais sustentáveis e zero waste.

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Ultimamente, o que mais entusiasma Rafaela é todo o ciclo de produção e de trabalho com tintas naturais, principalmente com o índigo. Sobre a bancada de trabalho do atelier-loja que acaba de montar na garagem de casa, na Costa da Caparica, sucedem-se os frascos e pacotes de ingredientes: koschenille, uns pequenos insectos secos e triturados que hão-de dar tons vermelhos e rosas aos tecidos; pedaços da planta campeche para os roxos; e várias experiências de extracção do pigmento azul das plantas de índigo (persicaria tinctoria) que plantaram no âmbito de um projecto das Aldeias do Xisto. “Conseguimos, pela primeira vez, recolher as folhas e começámos a fazer todo o processo desde a semente.”

Os projectos vão-se multiplicando. Quatro anos depois, vai regressar à psicologia, com consultas no The Therapist, restaurante e clínica de bem-estar localizado na Lx Factory. E, no início do próximo ano, planeia ir pela primeira vez à Indonésia, o “país-mãe do artesanato têxtil” daquela região, de onde se espalharam muitas das técnicas e onde cada ilha “ainda tem os seus motivos, as suas tradições e formas de fazer”.

E gostava de organizar viagens e guiar grupos (mais ou menos entendidos nas artes dos tecidos) pelas aldeias que tem visitado ao longo dos anos. “Levá-los a sítios menos turísticos, onde possam ter contacto com as pessoas locais e fazer workshops.” De tecelagem com lã em Marrocos, de tinturaria e block print na Tailândia, de tecelagem com algodão no Laos. E continuar com o projecto de tinturaria natural nas Aldeias do Xisto e com a Oficina Shanti na garagem de casa. “O tempo vai surgir”, ri-se. “Quando se faz o que se gosta, o tempo multiplica-se e eu divido-me.”