Opinião

A família tornou-se uma “incorrecção política”?

Três exemplos que ilustram a forma como se amesquinha a família enquanto primeira e decisiva instituição referencial.

Hoje é o dia dos Finados, tornado banal pela escassez de espiritualidade e pela rarefacção de memória que a sociedade presentista vai gerando aceleradamente. Hoje, continuamos entre Tancos e tantos (casos judiciários). Nesta apoplexia da repetição e da vulgarização, a indiferença tornou-se demolidora. É aí que medram circunstâncias insólitas, como três situações recentes, que aqui sumario. A primeira, a de um professor de uma universidade pública, “dinamizador do poliamor (!) em Portugal”, que num programa televisivo afirmou que “quando a avozinha ou o avozinho vai lá a casa e a criança é obrigada a dar o beijinho à avozinha ou ao avozinho, estamos a educar para a violência sobre o corpo do outro ou da outra, desde crianças”. A segunda, a de um inquérito abjecto numa escola pública em que alunos do 5.º ano (nove, dez anos de idade) foram questionados sobre se se sentem “atraídos por homens, mulher ou ambos” e sobre o seu sexo (se é “homem, mulher ou... outro”!), no âmbito de uma “ficha sociodemográfica” (!). A terceira, a de um novo reality show chamado “Casados à Primeira Vista”, no qual os “concorrentes” vão casar com alguém que nunca viram antes e que só conhecem no próprio dia do casamento.

Estes três exemplos ilustram algumas das faces eticamente sórdidas e tóxicas com que, directa ou subliminarmente, se amesquinha a família enquanto primeira e decisiva instituição referencial.

A família não é um frágil conglomerado de emoções e estados de alma que nos é oferecido por telenovelas e outros produtos de libertinagem.

A família nasceu com o Homem e existe antes do Estado. Não foi inventada cientificamente, não resulta de qualquer legado jurídico, não foi imposta por qualquer acto administrativo, não germinou fruto de uma qualquer ideologia, não é o resultado de meras circunstâncias ou contingências históricas, nem é moldável por ideologias do género que subjuguem o seu fundamento antropológico. A família legitima-se no direito natural. A família não é para o Estado, mas antes o Estado (e a sociedade) são para a família.

A família não é de esquerda ou de direita, nem é politicamente apropriável. Não é laica ou confessional. É antes o mais perene património da humanidade, um bem para todos e não um mal para alguns.

Na família – unidade através da diversidade – todos dependem de todos. Não somos invulneráveis, nem perfeitos, mas dependentes e imperfeitos. Bem sei que a instituição familiar não está na moda politicamente correcta e fracturante. Bem sei que o excitante não é falar do casamento, mas da sua dissolução, não é defender a exigência, mas espraiar lógicas facilitistas, não é cuidar dos velhos quando a cura já não é possível, mas do seu direito à eutanásia, não é investir na maturidade afectiva, mas estimular a precocidade sexual, não é educar na liberdade e responsabilidade, mas confundir obrigação com coerção (vide a palavra “obrigada”, usada pelo interveniente sobre os beijos aos avós...).

Na política de hipertrofia obsessiva de meios materiais, a família é sempre sacrificada. Para o Estado, é perspectivada quase apenas como sujeito pagador de impostos. Na sociedade do ter, a família torna-se cada vez mais e apenas um agente consumidor. No imperialismo mediático, o sucesso da família não é notícia, apenas o é o seu fracasso.

No fundo, a família está entre dois pólos, também chamados de reivindicações da modernidade: o individualismo e o Estado. Subjugada ao poder discricionário, ao mercado, ao consumismo, ao hedonismo. Por outro lado, é menosprezada nesta Europa redutora e monetarizada e está completamente ausente de qualquer tratado europeu.

Tenho para mim que a família é e será indelevelmente um tema de futuro, de progresso e de esperança. Não para sustentar visões arcaicas. Não para isolar a família como uma entidade defensiva e fechada sobre si mesma e à margem das transformações que se vão verificando. Antes para promover uma concepção dinâmica, arejada, responsável de família, que reforce e potencie os seus traços essenciais de partilha, solidariedade, entreajuda e amor e que não descarte, antes aprofunde e aperfeiçoe, a experiência acumulada de gerações passadas.

Este aggiornamento familiar tem, é bom não esquecer, adversários poderosos, umas vezes mais à luz do dia, outras mais larvares, mas nem por isso menos dissolventes. Adversários que, no plano ético, se servem do relativismo; no plano comportamental, da indiferença e da licenciosidade; no plano da vida, da propagação da cultura da morte; no plano espiritual, do positivismo hedonista e da cultura da satisfação; no plano geracional, do egoísmo; no plano social, do individualismo predador; no plano económico, do utilitarismo puro e duro; no plano religioso, do fanatismo religioso ou ateu.

Não há verdadeiro desenvolvimento humano sem qualidade de família. Não se edifica uma “sociedade de bem-estar” radicada no “mal-estar das famílias”.

O progresso da humanidade passará sempre pelo primado da família. Fora desta, todas as soluções são falsas, circunstanciais e efémeras.

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