Polícia não viu sinais de invasão da esquadra de Alfragide: nem pedras nem vidros no chão

Esta sexta-feira um agente que é testemunha no processo da esquadra de Alfragide diz ter visto a situação "controlada" pelos colegas. Arguidos acusaram jovens de atirar pedras, mas este agente não as viu.

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Chegada dos arguidos ao Tribunal de Sintra no início do julgamento, em Maio MIGUEL A. LOPES/LUSA

Quando foram ouvidos ao longo da investigação, vários agentes da Esquadra de Intervenção e Fiscalização Policial de Alfragide afirmaram que no dia 5 de Fevereiro de 2015 “entre 10 a 15 jovens” da Cova da Moura tinham tentado invadir aquelas instalações, atirando pedras. Repetiram-no ao colectivo de juízes do Tribunal de Sintra, que os está a julgar desde Maio por vários crimes como falsificação de auto, tortura e racismo.

Aliás, a justificação dada por um agente, João Nunes, que atirou uma bala de borracha e feriu a perna de um dos jovens, foi justamente que o tinha feito para "acabar com a invasão". 

Os polícias negaram sempre qualquer uso excessivo de força contra os jovens, bem como o facto de terem proferido insultos racistas, como vem descrito no despacho de acusação do Ministério Público.

Na manhã desta sexta-feira, enquanto testemunha, o agente Joaquim Cesteiro da 64.ª esquadra, que fica mesmo em frente à Esquadra de Intervenção e Fiscalização Policial de Alfragide, contou que quando chegou à rua logo depois de ter ouvido o disparo viu a situação controlada pelos polícias, com “dois indivíduos de raça negra” detidos pelos colegas em frente à porta da esquadra, do lado de fora, e outros dois junto à rotunda, também controlados pelos agentes. “Não havia sinais de resistência”, referiu. A versão não é exactamente a mesma que a dos polícias que participaram na operação. Estes sempre alegaram que os jovens os agrediram com pedras, que, por isso, tiveram que se defender, e que o processo de detenção foi conturbado.

Reparou ainda que um dos jovens estava a ser manietado e projectado contra o chão por outro agente. Ele próprio forneceu “um par de algemas” para o ajudar a deter já que este estaria “a escapulir-se” — mas diz não se recordar qual foi o agente que lhas pediu.

Ao todo estariam fora da esquadra uns “dez agentes”, precisou. Também não viu nem pedras, nem vidros no chão como relataram os colegas que estão em tribunal como arguidos. O episódio provocou distúrbios no trânsito, com alguns condutores a pararem para observar. Depois de perceber que “a situação estava controlada”, Joaquim Cesteiro virou a sua atenção para outro lado. 

Uma hora mais tarde, e porque um dos agentes lho disse, viu a carrinha com um vidro partido. E foi só quando se dirigiu à esquadra para recuperar as suas algemas que lhe foi comunicada pelos agentes a tentativa de invasão. Na altura, não viu “nada de anormal” naquela esquadra. Ainda perguntou se os colegas precisavam de ajuda, mas disseram-lhe que não.   

PSP comunicou agressões ao INEM

Antes, Manuel Maria Dias, técnico do INEM que se deslocou à esquadra de Alfragide com o aviso dos serviços centrais de que iria prestar assistência numa situação de agressão, contou: “Normalmente recebemos o serviço por computador, ou por mensagem, e a sigla da tipologia de serviço neste caso era ‘AGR’, de agressão."

Contou uma versão ligeiramente diferente da dos colegas bombeiros que foram ouvidos no mesmo tribunal, há uma semana, e que afirmaram não ter visto um ambiente fora do normal. Dentro da esquadra o ambiente era tenso, referiu. Foi-lhe comunicado, por um dos agentes, que tinham existido agressões na esquadra. "Não sei com quem falei. Mas sei que alguém nos abordou e explicou que tinha existido uma confusão e agressões, que havia vítimas e indicaram-me a minha vítima”, que “era a que apresentava mais cuidados” por ter sido atingido por uma bala.

O técnico diz que não teve contacto com mais nenhum dos jovens além de Celso Lopes, o jovem baleado. Recorda-se de “uma pessoa cabisbaixa, pouco faladora”. Não se recorda de ter feito limpeza de sangue na face. No verbete, onde regista como hora de chegada ao local as 18h40 (quatro horas depois do episódio) escreveu: "Consciente, orientado, baleado, ferimento na coxa esquerda sem sangramento." A este técnico Celso Lopes disse “exactamente o mesmo que disse o polícia, que tinha existido agressão”. O juiz quis saber se ele tinha sido o primeiro a observá-lo e Manuel Dias respondeu que sim.

Os seis jovens foram assistidos no hospital mais tarde e, segundo os relatórios que constam do processo, Celso Lopes apresentava uma ferida com dor na coxa esquerda, para as quais foram colocados pontos de sutura — a cura das lesões foi fixada em 14 dias, com impossibilidade de trabalhar. Também Flávio Almada, outro dos jovens assistidos, foi diagnosticado com traumatismo craniano, da face e da coxa esquerda, com vários edemas, contusão no joelho e dente partido — a cura das lesões foi fixada em 10 dias, com impossibilidade para o trabalho.

Um diagnóstico parecido foi feito a Miguel Reis, que também ficou com hematomas e edemas, bem como a extracção traumática de um dente — aliás, todos os jovens têm registo hospitalar de lesões.