Crítica

Cantando a razão de Estado que conquista o amor

Sousa Carvalho foi um dos mais importantes compositores nacionais do seu tempo e Perseu demonstra à saciedade a razão do seu prestígio artístico.

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A orquestra Divino Sospiro DR

Estou convencido de que a maioria dos leitores terá dificuldade em situar no tempo o rei D. Pedro III. Na verdade, o príncipe D. Pedro, quinto filho de D. João V, foi, durante menos de uma década, rei consorte — tio e marido da rainha D. Maria I, antes de esta ter perdido a razão. Contudo teve um papel central na construção do Palácio de Queluz e na promoção da sua vida artística. Em 1779, João de Sousa Carvalho compôs uma Serenata, Perseu, para comemorar, em Queluz, o dia do seu aniversário. Foi esta serenata que teve agora a sua estreia moderna no mesmo local, a partir de uma edição especialmente preparada para o efeito por Iskrena Yordanova.

Sousa Carvalho (1745-1798), que durante algum tempo no século XX se tornou conhecido por uma Sonata para tecla que não escreveu (entre outras confusões de atribuição entretanto deslindadas pela musicologia), foi um dos mais importantes compositores nacionais do seu tempo; esta obra demonstra à saciedade a razão do seu prestígio artístico.

Esta Serenata, obra ocasional em honra de um alto personagem, pertence ao subgénero dramático, no qual um enredo poeticamente trabalhado é desfiado por vários solistas e uma orquestra, com tendencial uso de cenografia e figurinos; note-se que, à época da estreia de Perseu, já tinha sido inaugurado em Queluz o respectivo teatro real. Trata-se, pois, de uma proto-ópera; esta sua revisitação fez-se em modo de concerto, mas uma versão encenada, havendo orçamento para tal, teria sido oportuna, ampliando o seu impacto.

Quanto ao texto — preparado com apuro pelo antigo libretista de Jommelli, Gaetano Martinelli, então ao serviço da corte portuguesa —, a invocação do rei resume-se ao último número; tudo o resto é ocupado por uma narrativa, pontuada por secções líricas, que opõe o herói Perseu (desempenhado pela meio-soprano Alena Dantcheva), assistido pelos deuses, ao seu rival amoroso Fineu (papel confiado ao tenor André Lacerda), ambos apostados em casar com a princesa Andrómeda (soprano Bárbara Barradas). Aparte as intervenções do mensageiro Mercúrio (soprano Francesca Boncompagni), o conflito é mediado pela rainha Cassiopeia (soprano Lucia Martín-Cartón). O surpreendente é que inicialmente a princesa está enamorada por Fineu, e é a razão de Estado, introduzida pela rainha, que impõe o casamento com Perseu, caso este derrote a Medusa que ameaça o reino. Pertinente trama, quando o rei homenageado foi imposto à rainha pelo próprio pai, D. José, e a razão de Estado regia toda a lógica do acasalamento dinástico. Mas trama consoladora, enfim, porque, como sucedeu com D. Maria e D. Pedro, acaba por resultar num realinhamento dos afectos pela realpolitik.

A música de Sousa Carvalho é raramente anémica e tem momentos altos de intensidade dramática, de que destaco as árias de Perseu, Perfido! e Cassiopeia, La ragione, e o duo de Perseu e Andrómeda, Ah quel pianto. De notar o uso sugestivo das expansões melismáticas, as quais, mais do que permitir a exibição técnica dos castrati que criaram os papéis, encontram justificação nas ideias ilustradas pela música. Contudo é nos recitativos acompanhados que, na esteira de Jommelli, o compositor faz mais alarde dos seus admiráveis recursos de escrita orquestral, com frequentes contrastes de colorido e de textura.

A interpretação do Divino Sospiro, sob a direcção certeira de Vanni Moretto, foi plena de vitalidade e de clareza, podendo ainda ser afinada nalguns pormenores, mormente nas intervenções dos metais. A escolha dos solistas foi extremamente feliz: Alena Dantcheva (Perseu) é um espanto, na densidade da presença vocal como na precisão e facilidade técnicas; Bárbara Barradas (Andrómeda) fez um papel esplendoroso, para mais num registo mais grave do que lhe é confortável. O dueto que envolveu ambas, Ah quel pianto, foi de um entendimento musical inigualável. Excelentes prestações tiveram também André Lacerda (Fineu), com destaque para a ária D'un alma gelosa, e Lucia Martín-Cartón (Cassiopeia), que juntou a ligeireza da coloratura à intenção dramática. Mesmo o papel mais modesto de Francesca Boncompagni (Mercúrio) foi desempenhado com inteira competência. O público soube reconhecer, aplaudindo de pé, a enorme qualidade quer da música, quer da sua prestação interpretativa. Mas o património musical é sempre o último a ser considerado nas prioridades de investimento e divulgação das nossas fracas instituições culturais. Para quando a desejável encenação e gravação desta Serenata?