Entrevista

"É possível que no futuro os funerais sejam mais personalizados”

"Somos menos religiosos, vivemos num mundo globalizado e tudo isso vai afectar as práticas funerárias nas próximas décadas", diz autora de livro publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

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Nuno Ferreira Santos

Apesar de muito estar a mudar na forma como nos despedimos dos que partiram, Rita Canas Mendes, autora do livro Viver da Morte - A Indústria Funerária em Portugal, acredita que "haverá sempre a necessidade da presença física e do contacto humano" nos funerais.

No livro enfatiza a ideia de que não existe um guia para a última viagem, num país onde existem mais de mil funerárias. Como é que as pessoas escolhem?

As pessoas vão um bocado à sorte e por instinto, não fazem em geral um estudo prévio das várias funerárias, escolhem habitualmente a agência mais próxima de casa ou que alguém da família já usou e recomendou. Em Portugal não existe um site ou uma publicação com recomendações. Quando pesquisamos funerárias [na Internet] encontramos sites de algumas e também encontramos algumas reclamações. Mas não há um fórum onde as pessoas discutam a qualidade do serviço, a simpatia, a rapidez, o rigor e a honestidade. As pessoas não se orientam, vão à sorte e depois há experiências boas e experiências más. Há uma grande concorrência e algumas funerárias vivem com bastantes dificuldades. A questão das cobranças é outra dificuldade, é sempre delicado apresentar a factura ao cliente. Hoje em dia é muito comum e é prática recomendada fazer-se um contrato entre as partes na altura, mas, mesmo com contrato, as pessoas muitas vezes furtam-se ao pagamento, ou porque não tinham meios para isso, ou porque acabaram por contratar mais serviços do que queriam e depois [descobrem que] não tinham orçamento para aquilo.

Como serão os funerais no futuro? 

A maneira como encaramos a morte e o próprio conceito de homenagem de despedida, o ritual funerário, mudou nos últimos anos, portanto é possível que mude bastante no futuro. Hoje somos menos religiosos, vivemos num mundo globalizado e tudo isso vai afectar as práticas funerárias nas próximas décadas. Mas no presente já existem [por exemplo] sites de homenagem e apps funerárias (há uma funerária em Beja que tem a sua própria aplicação). Temos o site Infofunerais onde são publicados óbitos, e que parece o Facebook dos mortos e existe ainda o Até Sempre, que permite às pessoas deixarem mensagens de condolências e testemunhos.

O mesmo espírito de levar a homenagem para o mundo virtual permite, por exemplo, acender uma velinha electrónica quando passa pelo perfil do falecido. Não sei se a moda vai pegar e se vai passar a ser tudo virtual. Tenho dúvidas. Acho que haverá sempre a necessidade da presença física e do contacto humano. A maneira como olhamos para a morte vai mudando. É possível que, no futuro, os funerais sejam mais personalizados, menos centrados na morte e mais centrados na recordação da vida da pessoa. É possível também que venha a haver menos funerais religiosos. Sabemos que nas sociedades ocidentais há uma tendência cada vez maior para a laicidade.  

Há cada vez mais cremações em Portugal. Confessa que essa era a sua opção antes de ter começado a fazer a pesquisa do livro, mas diz que agora hesita entre outras opções. Porquê?

Eu achava que queria ser cremada, mas hoje hesito entre esta e outras opções, como a de doar o corpo à ciência. Por outro lado, acho que o nosso corpo é bastante simbólico e a metáfora toda de voltar à terra tem uma importância mitológica que continua a fazer sentido. Eu achava que queria ser cremada, pronto, assunto enterrado, mas depois comecei a pensar e enterrar tem uma carga simbólica e é aquilo que o ser humano faz há milhares de anos, o enterro foi provavelmente a primeira solução. O voltar à terra é uma imagem com muita força e que, de certa forma me reconcilia com a ideia de fim. Mas ainda estou a pensar.