Brasil inaugura a era Bolsonaro

Três conclusões da eleição de Bolsonaro e dois tipos de desafios que o novo Presidente terá de superar.

Mais do que insultos, rótulos e estigmas que superabundaram no exercício, algo histérico, de demonização de Jair Bolsonaro pelos media portugueses (com escasso sucesso, pois os brasileiros residentes deram-lhe a vitória com cerca de 65% dos votos), interessará extrair três conclusões da sua eleição.

A primeira é a de que um improvável populista, politicamente marginal em 2016, ao tempo do impeachment de Dilma, ganhou as presidenciais com 55% dos votos, desafiando os manuais de politologia. Para o efeito, o candidato:

i) Utilizou um discurso simplista, radical e excessivo que nenhum spin doctor aconselharia, mas que era o que a maioria do eleitorado pretendia ouvir, exasperado pela corrupção do PT e aliados, pela insegurança, pela perda do nível de vida e pela contracultura dominante;

ii) Fez uma campanha modesta (abdicou do fundo eleitoral , recebendo um financiamento cinco vezes menor que Haddad), teve oito segundos de tempo de antena na primeira volta e enfrentou uma media hostil, de cuja firewall fez um bypass, contactando com multidões e usando magistralmente as redes sociais, como Trump, com acesso direto ao eleitor, sobretudo durante o longo período em que não fez ações de rua, por ter sido esfaqueado;

iii) E, tendo começado uma corrida solitária, com algumas centenas de espontâneos em ruas e aeroportos, sustentado num micropartido (o PSL) que elegera um deputado em 2014, acabou concentrando um milhão de pessoas na Paulista, conseguiu que o PSL obtivesse 52 deputados e levou a que candidatos a senador e a governador implorassem o seu apoio (ajudando a eleger 15  dos 27 governadores, incluindo os dos estados mais populosos e ricos).

A segunda conclusão é a de que a sua vitória não se limitou à derrota de Haddad. Derrotados foram igualmente: o PT (senhor do poder e da cultura dominante durante 14 anos); o alter-mundialismo marxista que Lula implantou no “Foro de S. Paulo” (e as suas ramificações chavistas que vão dos ditadores de Caracas aos sociólogos de Coimbra); o PSDB e MDB que falharam uma alternativa política no “centrão”; e a “intelligentsia” da cultura e das artes associada aos media profissionais que fizeram uma campanha quase militante contra o novo Presidente.

As derrotas referidas terão consequências partidárias. O PSL aumentará o seu grupo parlamentar com adesões de outras forças e ocupará a primeira posição. Haverá uma luta feroz pela liderança da oposição entre o PT e o PDT do instável Ciro Gomes, que recusou, à última hora, apoiar Haddad. No próprio PT, com o ocaso da liderança de Lula, Haddad, um moderado, enfrentará a ortodoxia de Wagner e Gleisi Hoffmann. E, no “centrão”, haverá fusões e oscilações entre os que se colarão à nova maioria de direita e os que mercadejarão apoios políticos em troca de benesses. A vitória de Dória em S. Paulo terá salvo o PSDB da implosão, mas a viragem do partido à direita sob a sua possível liderança terá resistência das “cabeças coroadas” do Partido (FHC, Serra, Aécio e Alckmin).

A terceira conclusão é a de que a chamada direita nacional-populista e a sua agenda soberanista, securitária, protecionista e anti-imigratória já opera em rede, avançando para grandes Estados do universo euro-americano, tendo agora como alvo prioritário as eleições para o Parlamento Europeu de 2019, não sendo claro como os partidos do mainstream e as suas lideranças baças irão opor uma resistência eficaz a essa progressão.

O que virá? Bolsonaro tem uma difícil agenda de encargos na área financeira, económica e social que não se resolverá com as receitas simples e vagas da sua campanha, tudo dependendo dos apoios que reunir no Congresso. É o caso das reformas da segurança social e tributária, privatizações e redução da dívida, onde terá de arbitrar entre o entusiasmo liberal do futuro superministro da Economia, Paulo Guedes, e o soberanismo da “família militar” que não quer a privatização das “joias da coroa”em favor de capital estrangeiro.

Mas, como condições para liderar políticas futuras, Bolsonaro tem de superar dois tipos de desafios. O primeiro é o da organização do seu centro de Governo, que não pode cair em descrédito, como o de Trump, com cacofonia, fugas de informação, demissões, má gestão e articulação. O papel do trio de generais do seu inner circle poderá ser decisivo, pois o meio militar brasileiro pauta-se por modelos de organização eficazes que podem beneficiar Lorenzoni, o futuro ministro da Casa Civil, tido como racional e moderado. O segundo desafio é o do verbo arrebatado do próprio Bolsonaro, um político arguto, instintivo mas com a língua solta que se entusiasma com as suas frases extremas e “tremendistas”. Tem prazer em usar um humor assassino e pueril que o novo presidente do STF captou, quando desvalorizou os excessos verbais e realçou o seu temperamento “divertido e bem humorado”.

A imprensa fala agora em dois Bolsonaros: o radical da campanha e o que fez um “discurso de Estado” na noite eleitoral. Ora, não há dois Bolsonaros e o novo Presidente não abandonará o seu estilo simples de falar com as pessoas pelas redes e de disparo de frases mortíferas contra os adversários. Essencial é que, necessitando de uma maioria no Congresso, o seu discurso seja de unidade, trave ofensas vulgares, respeite as minorias e a diversidade, não reaja a quente aos ataques da media e discipline o uso da palavra dos seus próximos evitando conflitos espúrios com outros poderes. O pior inimigo do Bolsonaro Presidente, em termos de comunicação, é o próprio “Bolsonarismo” desenfreado.

O Presidente eleito não dedicou uma única palavra a Portugal. A forma como tem sido tratado na imprensa nacional e por políticos portugueses explicará em parte esta omissão. Atentos os interesses nacionais em jogo (mormente no plano histórico, económico, universitário e das comunidades de imigrantes), a lucidez fria do ministro dos Negócios Estrangeiro expressa nas relações Estado a Estado deve inspirar os restantes responsáveis, desde Belém ao Parlamento.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico