Bolsonaro revela que a "direita portuguesa é menos liberal do que se julgava”

Para António Araújo, a eleição de Bolsonaro mostra, pelo menos, isto: que, também em Portugal, “o espaço da direita liberal está a ficar cada vez mais confinado”.

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Para António Araújo, “a expressão do populismo em Portugal é canalizada através do futebol e dos seus dirigentes” Miguel Manso

É jurista, historiador e, embora não fale nessa qualidade, é também consultor para assuntos políticos do Presidente da República. Entre outros livros, António Araújo escreveu Da direita à esquerda (2016). As reacções da direita portuguesa antes e depois da eleição de Jair Bolsonaro nas presidenciais brasileiras foram um dos temas da conversa que teve com o PÚBLICO, por telefone. O historiador reconhece, por um lado, que ainda há em Portugal “um consenso muito forte ao centro” sobre questões como minorias ou imigração. Por outro lado, o que Bolsonaro e Trump revelam é que há uma direita com traços “muito mais autoritários do que propriamente liberais” e que “uma parcela muito substancial da dita direita portuguesa é menos liberal do que se julgava”.

As eleições brasileiras não deixaram ninguém indiferente, em Portugal. Na direita, houve quem assumisse que votaria em Bolsonaro, quem dissesse que se absteria, ou pelo menos quem não criticasse tanto o então candidato. Que impacto pode ter na direita portuguesa a eleição de um político como Jair Bolsonaro?
Ainda é muito cedo para ver. Isto já não é uma questão do impacto que Bolsonaro tem na direita portuguesa, mas mais Bolsonaro e Trump revelarem que há uma direita que, em parte se julgava liberal, mas que tem traços muito mais autoritários do que propriamente liberais. O espaço da direita liberal está a ficar cada vez mais confinado. Não é tanto o impacto que estes fenómenos têm na direita, é mais a revelação de que uma parcela muito substancial da dita direita portuguesa é menos liberal do que se julgava. Porque houve uma série de vozes, é importante que se diga, na direita portuguesa, que não eram propriamente só de apoio a Bolsonaro, mas também de compreensão ou de justificação do fenómeno Bolsonaro. Isto revelou pessoas mais autoritárias; pessoas que, a pretexto de compreenderem, acabaram por apoiar; e outras pessoas que sentiram necessidade de se demarcar, que foi o caso de Assunção Cristas. Mas, ao mesmo tempo, também se notou algum desconforto em pessoas mais ligadas a um centro-direita português.

Freitas do Amaral assinou um texto a apelar à derrota de Bolsonaro e sobre isso explicou ao PÚBLICO: “São alertas de democratas contra os perigos que a democracia corre, por enquanto noutros países. Esperemos que não venha a correr no nosso, mas não temos a certeza.” Portugal corre esse risco?
Não. Os riscos de uma onda como esta são relativamente reduzidos em Portugal. Não temos nem um problema de criminalidade, nem de fracturas com imigração, que são os dois grandes tópicos que poderão motivar e mobilizar um discurso populista. Não temos problemas com a nossa comunidade migrante, nem de elevada criminalidade. Os riscos de uma espécie de populismo social ser mobilizado politicamente são baixos. A expressão do populismo em Portugal é canalizada através do futebol e dos seus dirigentes. Há algo que foi dito por Jorge Almeida Fernandes [jornalista no PÚBLICO] que, talvez em Portugal, quer à direita, quer à esquerda, não perceberam: esta eleição, apesar de ser uma derrota de Haddad, também reforçou a posição do PT, em dois níveis. Por um lado, o PT passa a ter a hegemonia da resistência a Bolsonaro e, por outro lado, também é muito importante para o PT que saia da agenda política brasileira o tema da corrupção e passe a estar o tema da oposição. O PT ansiava por isto, que o assunto corrupção saísse da agenda.

Considera, então, que o que se passa no Brasil, assim como na Europa, no que respeita à extrema-direita, ainda está longe do cenário político português?
Sim, há uma constante, desde o 25 de Abril, e não vejo nenhuma razão para isso se alterar, de rejeição da extrema-direita, muito devido à memória do salazarismo. Mesmo nos partidos de direita, nenhum reclamou o legado de Salazar. Em Portugal, um discurso como o de Bolsonaro de negação de que houve uma ditadura militar seria imediatamente remetido para algo muito limitado, é algo ultraminoritário. No entanto, como, aliás, já disse nas páginas do PÚBLICO João Miguel Tavares, esta eleição de Bolsonaro é também uma lição para os opinion makers, para as elites intelectuais e culturais que julgam que, através de manifestos, conseguem cativar a opinião pública. Isto é uma vitória anti-sistémica. Mesmo em Portugal, não devemos subestimar isso. Agora, o risco de isto ter uma expressão política e uma tradução política efectiva e grande é muito baixo.

Nos EUA e no Brasil, assistimos a uma grande polarização, um nós contra eles, que tirou o centro da discussão…
Trump capitaliza isso. Aquilo de que se fala, nos estudos de ciência política, é até da polarização afectiva. As pessoas estão divididas, inclusivamente no que respeita à sua rede de amigos, de sociabilidade. Ou seja, um democrata já não tem amigos republicanos ou um republicano amigos democratas. Já não é uma questão puramente racional, é muito uma questão de polarização emocional e até dos laços de convivialidade. O que interessa muito a este género de líderes. Quer para os líderes de extrema-direita, quer de extrema-esquerda, a polarização é sempre interessante. Esta crispação é muito bem manipulada por parte deste género de líderes.

Em Portugal essa polarização não existe? Ou existe de forma mais atenuada?
Há uma polarização, uma espécie de triunfalismo hegemónico da solução política que está no Governo e algum ressentimento da oposição, mas de modo nenhum chegámos aos níveis de polarização [de outros países]. Até porque há um consenso ainda muito forte em questões como o tratamento de minorias, a questão dos imigrantes… Há um consenso muito forte ao centro, não há forças extremistas de um lado e de outro que consigam induzir e fazer alastrar na sociedade portuguesa um sentimento de polarização e de crispação como o que existe noutros países.

As redes sociais têm um papel cada vez mais importante nas campanhas eleitorais…
Sem dúvida.

Porquê? Em Portugal também?
Não conheço as campanhas em Portugal a esse ponto, mas com a taxa de penetração do WhatsApp no Brasil, com tantos brasileiros ligados, é relativamente apetecível, para qualquer líder, tentar mobilizar isto. Em Portugal é tudo muito mais incipiente, não se verifica o que ocorre no Brasil. Agora, não há dúvida de que as redes sociais têm algo que é muito importante neste género de líderes, que não têm um partido tradicional, nem uma ancoragem tradicional, com sedes de campanha, com militantes nas ruas: é que lhes permite uma propagação muito rápida de uma mensagem e a sua divulgação a larga escala. Isto favorece muito os candidatos anti-sistémicos e fora dos partidos tradicionais, porque o candidato não tem de ter uma máquina partidária a apoiá-lo, basta ter máquinas digitais a disseminar a sua mensagem. O digital favorece muito este perfil de novas lideranças. 

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