Alemanha questiona-se sobre como será o pós-Merkel

A chanceler ainda está no cargo mas já se nota a nostalgia: um analista intercalou um texto com um poema. E nota que Merkel sai justamente quando o perigo não parece espreitar à direita e há uma hipótese de um novo centro.

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Reuters/HANNIBAL HANSCHKE

Angela Merkel ainda só anunciou que deixa a liderança do partido, mas a imprensa alemã já tentava imaginar um país sem a chanceler. A despedida da era Merkel começou oficialmente, com especulações sobre quanto tempo poderá manter a chefia do Governo sem a liderança do partido – enquanto líder da oposição, a própria Merkel previu a queda do seu antecessor do SPD, Gerhard Schröder, quando este saiu também da liderança do partido. Há quem fale em semanas, com rumores de que a cúpula da CDU poderia pressionar para que cedesse também a chefia do Governo. Há quem fale em três anos, até a eleições marcadas para 2021.

Seja a saída de cena de Merkel quando for, as análises prevêem que nada será como antes e antecipavam desafios.

Nem todas as análises são frias: no site do semanário Die Zeit, Bernd Ulrich intercalava versos de uma canção sobre o surgir da lua na análise política para falar do ocaso de Merkel. Ulrich nota a altura que Merkel escolheu para sair – não no auge das críticas à sua política de refugiados, não quando a CDU perde mais votos para a direita mas sim para os Verdes. Ou seja, precisamente na altura em que “é possível construir um novo centro” – um centro para onde ela levou a CDU, e que poderia agora continuar com uma aliança CDU-Verdes (ou mesmo Verdes-CDU, continua o jornalista no Twitter).

Quando se fala de política alemã, todos os holofotes têm estado apontados à AfD (Alternativa para a Alemanha), o partido de direita radical que surgiu como crítico da política de Merkel em relação ao euro e conseguiu, mais tarde, sucesso quando se transformou em partido anti-islão e anti-migração. Este sucesso veio na sequência da decisão de Merkel permitir a entrada de refugiados na Alemanha em 2015.

O poder de Schäuble

Na análise no jornal, Ulrich argumenta que o “problema para o pós-República-de-Merkel não está à sua direita, mas sim do outro lado do espectro político: não há nenhuma alternativa liberal”, diz. Nem a potencial sucessora, Annegret Kramp-Karrenbauer (apenas um dos nomes na corrida; é considerada uma das mais bem posicionadas por causa da rede que o seu cargo de secretária-geral lhe dá dentro do partido, por outro lado, especula-se que Wolfgang Schaüble, actual presidente do Parlamento, possa apoiar um outro candidato e que esse apoio será decisivo), nem no Partido Social Democrata, nem no Partido Liberal Democrata nem, ainda, nos Verdes.

O anúncio da saída de Merkel segue-se a uma queda dos dois grandes partidos da Alemanha, o seu próprio partido, a CDU, e o seu parceiro de coligação, o SPD, os dois Volksparteien, ou partidos do povo, grandes partidos com apelo transversal. Com esta descida e o surgimento da AfD como partido estabelecido (presente no Parlamento nacional e em todos os estados federados) a matemática das coligações altera-se: há cada vez mais abertura a experimentação num país onde durante décadas só havia três partidos nos governos nacionais (CDU/CSU e SPD, com os Liberais como parceiro de coligação) e onde a entrada dos Verdes no Governo social-democrata de Gerhard Schröder, em 1998, foi uma enorme novidade.

Após as últimas eleições, no ano passado, houve esperança numa coligação Jamaica – ou seja, dos partidos negro, amarelo e verde, que juntaria CDU/CSU, o Partido Liberal Democrata (FDP) e os Verdes. Esta caiu com uma saída teatral de Christian Linder, o líder do FDP, dando lugar a uma “grande coligação” de bloco central que se revelou muito pouco popular, por ter estado dominada por uma discussão sobre política migratória, um assunto imposto pela CSU, o gémeo bávaro da CDU, e que afinal não era uma prioridade para os eleitores.

CDU perde para Verdes e AfD

Nas duas últimas eleições regionais – primeiro na Baviera, depois no Hesse, estado de Frankfurt – percebeu-se o desdém dos eleitores por esta coligação. A CDU perdeu votos sobretudo para os Verdes, e de seguida para a AfD. Alguns analistas apontam que a AfD deixou de subir, e parece ter esgotado uma fonte inicial substancial de votos: os de abstencionistas. E por outro lado, cada vez mais os Verdes, que pela primeira vez na sua história tem na liderança dois moderados, quando a tradição era dividirem a liderança entre um radical e um moderado, se aproximam do centro. Por outro lado, com a sua mensagem claramente pró-europeia e pró-refugiados, os Verdes são um contraponto aos extremistas da AfD.

Quanto ao SPD, já antes da declaração de Merkel em relação à liderança da CDU, o partido era visto como um grande risco para a continuação da grande coligação: na última sondagem nacional do instituto Forsa, aparece com 14%, contra 26% da CDU/CSU, 21% dos Verdes, e 14% da AfD. Por um lado, nenhum dos partidos no Governo quer ser o responsável por provocar novas eleições. Como disse esta terça-feira o antigo braço direito de Merkel na chancelaria e hoje ministro da Economia, Peter Altmaier, “a grande coligação vai continuar, porque se não continuasse, o SPD, a CDU e a CSU iriam perder muita da confiança dos eleitores”.

O SPD teve a última vez um lampejo de entusiasmo com a candidatura de Martin Schulz a chanceler, que por momentos levou o SPD a ofuscar a CDU nas sondagens, algo que parecia impossível. Havia, portanto, espaço para uma subida do partido. Analistas dizem que o SPD não soube jogar com as suas forças, não soube ter uma mensagem. Schulz começou a descer e o SPD teve um dos piores resultados da sua história. E a descida tem continuado. 

O partido prepara-se dentro de pouco menos de um ano eleições regionais em que poderá descer ainda mais, em estados da antiga Alemanha de Leste em que a AfD teve bons resultados.

O partido de direita radical foi um caso interessante entre as reações ao anúncio da saída de Merkel (marcado por um coro de elogios). O partido que tem como principais slogans “Merkel tem de sair” e cujos apoiantes falam de uma “ditadura de Merkel” reagiu com um seco “é uma boa notícia” mas como comenta a emissora NTV, não houve rolhas de champanhe a saltar. O afastamento da chanceler poderá afectar o potencial mobilizador da AfD.

No final, ninguém consegue ainda antecipar como será a Alemanha pós-Merkel. No Twitter, repetia-se a pergunta: Estará a Alemanha preparada para um chanceler homem?