Crítica

Travessias de luz e de sombra de um outro Orlando

François Chaignaud corporiza uma peça deslumbrante que remexe no folclore espanhol para atestar a intemporalidade das questões de identidade, de género e de alteridade.

Foto
NINO LAISNÉ

O sumptuoso Salão Árabe do Palácio da Bolsa, no Porto, foi o entorno cenográfico exemplar para sublinhar o deslumbramento inquietante da mais recente e preciosa obra de François Chaignaud e Nino Laisné, Romances Incertos. Un Autre Orlando, apresentada em estreia nacional na passada sexta-feira, e que inaugurou a edição deste ano do importante Festival de Avignon.

Com uma decoração mourisca que evoca o sensorial Palácio do Alhambra, em Granada, o Salão Árabe acolheu este recital musical e coreográfico em três actos, evocativo da ópera-ballet, sob uma iluminação ténue que evidenciava os quatro músicos nas laterais e os dois dípticos de tapeçarias barrocas que compunham o cenário, ilustrando paisagens tão românticas quanto trágicas.

No prelúdio, Tristeza de un doble A, de Astor Piazolla, os músicos desenharam uma travessia acústica sensual e intensa de sonoridades hispânicas e mouriscas que acompanharam as três aparições de dança e de canto de François Chaignaud, tão magnificentes quanto melancólicas.

Resultado de uma profunda pesquisa de quatro anos de Laisné e Chaignaud, ancorada na história, na etnografia, na antropologia, e nas tradições musicais e coreográficas espanholas, e recorrendo a registos orais e de arquivo, as três figuras que François Chaignaud incorpora nos três actos — a Doncella Guerrera, o arcanjo São Miguel, e a cigana Tarara — são personagens eminentes do universo hispânico, com presença mais evidente nos séculos XVI e XVII, algumas vinculadas à cultura sefardita, outras à cultura árabe andaluza, que ao longo dos quatro séculos seguintes vão reaparecendo e sendo reinventadas tanto nas danças populares (em formas como a zarzuela barroca ou o flamenco) como na ópera, ou em manifestações literárias e musicais, a começar pelo Romance Gitano de Federico García Lorca (1898-1936), uma forte influência para esta obra.

No primeiro acto, Chaignaud surge delicadamente em cena como a célebre Doncella Guerrera (aquela que abdicava do destino de matrimónio em prol da vocação militar), e irrompe em movimentos vigorosos reminiscentes da danças populares espanholas da época, com um figurino que nos reporta à cavalaria medieval.

Na segunda aparição, o bailarino incorpora a paradoxal figura erótico-religiosa do arcanjo São Miguel, celebrizado por Lorca no seu Romance Gitano pela sua ambiguidade e pela androgenia. Se, no primeiro acto, Chaignaud dança de pés nus, já enquanto arcanjo surge em andas de madeira — o que evoca não somente a condição de ascensão e espiritualidade do arcanjo, como propositadamente lhe condiciona a estabilidade, induzindo um permanente estado de desequilíbrio nos seus movimentos reminiscentes da jota, outro género tradicional da dança espanhola. Descendo desse estado de graça, e amparado pelos músicos, Chaignaud prossegue a sua dança em pontas de ballet, não sem um desenho coreográfico soturno e pesado, já que São Miguel surge ora altivo, ora contraído.

Por último, no terceiro acto, François incorpora a bela e triste cigana Tarara, e o seu flamenco é condicionado por sapatos de tacões muito altos, que acentuam os movimentos bruscos e o clamor daquela expressão icónica do folclore andaluz.

François Chaignaud incorpora estas três figuras-arquétipo como metamorfoses de um "outro" Orlando em paisagens hispânicas, evocando literalmente o Orlando de Virginia Woolf (1882-1941), personagem que em busca do poema perfeito atravessa séculos de história da literatura inglesa e que, mergulhado em sonos prolongados, se vê acordado noutros territórios geográficos, epocais, e assumindo outro género que não o anterior. A evidência da presença destas figuras-arquétipo enraizadas tanto nas tradições populares como nas mais variadas manifestações mitológicas atesta a intemporalidade das questões de identidade, de género e de alteridade.

O rigor, a perfeição e o detalhe de todos os elementos compositivos dotam esta obra de uma exuberância, de uma voluptuosidade e de uma intensidade intensidade que, num jogo de ambivalência subtil, contrastam com a materialidade frágil e inquieta destas figuras, em permanente movimento entre a luz e a sombra.    

Sugerir correcção