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Megafone

Pessoas-monólogo

Quando estou com uma pessoa-monólogo sinto-me como se estivesse em frente à televisão. Ali estou mudo e quedo enquanto elas providenciam conteúdos durante 24 horas a fio, se for preciso, como um canal televisivo.

Há pouco tempo estive numa festa em que levei com quatro monologantes nas ventas. Não desejo isso a ninguém. Foram quatro KO de conversa seguidos. Ao fim do quarto monólogo estava de rastos. E o pior de todos foi mesmo o último, que me despejou toda a história do singular apelido de família em cima, desde as origens numa remota aldeia espanhola até se espalhar pelos quatro cantos do universo, terminando de forma magistral com a frase: “Desculpa lá, relembra-me o teu nome.”

Estas pessoas-monólogo não precisam de mais do que um recém-conhecido para disparar os seus mísseis de conversa. Encostam-nos às cordas, enchem-nos de pancada verbal, numa sequência infindável de ganchos e uppercuts de palavreado, e não estão disponíveis para receber um único perdigoto em troca. À mínima resposta da nossa parte mostram um ar agoniado, como se estivessem prestes a vomitar no barco para as Berlengas. Quando a festa acabou nem conseguia articular palavras, só balbuciava, porque já me tinha esquecido como se juntavam sílabas. Acho que deviam criar uma linha de apoio à vítima de monólogos.

Quando estou com uma pessoa-monólogo sinto-me como se estivesse em frente à televisão. Ali estou mudo e quedo enquanto elas providenciam conteúdos durante 24 horas a fio, se for preciso, como um canal televisivo. Se eu conseguisse juntar mais de cem monologantes na mesma sala podia dizer que tinha mais de cem canais. Quando estou acompanhado por outra pessoa posso dar-me ao luxo de me evaporar da conversa ou pelo menos de me desligar por momentos da emissão televisiva e recuperar mais tarde o fio narrativo pensando “deixa ver o que está a dar no Zé João.” Mas a solo tudo fica mais perigoso.

Posso ter a sorte de apanhar um monologante interessante, daqueles que entretêm, como certos canais. Ou o azar de apanhar os que são tão entusiasmantes quanto o Canal Parlamento ou as televendas, vulgo “pessoas que não dão nada de jeito”. Quando caímos nas garras de um chato deste calibre todos os expedientes são válidos para lhe escapar. Desde o subtil “Desculpe, mas tenho mesmo de ir fazer cocó”, ao aproveitar de um toque de telemóvel para dizer “Peço desculpa, mas vou ter de atender. É da Telepizza.”

Também já dei por mim em registo monologante. Já atropelei intervenções de outras pessoas sem dó nem piedade, como um rolo-compressor de conversa. Por isso sei que tenho essa semente diabólica dentro de mim, o que me causa alguns arrepios. Não me quero tornar num especialista da escuta inactiva. Se calhar já me converti num daqueles seres que transformam dois minutos que podiam ser interessantes num fardo de palha de meia hora. Mas prefiro acreditar que não. Por isso vou aconselhando aos meus filhos: “Não aceitem monólogos de estranhos.”