Editorial

Era bom que Angela Merkel ficasse até ao fim

Angela Merkel não vai concorrer à liderança do seu partido no congresso de Dezembro. Ficará no Governo se for capaz de resistir às tensões internas da CDU e, principalmente, à turbulência política que, lenta mas paulatinamente, arrasta a Alemanha para a incerteza e para a instabilidade. Já tínhamos percebido desde as últimas eleições legislativas que o seu longo tempo de liderança dos conservadores alemães (18 anos) e o seu prazo de validade como chanceler (já o é há 13 anos) se estavam a esgotar. Esta segunda-feira, depois de mais uma pesada derrota no estado do Hesse, tudo se tornou mais nítido. Merkel está de saída e o tempo que lhe resta no governo do mais poderoso estado da União ameaça ser penoso.  

Sem possibilidade de sair no auge da sua popularidade e do seu poder, Angela Merkel arrisca-se a perder nos próximos meses ou anos (depende da capacidade de sobrevivência da Grande Coligação) a sua aura. O seu futuro já não lhe pertence por inteiro. O mundo já não é o que era. A Alemanha mudou. A Europa que a viu chegar à política, no tempo de Jaques Chirac, António Guterres ou de Tony Blair já não existe. A outrora chefe executiva da União Europeia, a estadista que determinou o rumo da crise do euro e se destacou pela sua posição humanista e aberta na crise dos refugiados, destoa hoje num continente ameaçado pelo nacionalismo, pela extrema-direita e pela dúvida em torno do projecto europeu.

Quando Angela Merkel se retirar, toda uma época se encerra. Seria bom que ela fosse capaz de governar a Alemanha até 2021, como ontem pediu a Comissão Europeia. Com tempo, a sua sucessão na CDU será mais pacífica. E, apesar dos seus erros e da muita arrogância que deixou transparecer na crise do euro, Angela Merkel é hoje uma garantia de estabilidade na Europa. Porque Macron é uma incógnita, o Reino Unido está de saída e a Itália está nas mãos da direita nacionalista, Angie, como é conhecida na Alemanha, continua a ser apesar de tudo um refúgio num continente que parece cada vez mais à deriva. Garantir que ela acaba o seu mandato produziria ao menos um sinal de normalidade entre a incerteza que cresce. E de justiça. Apesar das suas muitas falhas, Angela Merkel é a última grande estadista dessa Europa confiante e previsível da qual teremos saudades.