Crítica

A paz, o pão, a habitação

Raiva é um extraordinário tour de force formalista e cinéfilo, depurando uma tragédia rural até atingir algo de místico e ancestral

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O modo hierático, quase mártir, como Tréfaut filma a queda de uma família
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Existe qualquer coisa de esquizofrénico em Sérgio Tréfaut, espécie de “dr. Jekyll e Sr. Hyde” consoante esteja do lado do documentário (Lisboetas; Alentejo, Alentejo) ou da ficção (Viagem a Portugal; o ensaio Treblinka). É uma curiosa dicotomia que se parece agudizar com cada nova abordagem à ficção do realizador, mas em comum a ambas as vertentes existe uma atenção muito particular aos despossuídos em busca de uma identidade, aos “outros” que procuram um lugar onde pertencer.

Com Raiva, a referência evidente é o neo-realismo do pós-guerra, do cinema ou da literatura – Seara de Vento, de Manuel da Fonseca, é o ponto de partida desta adaptação formalista que rechaça a liberdade formal de um documentário e as limitações humanistas do neo-realismo para se inscrever na linhagem do grande cinema clássico. Esse formalismo seco, depurado, cinzelado que tanto remete para Dreyer como para Straub, para Oliveira ou Bresson, é exactamente a “chave” que extirpa de Raiva todas as armadilhas visíveis do melodrama da desgraça e da humilhação. No modo hierático, quase mártir, como Tréfaut filma a queda da família de António Palma, tudo se transforma numa via sacra de tragédia grega misturada de western alentejano: os espantosos 15 minutos iniciais são um cerco que John Ford não desdenharia, para depois “cortar” para genérico e voltar atrás, ao “princípio” da história, e fazer ferver a panela até a pressão explodir.

Evitando habilmente quer o lacrimejante pegajoso quer o didactismo activista, Tréfaut constrói um filme com o seu quê de mistério medieval actualizado na sua pureza cristalina de Bem contra Mal; rodado com um mínimo de efeitos e cenários e valorizado pelo magistral preto e branco de Acácio de Almeida, parece inscrever-se na linhagem de arte povera de alguns Rossellini ou Pasolini mas também do Silvestre de João César Monteiro. É possível falar da pobreza e da miséria, de ontem como de hoje, sem cair no miserabilista ou no piedoso; basta ter um rosto e uma presença como a de Hugo Bentes (que ninguém diria nunca ter representado) e uma precisão maníaca quanto ao que se quer fazer. Raiva é Sérgio Tréfaut a fazer uma ficção onde um documentário seria impossível, mas com uma mesma batalha – a da dignidade – a travar.