Cancro da mama: um mês de campanhas que asseguram o financiamento para o resto do ano

A grande maioria do financiamento da iMM-Laço, por exemplo, provém deste tipo de iniciativas, garante a representante Lynne Archiband.

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Paulo Pimenta

Comprar um soutien, umas cuecas ou um lenço. Partilhar uma fotografia no Instagram ou comer uma bolacha. São escolhas através das quais, durante Outubro, podemos contribuir, propositadamente ou não, para diferentes organizações ligadas ao cancro da mama. O mês da luta contra o cancro da mama marca não só uma época de consciencialização para uma doença que é diagnosticada a cerca de 6000 mulheres por ano em Portugal, mas também um dos momentos mais importantes para a angariação de fundos.

Com o final de Outubro a aproximar-se, o Culto contactou algumas empresas que lançaram campanhas solidárias para saber quais foram os resultados. A Parfois, por exemplo, criou um lenço com uma imagem de uma borboleta, cujo valor de venda contribuía em parte para diferentes hospitais oncológicos, e incentivou os clientes a publicarem fotografias com o mesmo na cabeça, de forma a lutar contra o estigma. Segundo a marca, os lenços esgotaram nos primeiros 15 dias do mês e foram angariados, entre Portugal e Espanha, 110 mil euros.

A Dama de Copas — que se comprometeu a doar 10% do valor de todos os soutiens desportivos vendidos em Outubro — estima que este ano tenha juntado cinco mil euros. É a quarta campanha da marca de soutiens com a iMM–Laço, sendo que entre 2012 e 2013 angariaram 20 mil euros e na campanha do ano passado (Unidas Pela Cura) chegaram também aos cinco mil euros. Já a Women’Secret, que lançou uma colecção de cuecas cujos lucros reverterão a favor da iMM-Laço, ainda não consegue avançar valores, sendo que a campanha dura até Fevereiro. “Tendo em conta o enorme sucesso das campanhas anteriores, as espectativas estão muito elevadas”, afirma o director de marketing de Portugal do grupo Tendam, Alexandre Mendes.

Também a Isdin indica que apenas conseguirá saber qual o valor angariado "quando a campanha terminar e as farmácias comunicarem as suas vendas". A marca de cuidado de pele comprometeu-se a doar 1 euro ao Fundo iMM-Laço por cada produto vendido da gama Woman Isdin, bem como por cada loção Ureadin Rx Rd. "Podemos já referir que as farmácias valorizaram muitíssimo esta acção e têm cooperado activamente para o seu sucesso", avança a marca por e-mail.

Para algumas organizações, a colaboração com empresas é determinante. Lynne Archiband, representante do Fundo iMM-Laço, garante que as doações anuais que a organização recebe chegam, na grande maioria, como resultado de campanhas desenvolvidas por empresas — mais de 95%, supõe. E provavelmente mais de metade do valor anual de doações acontece em Outubro, estima. Este ano, por exemplo, uma das bolsas de investigação de 25 mil euros atribuídas pela iMM-Laço foi financiada inteiramente pela marca de papel de escritório Pioneer, uma empresa com quem trabalham desde 2005. A Jean Louis-David organizou este ano a oitava edição dos Hair Fashion Weeks — uma em Março para angariar fundos para o iMM- Laço e outra em Setembro, para a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima — e ao longo do tempo juntou mais de 20 mil euros para primeira organização e mais de 30 mil para a segunda.

"É muito pequeno o valor que vem em donativos privados. Em Portugal não há uma tradição tão grande de doações particulares. Há entidades que fazem peditórios, que é uma coisa que nunca fizemos. São operações enormes de pessoal e de logística. Estava sempre fora das nossas possibilidades”, explica Archibald. A Liga Portuguesa Contra o Cancro, por sinal, tem o seu peditório nacional esta semana, entre os dias 31 de Outubro e 4 de Novembro. Contará com a colaboração de milhares de voluntários, que estarão identificados com o colete da instituição e dispersos do Norte a Sul do país, incluindo ilhas, em espaços como superfícies comerciais, igrejas, cemitérios e ruas principais.

Uma relação simbiótica

Para Lynne Archibald, a colaboração com empresas é, muito simplesmente, “uma relação win win”. “Para nós é óptimo: é uma marca que consegue alguma visibilidade, fazendo uma coisa boa”, defende.

É importante manter um nível de exigência quanto à transparência e rigor das campanhas, assegura. “Trabalhamos sempre com as empresas antes. Tem de ser claro o produto e qual o benefício para a entidade. E acho que tem de ser de boa vontade e haver uma comunicação clara e boa. Depois fazer um fecho como deve ser”, enumera, indicando que é assim que a esmagadora maioria das parcerias acontecem. 

"Percebo uma visão mais cínica, porque sei que há entidades que não são assim tão transparentes", atira. Segundo Archibald, os acordos prévios com as empresas estipulam um valor mínimo de doação, assegurando a seriedade dessa mesma acção. "As pessoas podem ter confiança nas nossas campanhas. Nós recebemos mesmo o dinheiro. E os cientistas estão lá no site a mostrar o que estão a fazer.”

O fundo participa na criação da campanha, podendo estar mais ou menos envolvido na produção dos próprios conteúdos. No caso da acção da Dama de Copas, por exemplo, trabalharam em maior proximidade. A campanha coloca no centro da comunicação Ana Cardoso, uma mulher que vive com cancro da mama metastático, que encarna a personagem de uma guerreira amazona.

A comunicação em si também é importante, garante a porta voz da iMM-Laço: "Queremos explicar às pessoas a importância da investigação do cancro da mama, queremos explicar o que é o fundo iMM-Laço. Que visitem o site e as redes sociais. Que percebam que já não há Laço, mas há o fundo iMM-Laço — que partilha muitos dos princípios e visão da Laço, mas que evoluiu conforme o mundo evoluiu."

Em 2015, a organização alterou o foco da sua abordagem, centrando-se inteiramente na investigação e busca de uma cura — e menos na comunicação do rastreio — e associando-se ao Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa. A organização atribui hoje uma ou mais bolsas de investigação de 25 mil euros por ano. Em 2017, por exemplo, financiou três projectos e este ano espera conseguir pelo menos esse mesmo resultado. "Queremos ser uma incubadora de ideias", resume Archibald, mencionando que algumas das grandes bolsas a nível internacional que esses projectos podem eventualmente depois ganhar requerem a apresentação de resultados preliminares.

A taxa de reincidência de "cerca de 30%" em pessoas diagnosticadas com cancro da mama foi um dos principais factores impulsionadores desta viragem, da Laço para iMM-Laço. "Temos estado a focarmo-nos nestes 30% das mulheres, porque quando  [o cancro] volta, infelizmente volta em estadio IV, cancro de mama metastático". Ou seja, já se espalhou para outras partes do corpo. "Por isso ainda temos muitas mulheres a morrer de cancro da mama em Portugal — cerca de 1600 ou 1700 por ano", afirma Archibald. 

"Achávamos que o rastreio e a detecção precoce iam quase eliminar [os casos de morte]. Que íamos ver uma descida brutal na taxa de mortalidade", aponta. "Para nós, na Laço, isso foi uma decepção total. Portanto começámos-nos a virar para a ciência. A voltar para o laboratório, a fazer perguntas."

"Acho que ainda há muitas entidades que põem a responsabilidade sobre a mulher. Não é justo este foco na detecção precoce, porque de facto não resolve tudo", defende. "Há pessoas que não gostam que eu fale sobre por que é que ainda temos este número de mulheres a morrer e por que é que ninguém está a fazer perguntas sobre a eficácia do rastreio. Muitas pessoas não querem ouvir isso. E não estão confortáveis com o facto de que não temos uma cura e não temos uma causa."