Um ano depois, o que é feito do sr. Francisco?

A fotografia de Manuel Francisco Ribeiro, que foi capa do PÚBLICO há cerca de um ano, tornou-se um símbolo daqueles que foram atingidos pelas chamas. Um ano depois, como está este homem que sobreviveu para contar a história e como está a aldeia que viu o fogo chegar sem aviso?

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Há um ano, esta imagem de Manuel Francisco correu um país devastado pelas chamas ADRIANO MIRANDA

Antes de se fazer ao caminho, Manuel Francisco Ribeiro põe a boina na cabeça e pega no cajado. Anda sempre com eles. É hora de almoço e o prato de carne em casa do sobrinho espera-o. Caminha lentamente, dói-lhe um joelho e anda a lacrimejar dos olhos. Não passa ninguém na estrada, nem carros, nem pessoas. No lugar do Covelo, só se ouvem os pássaros. No meio do silêncio e dos passos lentos de Manuel Francisco, parece que a memória da tragédia se dilui no sossego da manhã. Mas, um ano depois, os pinheiros negros ainda rompem a paisagem já pontuada de verde.

“Agora, ninguém fala disso, não vale de nada falar disso. Vale de quê falar em misérias?”, pergunta Manuel Francisco, 83 anos, quando o assunto é o incêndio, como nunca viu outro assim, que chegou àquela aldeia da freguesia de Ventosa, concelho de Vouzela, a 16 de Outubro do ano passado.

No dia seguinte, quando fazia anos, a fotografia de Manuel Francisco foi capa do PÚBLICO. Nela, via-se uma casa ardida e, à frente, um homem parado, de cajado na mão, boina na cabeça, camisola larga num corpo magro, as rugas a marcarem-lhe o tempo no rosto. Mesmo que a casa ardida não fosse a de Manuel Francisco, naquela fotografia estavam muitas das dores que o país enfrentava: a cor dos fogos que o assolaram, a destruição que provocaram, o desamparo dos mais velhos no meio da tragédia, a desertificação, o Portugal rural fustigado pelas chamas. A fotografia tocou as pessoas, tornou-se um símbolo.

À aldeia, foram jornalistas conhecer Manuel Francisco, que muitos locais tratam simplesmente por Sr. Francisco e a quem arderam dois anexos – a casa ficou chamuscada, mas inteira. Chegaram donativos, pessoas que queriam ajudar. Manuel Francisco até esteve com o presidente do Futebol Clube do Porto, Pinto da Costa, que lhe deu um frigorífico e uma televisão. Recebeu exemplares do jornal PÚBLICO, um livro escrito pela jornalista do PÚBLICO, Patrícia Carvalho, com a emblemática imagem na capa. A fotografia, de Adriano Miranda, recebeu o prémio Gazeta.

PÚBLICO - Manuel Francisco Ribeiro sentado no quintal de casa
Manuel Francisco Ribeiro sentado no quintal de casa Adriano Miranda
PÚBLICO - Manuel Francisco Ribeiro sobe as escadas de casa, no lugar do Covelo, freguesia da Ventosa, Vouzela
Manuel Francisco Ribeiro sobe as escadas de casa, no lugar do Covelo, freguesia da Ventosa, Vouzela Adriano Miranda
PÚBLICO - A boina e o cajado de Manuel Francisco Ribeiro
A boina e o cajado de Manuel Francisco Ribeiro Adriano Miranda
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PÚBLICO - Manuel Francisco Ribeiro a caminho de casa do sobrinho, no lugar do Covelo, freguesia da Ventosa, Vouzela
Manuel Francisco Ribeiro a caminho de casa do sobrinho, no lugar do Covelo, freguesia da Ventosa, Vouzela Adriano Miranda
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PÚBLICO - A casa de Manuel Francisco ficou chamuscada pelo fogo, mas não ardeu
A casa de Manuel Francisco ficou chamuscada pelo fogo, mas não ardeu Adriano Miranda
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PÚBLICO - Aos 83 anos, Manuel Francisco não se lembra de um incêndio como o de 16 de Outubro do ano passado
Aos 83 anos, Manuel Francisco não se lembra de um incêndio como o de 16 de Outubro do ano passado Adriano Miranda
PÚBLICO - A aldeia ainda está a recuperar dos estragos provocados pelo incêndio, a reconstruir o que ardeu
A aldeia ainda está a recuperar dos estragos provocados pelo incêndio, a reconstruir o que ardeu Adriano Miranda
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Ao recordar essa agitação, Manuel Francisco limita-se a encolher os ombros. Parece aceitar o que lhe aconteceu, do incêndio às atenções, como fatalidades. “Há que conformar e enfrentar a vida como o costume. O que passou, passou”, diz.

Nem lamentos, nem inquietações pelo susto que apanhou. “Medo? De que valia a pena ter medo?”, pergunta, quando se lembra daquela noite em que se levantou e só viu fogo por todo o lado. “Acordei, já passava da meia-noite, fui à janela e era só lume a toda a volta. Abri a porta da cozinha e tive de fechá-la logo, não consegui sair. Era um calor que queimava. Andei até de manhã a espreitar pela janela. Ia bebendo aqui cachaça da garrafa, para andar meio atordoado”, conta, antes de se fazer ao caminho até casa do sobrinho, onde almoça e janta todos os dias.

Naquela noite, a família de Manuel Francisco não conseguia chegar a casa do tio. De fora, a mulher do sobrinho perguntava-lhe aos gritos se estava bem. Lá de dentro, Manuel Francisco, não sem o sentido de humor que o caracteriza, respondia-lhe: “Até ver, estou!”

O sobrinho, José Ribeiro de 51 anos, é motorista e, na noite do fogo, estava a trabalhar. Não foi fácil ter a mulher e o filho na aldeia e não conseguir chegar, porque os acessos estavam cortados: “Só consegui chegar cá às oito da manhã”, lembra. A casa onde mora salvou-se das chamas: “Teve a sorte de não ir, as desabitadas foram todas. Agora, com o tempo, as pessoas têm de levantar a cabeça. Já recuperaram algumas coisas, outras não. Não vai tudo de repente, a ajuda vai chegando. Mas temos de seguir, ultrapassar isto. Não é fácil”, reconhece, à porta de casa, quando recebe o tio para almoçar.

Telhas novas

Um ano depois, no lugar do Covelo, ainda há vestígios da destruição que varreu o lugar naquela noite: arderam anexos, barracões onde os habitantes guardavam material agrícola, onde estavam os animais, palheiros, ou até casas devolutas que Manuel Francisco teme que caiam no esquecimento. O passado e o futuro misturam-se: já há algum verde a pontuar a paisagem, mas ele surge recortado em janelas, ainda sem vidro, de casas chamuscadas de preto. Vê-se a recuperação em andamento: se há telhas caídas no chão, também há outras de um laranja novo e fresco, postas há pouco nos telhados.

Manuel Francisco não abre as portas de casa, é viúvo, vive sozinho e diz que não tem as divisões em ordem para “receber visitas”. Mas gosta de se sentar no quintal a conversar. “Isto ardeu só por fora, mas ainda tem alguns vidros partidos, e arderam-me dois anexos. Quando o lume veio, já não tinha gado. Agora, estou à espera que me venham compor isto. Prometeram-me na câmara [de Vouzela] e os empreiteiros, que aqui estiveram a tirar medidas, disseram-me que até ao Natal isto ia, que ia ser uma prenda de Natal”, conta, bem-disposto.

O tempo vai fazendo o seu papel na recuperação do lugar, no apaziguamento da memória. Mas nem sempre é fácil. Morreu um homem no Covelo, durante o incêndio – no concelho de Vouzela, o fogo tirou a vida a oito pessoas, cinco das quais na freguesia de Ventosa. Fátima Figueiral, a presidente da junta, onde vivem 800 pessoas, diz que o concelho foi todo atingido pelos incêndios e que aquela freguesia foi particularmente “fustigada”.

“Os principais danos estão relacionados com as habitações, primeira e segunda habitação, e depois muitos armazéns agrícolas onde estavam os animais. Arderam estábulos, as pessoas ficaram sem os alimentos para os animais. Tem sido uma preocupação, do município e da junta, entregar telha nova, materiais de construção, animais, através das contas solidárias, da câmara e da junta. Mas, no Covelo, os casos não são de primeiras habitações, são mais de anexos de habitação que arderam”, diz, lembrando que vieram apoios de muitas partes. “A junta entregou cabazes com alimentos, roupa e produtos de higiene a toda a gente da freguesia. E recebemos muitas coisas. Às vezes, passava de carro e via carrinhas em nome individual a distribuir coisas”, conta.

No “bom caminho”

Ainda há, porém, trabalho pela frente, mas estão no “bom caminho”, garante Fátima Figueiral: “Ainda temos uma estrada cortada, ainda estamos a repor [os materiais], a apoiar a reconstrução de canastros para armazenar o milho. As pessoas estão a reerguer-se, a tentar que tudo volte à normalidade. Mas há, por exemplo, questões relacionadas até com saúde mental [para resolver]. As pessoas não tiveram tempo de gerir o que aconteceu. Foi o incêndio primeiro, foi gerir a distribuição de bens e de apoios depois...”, alerta.

Manuel Francisco não se queixa de nada. Um ano depois, garante que continua com uma vida “sossegada e livre”, longe da “balbúrdia” de Lisboa, de que não gosta. Para além disso, agora está em casa, depois de ter sido emigrante na Alemanha. “Há 48 anos que estou cá. Agora já não trabalho a terra, não faço nada. Estou velho, escavacado e cansado. Já nem para comer presto, não tenho apetite.” Não o diz com tristeza, di-lo até com bom humor.

Conta que os dias passam com pacatez, que o incêndio está lá atrás. Ouve as notícias num rádio, vê televisão em casa do sobrinho, e ainda mantém empacotados uma televisão e um frigorífico que lhe deram, nem os abriu. “Não sei de que cor é o frigorífico e a televisão que vejo em casa do meu sobrinho chega-me, assim poupo luz”, brinca.

Afinal, um ano depois, o que é que ainda falta na aldeia? “O que fazia falta cá? Fazia falta gente boa para conversar ou passar um bocado. Ontem fui àquela povoação além a ver se encontrava um amigalhote. Mas não estava.” Se é de solidão que Manuel Francisco fala, não se sabe. À pergunta sobre se se sente sozinho, limita-se a encolher os ombros. Manuel Francisco aceita a vida e, ali sentado no quintal de casa a apanhar o sol de Outono, não se queixa muito de nada.