Opinião

“Haddad é Lula” e Bolsonaro ganhou: as redes sociais nas eleições brasileiras

As redes sociais que ajudaram a abrir o caminho a Bolsonaro podem fazê-lo cair do poder, se este não corresponder às expectativas da população que o elegeu, e são muitas nesta altura.

1. Desde os primórdios da política democrática moderna, grosso modo nascida em finais do século XVIII, sempre ocorreram alterações profundas ligadas à introdução, ou massificação, de tecnologias de comunicação que alteraram as formas de sociabilidade. Provavelmente, a Revolução Francesa de 1789 só foi possível pela crescente penetração da imprensa escrita em partes da sociedade onde habitualmente não chegavam ideias disruptoras da ordem estabelecida. O panfleto de Emmanuel Joseph Sieye’s Quest-ce que le Tiers-État? (“O que é o Terceiro Estado”, 1789) foi um inequívoco agente de revolta contra a ordem estabelecida. Pode ler-se no texto inicial: “O plano deste escrito é bastante simples. Temos questões a colocar. 1.º O que é o Terceiro Estado? Tudo. 2.º O que tem sido até agora na ordem política? Nada. O que exige? Ser alguma coisa. Como já notado, a entrada em cena do ‘Terceiro Estado’ — o povo —, até aí praticamente excluído da política aristocrática do ‘Antigo Regime’, não teria sido possível sem a ‘revolução impressa’” (ver Revolution in Print: The Press in France, 1775-1800, University of California Press, 1989). Mas o passado mostra também algo a reter para o mundo de hoje: os contestatários da ordem social e política estabelecida souberam, normalmente, tirar maior vantagem da transformação tecnológica do que aqueles que defendem a ordem existente.

2. O cinema, a rádio e televisão, introduzidos gradualmente ao longo da primeira metade século XX, foram media revolucionários na época. Constituem um outro exemplo de um processo tecnológico-social-político que levou a grandes transformações. Essa nova tecnologia foi geralmente usada como forma de difundir ideologias e ideias políticas de maneira muito mais rápida e eficaz do que a usualmente feita até essa altura. Trouxe vantagens importantes na luta política e social para os que primeiro a dominaram e usaram amplamente. Na época — sobretudo nos anos 1920 e 1930 —, os novos media de massas foram habilmente utilizados pelos contestatários do capitalismo liberal e da democracia. No caso do fascismo italiano isso é muito bem retratado num livro de Simonetta Falasca-Zamponi (ver Fascist Spectacle. The Aesthetics of Power in Mussolini’s Italy, University of California Press, 2000). Mas desde essa época que não ocorriam alterações tecnológicas tão profundas, com um impacto tão disruptor na forma de fazer política, como aquelas que trouxe a Internet no final do século XX, e, neste início de século XXI, as redes sociais (Facebook, Twitter, Telegram, WhatsApp, etc.). Importa tentar percebê-las.

3. Todas as grandes transformações tecnológicas trazem sempre modificações de poder na sociedade, de maior ou menor vulto. Alguns grupos e sectores da sociedade emergem como vitoriosos, outros saem derrotados. Em todas as transformações tecnológicas anteriores, os media tradicionais — imprensa escrita, rádio e televisão —, emergiram e como um dos grandes vencedores. Ao longo do tempo consolidaram a sua posição como um poder que, não sendo jurídico-constitucional como os tradicionais poderes de soberania do Estado (o legislativo, o executivo e o judicial), se tornou um poder sociológico-político crucial da vida democrática moderna. Passaram a actuar como uma espécie de guardião dos cidadãos contra os abusos dos detentores do poder político soberano. É, em grande parte, essa ideia que está associado ao termo “quarto poder” (em língua inglesa fourth estate), difundido pelo parlamentarismo britânico do século XIX. Realça, também, a capacidade — e o poder —, dos meios de comunicação social (media) influenciarem a opinião pública e as decisões políticas numa sociedade democrática, ou, pelo menos, onde existe alguma liberdade de imprensa. Mas a capacidade de estar no centro do espaço público de debate e de influenciar a opinião pública e a decisão política — o cerne do quarto poder — entrou num processo declínio devido à transformação dos modos de interacção social e humana originados pela revolução tecnológica em curso.

4. Hoje estamos a viver uma época que, com maior ou menor rigor, se pode qualificar como a era do “quinto poder”. A designação foi usada no filme The Fifth Estate (2013), de Bill Condon, sobre o caso WikiLeaks (divulgação de milhares de documentos confidenciais relacionados com a política externa dos EUA e outros assuntos de política internacional, feita por Julian Assange e Daniel Domscheit-Berg). Esse episódio evidenciava já o impacto político disruptor que podem ter a Internet e as redes sociais. Todavia, nessa altura, prevalecia nos media uma ideia benigna das redes sociais. Se isso ocorria por um fascínio ingénuo pela tecnologia, ou porque estas pareciam ser uma ferramenta dócil ao serviço das boas causas do “partido dos media” (ver “Brice Couturier: le Parti des me´dias et l'intelligentsia me´prisent la re´alite´” in Le Figaro, 19/08/2016), é uma questão em aberto. Um bom exemplo dessa visão idílica que existia ainda há três anos, encontra-se no êxtase em que os media norte-americanos ficaram com a preocupação ambiental de Barack Obama, expressa numa selfie colocada no Facebook (ver “President Obama joins Facebook, addresses climate change in first post”, in CNN 9/11/2015). Mas a utopia da simbiose (quase) perfeita, entre tecnologia e progressismo, transformou-se radicalmente a partir de 2016 — o ano do Brexit e da chegada de Donald Trump ao poder —, passando a dar lugar a uma visão diametralmente oposta, frequentemente desequilibrada e excessiva (ver “As redes sociais, um novo inimigo da democracia?” in Público, 21/03/2018).

5. Parafraseando a conhecida distopia dos anos 1930 de Aldous Huxley, estamos a entrar num “admirável mundo novo” (Brave New World). A tecnologia pode não realizar a profecia do progresso humano pela razão e pela ciência, feita pelo Iluminismo no século XVIII e incutida na mente ocidental. Jair Bolsonaro tornou-se no primeiro presidente do Brasil eleito fundamentalmente pelo quinto poder, as redes sociais. Os media tradicionais desempenharam um papel reduzido na sua campanha — a qual, deliberadamente, procurou contorná-los (e atacá-los). O mesmo se pode dizer das clássicas acções de mobilização dos eleitores típicas da política do século XX (comícios, sessões de esclarecimento, arruadas, etc.), as quais não tiveram grande significado. Tudo indica que a sua eleição não seria viável sem a enorme transformação tecnológica e das formas de interacção humana subjacentes às redes sociais. Muitos não imaginavam possível que, em vez de concretizarem a profecia progressista-iluminista, a Internet e as redes sociais permitissem colocar no poder um populista-nacionalista com tendências autoritárias e iliberais (nos costumes). Mas a forma de fazer campanha usada por Jair Bolsonaro, de conexão directa com os eleitores e de criar a uma onda emocional nas redes sociais a seu favor, é, tudo indica, uma tendência de futuro. Não é uma moda efémera, mas algo que está para ficar, sobretudo à medida que os avanços da inteligência artificial forem maiores e alastrarem às diversas esferas da vida humana (ver Lisa-Maria Neudert, “Future elections may be swayed by intelligent, weaponized chatbots” in MIT, 22/08/2018 Technology Review).

6. A fusão das redes sociais com o big data (grandes conjuntos de dados) e técnicas de marketing digital com processos automáticos que usam inteligência artificial, fornece resultados cada vez mais eficazes nos processos políticos, ultrapassando os media e o controlo editorial da informação (ver “Estudo aponta para automação no envio de mensagens e orquestração entre grupos de WhatsApp pró-Bolsonaro” in Folha de São Paulo, 26/10/2018). O uso da emoção e do contacto directo e personalizado combinado com a mensagem “certa” para o tipo de público-alvo faz toda a diferença (para uns, a ênfase é colocada no medo e na insegurança, para outros na corrupção, para outros na deterioração da económica e do bem-estar, para outros, ainda, nos valores e nos costumes). As campanhas políticas de Jair Bolsonaro (Brasil), de Donald Trump (EUA), ou dos partidários do Brexit (Reino Unido) são casos recentes e inequívocos de sucesso dessa estratégia comunicacional, recorrendo a informação verdadeira, parcial e/ou descontextualizada, ou sem qualquer base factual (fake news). Aqui importa deixar uma reflexão. Este é certamente um problema sério para as democracias, mas não se resolve transformando as redes sociais em máquinas de censura, sob pena de a protecção das democracias contra informações falsas as transformar em estados policiais, destruindo a liberdade. A China, com o mais sofisticado sistema de vigilância na rede, certamente não tem problemas com fake news.

7. O sistema político brasileiro, tal como emergiu após a instauração da democracia a partir de 1985, produziu o pior resultado possível nesta eleição presidencial de 2018. Tornou um processo político que deveria ser de criação de alternativas sérias de bom governo, incutindo esperança e confiança no futuro, numa luta política quase fratricida e completamente maniqueísta (ver “Eleições 2018: ‘Meu irmão ameaçou me proibir de ver minhas sobrinhas’ — o pleito que dividiu famílias” in BBC Brasil). Toda esta construção política alimentada por ambos os lados, embora de forma diferente, visou impedir o pensamento crítico e a reflexão dos eleitores, esvaziando as opções moderadas ao centro. Apostando numa estratégia de sobrevivência política o PT-Partido dos Trabalhadores encerrou-se no seu núcleo duro mais à esquerda e procurou disputar a segunda volta com o candidato mais à direita. Assim poderia fazer esquecer os seus anos desastrosos de corrupção no poder. A disputa eleitoral já não seria um julgamento dos seus 14 anos de governação, como seria normal em qualquer democracia estável — o PT foi o partido que mais tempo esteve no poder em democracia, em mais de 40% desse período. Seria transformada num muito mais conveniente combate entre o democrata Fernando Haddad e o fascista Jair Bolsonaro. O objectivo dessa estratégia maniqueísta foi pressionar os eleitores do centro-esquerda a votarem Haddad para não ficarem com o opróbrio de serem “fascistas” e “excomungados" do campo democrático. Quanto ao PSL-Partido Social Liberal e Jair Bolsonaro, também precisavam desesperadamente do PT e de Haddad para terem sucesso. Só assim um obscuro deputado federal, quase desconhecido fora do Rio de Janeiro, com um discurso populista e revisionista da ditadura — mesmo usando meias-verdades e fake news na sua propaganda pelas redes sociais — podia convencer os eleitores a votarem em massa nele. Nada melhor que o espectro do regresso do PT ao poder, da libertação dos políticos detidos por corrupção e da transformação do Brasil numa caótica Venezuela. Assim, numa imagem invertida, mas com similar propósito de radicalização maniqueísta, Jair Bolsonaro surge como o salvador da pátria e defensor do bem, contra Fernando Haddad, o “vermelho” do corrupto PT que destrói o Brasil. Objectivo dessa estratégia: pressionar o eleitorado, incluindo a generalidade do centro político, a votar Bolsonaro, ou então são desprezíveis “vermelhos”, traidores ou corruptos.

8. No seu melhor, Luiz Lula da Silva, Dilma Rousseff e o PT, quando conquistaram a presidência do Brasil, sempre deram sinais de abertura ao centro ou centro-esquerda, com vice-presidentes dessa área. Por isso, se o PT estivesse seriamente empenhado em ganhar a confiança dos eleitores ao centro, não tinha escolhido para a sua candidatura uma vice-presidente (ainda) mais à esquerda, do Partido Comunista (Manuela d’Ávila). Mais: o slogan da primeira volta do seu próprio partido, “Haddad é Lula” (ver Lula.com e Partido dos Trabalhadores “Assista: Haddad é Lula!”), foi fatal para as possibilidades de vitória de Haddad na segunda volta, mesmo sendo este da área mais moderada do PT. (Dificilmente os seus detractores arranjariam um slogan politicamente mais “assassino”, para afastar o eleitorado moderado de Haddad). Quanto a Jair Bolsonaro, a escolha do general na reserva Hamilton Mourão não foi um passo de abertura ao centro político, nem um sinal de compromisso com as regras democráticas, só reforçou a desconfiança face ao seu cariz autoritário e intenções de militarização da sociedade. Com candidatos assim — um joga dentro das regras democráticas, mas o partido está associado aos piores males da democracia, como desgoverno económico, insegurança profunda e corrupção generalizada (Haddad), afastando o centro; o outro pretende resolver tais males com medidas autoritárias e potenciais atropelos às regras democráticas e direitos humanos (Bolsonaro) —, o problema maior não passa, seguramente, pelas redes sociais. Com Bolsonaro, os brasileiros podem estar a curar um mal com outro mal ainda maior. Veremos se é assim. Por último, uma nota de esperança. As redes sociais que ajudaram a abrir o caminho a Bolsonaro podem fazê-lo cair do poder, se este não corresponder às expectativas da população que o elegeu, e que são muitas nesta altura. Mas, para isso, são precisas alternativas democráticas e não são as redes sociais que as vão criar, nem que as vão obstruir. O sistema democrático brasileiro precisa de uma transformação profunda, necessita de partidos e de políticos com cultura democrática enraizada, à esquerda e à direita, mas credíveis na boa governação e serviço da causa pública. A tragédia do Brasil foi a sua ausência nesta eleição, não o WhatsApp.

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