Análise

O videoárbitro nesta jornada da I Liga

A mais recente jornada da I Liga portuguesa trouxe uma vez mais para a discussão as questões em torno do videoárbitro (VAR). É um facto que nas competições em que este sistema ainda não está implementado, sempre que há um caso de jogo, o mundo futebolístico já questiona o porquê de não existir. No caso das competições nacionais como a Taça da Liga, a Taça de Portugal ou até mesmo a II Liga, já todos percebemos que os obstáculos prendem-se com os custos financeiros que este sistema acarreta, tal como as condições para montar e operar o mesmo em alguns desses estádios. Já na Champions claramente que este não é o problema. Foi antes uma questão de luta de egos FIFA vs UEFA mas que, num futuro próximo, também será ultrapassada.

Mas nas competições em que existe VAR, embora ninguém já questione a sua funcionalidade, utilidade e importância, discute-se a forma como os árbitros que estão nessas funções, interpretam os lances, como aplicam e usam o protocolo e também, as limitações que este mesmo protocolo impõe na sua utilização. Vamos, a título de exemplo, pegar num caso de jogo para ilustrar o que estava a dizer.

No jogo entre FC Porto e Feirense, o lance ocorrido aos 22 minutos em que Felipe introduziu a bola na baliza adversária e em que o assistente invalidou o golo por posição de fora-de-jogo, houve posteriormente uma intervenção do VAR no sentido de validar o golo. O árbitro foi confirmar no monitor instalado no estádio e através das imagens a legalidade do lance, dando como má a decisão do assistente e considerando como legal a posição do jogador portista.

Ora, a questão principal neste caso não é se Felipe está ou não em posição irregular, sendo que na minha opinião, numa primeira análise sem linha virtual e depois com a linha virtual colocada na transmissão, verifica-se que estava mesmo adiantado. A questão base é que o protocolo diz, claramente, que o VAR só deve intervir em situações em que a decisão inicial da equipa de arbitragem, seja um erro claro e óbvio.

Pelo tempo que demorou a intervir, pelo tempo que o próprio árbitro demorou a ver o lance no monitor é evidente que, no limite, era um caso de dúvida, ou seja, não era um daqueles erros que todos viam “a olho nu”. Então o VAR nunca deveria ter intervindo e o próprio árbitro com todas as dúvidas que a imagem lhe pudesse dar, deveria ter mantido a decisão inicial. Mais, os foras-de-jogo em que o jogador toma parte activa no jogo são factuais, ou está ou não está, como tal, por norma, os VAR dizem apenas se sim ou não, e nunca um árbitro vai consultar o monitor, como foram os casos dos golos em fora-de-jogo ocorridos no jogo aos minutos, 9, 54 e 60.

Se, neste caso específico, o árbitro foi ao monitor é porque a situação não era factual, é porque o VAR o disse e transmitiu ao árbitro como duvidoso. Tudo o que não pode acontecer, ou seja, tudo o que contraria a essência do protocolo.

Contudo, não se pense que esta situação por si só mancha ou belisca o videoárbitro. É um facto que a maior parte das pessoas só está atenta ao que acontece nos estádios nos jogos que envolvem os ditos grandes, mas o VAR está nos nove jogos da jornada, e este fim-de-semana tivemos muitas e boas intervenções, que não só corrigiram erros graves como, dessa forma, deram, ou melhor, trouxeram mais verdade desportiva a cada uma dessas partidas e, consequentemente, ao campeonato, à distribuição de pontos e à classificação. Vejamos de forma resumida alguns desses casos que ilustram bem o que acabei de dizer.

No Tondela-V. Setúbal ao minuto 90+1 pediu-se penálti por mão na bola de José Semedo. O VAR verificou o lance e nada mandou assinalar. Na ocasião a equipa sadina estava a ganhar por 2-1, um eventual penálti e a sua concretização poderiam ter-se traduzido em outro resultado e distribuição de pontos.

No Moreirense-Marítimo, ao minuto 30, foi anulado um golo ao clube madeirense por fora-de-jogo no início do lance. Fez toda a diferença no jogo, pois no final a vitória acabou por pertencer à equipa da casa.

No Rio Ave-Desp. Chaves, ao minuto 73, também foi anulado um golo à equipa vila-condense por fora-de-jogo de Fábio Coentrão. Este lance não teve relevância na distribuição dos pontos, pois o Rio Ave acabou na mesma por vencer o jogo.

No Nacional-Portimonense, ao minuto 21, também houve um golo anulado por fora-de-jogo à equipa do Nacional. Aqui, esta decisão foi importante e decisiva, uma vez que os três pontos foram para os algarvios.

Concluindo, se há coisas a afinar, aprender e melhorar neste processo de videoarbitragem, há já, em cada jornada, inúmeros lances que são corrigidos de forma assertiva por esta tecnologia, que veio para ficar e ajudar a termos um futebol melhor e mais próximo da verdade que acontece dentro das quatro linhas.

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