O Teatro Praga celebra o falhanço do teatro português

Em Worst of, de 1 a 18 de Novembro no Nacional, o teatro clássico português é objecto de shaming e de crítica impiedosa. Só que o mau, segundo os Praga, é uma forma de abolir hierarquias e reivindicar liberdade.

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filipe ferreira

Coisas que se podiam queimar: As memórias, a nostalgia, todo o sentimento de amor, a paternidade, a descendência, a linhagem e tantas outras coisas. É mais ou menos isto que passa pela cabeça e pela voz de Rogério Samora quando, atrás de si, termina a apresentação de um excerto de Frei Luís de Sousa, em que Manuel de Sousa professa a sua resistência à tirania “perdendo o amor a coisas tão vis e precárias” quanto os seus haveres. Em consequência, ateia fogo à sua casa e prefere vê-la arder a dar abrigo a governadores castelhanos. Depois, Manuel, Madalena, Maria e o romeiro põem-se em fuga. A cena termina e é então que Rogério a lamenta, sem poder fugir a este clássico do teatro português, escrito por Almeida Garrett em 1843 e aqui interpretado pela trupe habitual do Teatro Praga com todos os excessos dramáticos a que tem direito. Samora é um actor vergado por tudo aquilo que desejava ver reduzido a cinzas – a memória, a nostalgia, a descendência, a linhagem, etc., coisas que o fazem velho e lhe secam a pele. “Isto devia era acabar tudo”, desabafa. “O pior é que fica.”

E é do pior que se ocupa a nova criação do Teatro Praga. Worst of, em cena no Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa, de 1 a 18 de Novembro, seguindo sempre este pingue-pongue entre a reanimação provisória de clássicos do teatro português – de Gil Vicente e Almeida Garrett a nomes menos populares como Correia Garção ou Gomes de Amorim –, protagonizada pelo núcleo duro dos Praga, e o comentário oferecido por actores conhecidos do grande público (Rogério Samora, São José Correia e Márcia Breia), numa crítica-queixa constante dos vícios e das fraquezas do teatro nascido em Portugal. Depois de um segundo mergulho que vai mais fundo no registo dramático e trágico de Frei Luís de Sousa – “’Essa filha é filha do crime e do pecado!’ Não sou; diz, meu pai, não sou”, roga uma desfalecida Maria a Manuel –, feito o zoom out da cena  há-de comentar-se o tom artificial e contagiante que impera nos palcos, e há-de atribuir-se as culpas à inquisição, à censura, à ditadura, à condição periférica do país e ao peso da tradição.

As cenas seleccionadas deste Worst of, uma compilação que vira a lógica da antologia de pernas para o ar – preterindo a ideia estabelecida de decantação positiva e de exaltação – obedecem a vários critérios. “Desde coisas com que não conseguíamos relacionar-nos, textos anacrónicos ou que não eram representativos de um determinado contexto social ou cultural do país”, diz André e. Teodósio, “mas também a crítica que existia e tem vindo a existir contra o teatro português, incluindo o Eça de Queirós, dizendo que o teatro português não presta. E queríamos ainda atacar os vultos maiores, entre coisas de que não gostávamos, que queríamos deitar abaixo ou que falhavam na sua forma.”

Só que este exercício de atirar tomates ao cânone não passa por qualquer tentativa de superiorização do Teatro Praga em relação aos textos seleccionados. Até porque um dos textos do colectivo acaba por engrossar a sequência de clássicos, obrigando a que a crítica desabrida de Rogério Samora e companhia também recaia sobre a própria companhia. “Era preciso que nos incluíssemos para podermos apontar o dedo”, defende Pedro Penim. A lógica, acrescenta José Maria Vieira Mendes, é a de assumir que tudo é mau e, a partir daí, abolir hierarquias. “Se tudo é mau, nós também somos”, argumenta. “Ninguém pode escapar. E a certa altura o mau deixa de ser critério e torna-se apenas numa coisa que se diz sobre algo. Deixa de ser um problema.”

É esse o ponto a que querem chegar. A partir desse momento, da implosão do “mau”, descobre-se a liberdade. No mau generalizado, já não há nada a perder nem há insulto possível.

Começar a falhar

O dispositivo de Worst of é simples: enquadrados por um diorama, Pedro Penim, Cláudia Jardim ou Diogo Bento (actores em quase todas as criações do Teatro Praga dos últimos anos) assumem os textos extraídos do cânone do teatro português e oferecem-nos uma interpretação que, com frequência, os carrega de hilaridade – por contraste com a seríssima pena da escrita original. Esse gesto, fatalmente, destapa em vários casos a enorme distância entre o tempo histórico da escrita original e o agora, sublinhando o anacronismo de alguns dos textos. O próprio cenário junta dois ou três dedos a empurrar nessa direcção. Se o diorama está ao fundo do palco, mais perto do público encontram-se os actores que soltam a língua na crítica ao teatro português – “eles fazem-nos shaming e nós somos uma espécie de power point que eles vão apresentando com exemplos”, descreve Penim –, instalados numa sala “levemente inspirada num espaço de museu”. “E depois o público vê aqueles actores que estão a ver outro espectáculo”, acrescenta Vieira Mendes. Uma pequena mise en abyme, cortesia dos Praga.

A ideia de Worst of é antiga. Depois de apresentar Cinco Estrelas, em 2004, no Teatro Nacional, o Teatro Praga foi desafiado pelo então director do D. Maria II, António Lagarto, a pensar um espectáculo para a sala principal. “E nós imediatamente decidimos que queríamos fazer o pior do teatro português, ainda sem sabermos muito bem o que isso poderia ser”, lembra André e. Teodósio. Worst of – já com este título – chegou a estar escalado para a programação de 2006, mas a entrada de Carlos Fragateiro para o lugar de Lagarto ditou o cancelamento. “Ele achou que era impossível que aquela companhia que ninguém conhecia e com um trabalho marginal fosse ocupar a sala grande”, contam.

Até que Tiago Rodrigues convidou os Praga a pensar na reescrita de um clássico e eles se propuseram antes a, finalmente, dar vida a este compêndio de textos de um teatro que, “apesar de ter figuras maiores, como Gil Vicente ou Almeida Garrett”, refere Pedro Penim, não consegue para “nenhuma delas projecção internacional ou mesmo nacional suficiente para ser um marco – como acontece com Shakespeare em Inglaterra, com Molière em França ou com os autores do século de ouro em Espanha.” “Não lidamos com um reportório português com tanto peso, como acontece nesses países. A ideia foi celebrar essa falta e como essa falta permite sermos criadores mais livres por esse peso não estar sempre a influenciar a maneira como criamos ou pensamos no teatro.”

Essa liberdade, acreditam, é inaugurada, desde logo, pela “peça fundadora do teatro português”, Monólogo do Vaqueiro, de Gil Vicente. Quando esse texto fundador é escrito em castelhano, quando o teatro português falha logo desde o primeiro momento, então estão reunidas as condições para tudo possa correr melhor a partir daí. Ou pior.