“Oh não! Outro português”

Portugal já recuperou a sua credibilidade junto dos parceiros europeus e da comunidade internacional? António Vitorino acha que sim. Mas lembra também que o país é valorizado lá fora mais do que, às vezes, nós próprios admitimos.

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"Os ingleses sempre tiveram uma enorme influência na Europa. A questão é saber por que é que nunca a quiseram assumir" Rui Gaudêncio

O novo director-geral da OIM retrai-se mais a falar da Europa do que antes de iniciar as suas novas funções. Cada coisa tem o seu tempo. A sua voz era das mais ouvidas e respeitadas em Portugal e em Bruxelas. Fechou agora esse capítulo, para abrir outro cuja sede é em Genebra. Mesmo assim dá a sua opinião sobre as questões mais quentes da agenda europeia.

Preocupa-se com a vaga de partidos populistas e nacionalistas que varrem a grande maioria das democracias europeias, mas diz que a bola está nos pés dos pró-europeus e dos defensores dos valores da Europa, que têm de provar que é possível uma “Europa que protege, que é capaz de preservar no essencial o modelo social, que combate a desigualdade das sociedades em que um terço tem todas as oportunidades e outros dois terços vivem na insegurança e na incerteza”. Não gosta de comparações históricas, como aquela que se pode fazer entre o que se passa hoje na Europa e o que aconteceu nos anos 1930, com as consequências que conhecemos. Normalmente são “uma péssima ideia”. Considera que os europeus vão viver em breve o seu momento da verdade, com as eleições para o Parlamento Europeu, em Maio do próximo ano. O Parlamento que sair destas eleições será “muito diferente” daquele que se mantém relativamente estável desde a sua primeira eleição directa (1979).  “Haverá imensas mudanças”, que reflectem a emergência de novas forças políticas — do lado dos populismos e dos nacionalismos, mas não só. O novo quadro político francês, com a República em Marcha de Emmanuel Macron, também altera a relação de forças entre os grupos pró-europeus que têm sido maioritários no PE. Lembra que não vale a pena preocuparmo-nos muito com quem vão ser os candidatos à Comissão apresentados pelos grandes partidos europeus. Nesse novo quadro, vão provavelmente ser preciso “três ou quatro partidos” para eleger o presidente da Comissão.

A Europa será outra depois do “Brexit”? “Tudo depende do acordo de saída”. Um acordo que “mantenha o Reino Unido o mais próximo possível da União Europeia” permitirá manter os equilíbrios políticos que hoje definem a Europa — na defesa, na economia, nas questões internacionais. “Os ingleses sempre tiveram uma enorme influência na Europa”, diz. “A questão é saber por que é que nunca a quiseram assumir.” O Mercado Único, as agências de regulação, a economia, a política externa são áreas da integração em cuja dinâmica tiveram um grande papel.

Na sua longa carreira internacional, que passou por vários think-tanks europeus, incluindo a Fundação Notre Europe, a que presidiu depois do seu fundador, Jacques Delors, teve um episódio interessante sobre o qual não gosta de falar muito. Em 2003, ainda na Comissão, o seu nome foi apontado por vários aliados europeus para candidato a secretário-geral da NATO, sucedendo ao britânico George Roberston. Tinha um apoio generalizado, que esbarrou em Donald Rumsfeld, então chefe do Pentágono. A sua candidatura caiu. Limita-se a dizer que também tem o direito “a averbar algumas derrotas.” Em 2004, o seu nome foi sugerido aos parceiros europeus pelo ex-primeiro-ministro António Guterres para presidir à Comissão, que ele próprio tinha recusado em 1999, quando chefiava o governo de Lisboa. Mais uma vez, Vitorino recolheu um consenso alargado. As circunstâncias da eleição acabaram por abrir as portas a um candidato menos afirmativo, capaz de desbloquear os vetos cruzados entre Londres e Paris: Blair avançou com Chris Patten, Chirac com o belga Guy Verhofstadt, que se anularam um ao outro. O então primeiro-ministro português Durão Barroso já fizera o trabalho de bastidores para ser o candidato do desempate.

Portugal já recuperou a sua credibilidade junto dos parceiros europeus e da comunidade internacional? Vitorino acha que sim. Mas lembra também que o país é valorizado lá fora mais do que, às vezes, nós próprios admitimos. Um dos argumentos que pesaram a favor da sua candidatura foi o comportamento português em relação precisamente às questões da imigração, hoje em dia muito valorizado, em contraste com o clima negativo reinante.

E a pergunta mais incómoda, a que responde, como é seu costume, com uma gargalhada e uma piada. António Guterres foi para o ACNUR e seguiu para a ONU. Vitor Constâncio passou oito anos como vice-presidente do BCE. Ele próprio parte para Genebra. Todos são socialistas e próximos de António Costa. “Desertaram?” Vitorino não acha que seja a palavra justa. Como sempre, encontra a saída perfeita. “Quando me candidatei, a reacção foi: ‘Oh não! Outro português’.”

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