Editorial

No Brasil, a mentira é a política

A manipulação cresce com a progressiva descrença de um eleitorado disponível para acreditar nos discursos mais hediondos e manipuladores, porque aquilo em que quer acreditar é a mentira que deseja aceitar como verdade.

O algoritmo de uma rede social e uma aplicação utilizada na distribuição e troca de mensagens para difundir informação falsa são o método mais eficaz de um sistema de propaganda e manipulação perigosa que Trump iniciou e Bolsonaro aperfeiçoou. A comunicação política através destes dois meios substitui hoje qualquer exercício crítico, nomeadamente o jornalismo, como escreveu Irene Pimentel, quer como fonte de informação, quer como meio privilegiado das tentativas de propaganda e de manipulação. É assustador quando a inteligência artificial do Facebook ou do WhatsApp se revela mais eficaz como fazedora de opinião e suporte de campanhas eleitorais no Brasil, assentes na desinformação e na mentira declarada, do que qualquer outro espaço público de debate de ideias.

O fabrico do consenso, tal como o definiu Noam Chomsky na década de 1990, com o controlo dos media nas sociedades totalitárias a ser feito através da força, da violência e da censura e nas sociedades democráticas através da saturação, da acumulação torrencial de informação, ou da existência de meios eficazes de pressão, tem outros meios de distribuição mais assépticos e filtros digitais. A dicotomia entre censura e liberdade de informação ameaça ser tão anacrónica como a distinção entre regimes totalitários e democráticos, quando até a democracia deixa de ser liberal e a mentira declarada se impõe facilmente como verdade. A dificuldade de discernir entre o verdadeiro e o falso é a mesma, mas a sua dimensão é bem mais tenebrosa.

A cultura de massas de hoje pode prescindir do clássico papel informativo dos media, porque dispõe de outros meios e porque o desejo e a procura de informação com significado não tem mercado. Os jornalistas já não morrem na frente de combate ou às mãos do Daesh, mas no interior de consulados ou nas ruas de Moscovo, ou mesmo em países da União Europeia, como Malta ou Bulgária. O ódio sobrepõe-se a qualquer tecnocracia.

A manipulação cresce com a progressiva descrença de um eleitorado disponível para acreditar nos discursos mais hediondos e manipuladores, uma espécie de Estaline 2.0 que procura o binómio entre o bom e o mau e exclui o diferente, porque aquilo em que quer acreditar é a mentira que deseja aceitar como verdade. O triunfo da sociedade do espectáculo descrito por Guy Debord deu lugar ao triunfo da mentira consentida.