Morreu José Sarmento de Matos, o historiador de arte que preferia ser olisipógrafo

O historiador de arte é o mais conhecido estudioso de Lisboa. Morreu aos 72 anos na sua casa na Lapa.

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José Sarmento de Matos em 2013 Jose Sarmento Matos

José Sarmento de Matos, um historiador da cidade de Lisboa, morreu este domingo de manhã aos 72 anos, vítima de um cancro do fígado. A notícia foi confirmada ao PÚBLICO pelo irmão do olisipógrafo, Carlos Sarmento de Matos, que acrescentou que o olisipógrafo tinha morrido na sua casa na Lapa, situada numa das ruas transversais à Calçada da Estrela.

Autor de livros como A Invenção de Lisboa, uma história da cidade, José Sarmento de Matos dizia que era primeiro olisipógrafo e só depois historiador de arte. Numa conversa com o PÚBLICO, para onde escreveu crónicas, contou que foi sendo apanhado, aos poucos, por esse ramo do saber que Lisboa construiu para si própria. Esta paixão começou a tomar uma forma mais definida em 1994, quando Sarmento de Matos escreveu, por encomenda da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, Uma Casa na Lapa, sobre o próprio palácio onde a FLAD está instalada em Lisboa. Começou a contar a história do passado de uma casa, mas a narrativa foi alastrando pela vizinhança, primeiro pelo bairro, depois pela cidade, como escrevemos aqui a propósito do lançamento de A Invenção de Lisboa. Porque, como explicou, "Lisboa é uma cidade ondulante. Convida à deambulação". Classificava a cidade como barroca, não tanto pelo estilo, mas porque é surpreendente: "A cada esquina há uma surpresa. Há ruas estreitas que desembocam em praças desmesuradas, há edifícios monumentais em lugares minúsculos e esconsos. Lisboa tem a mania de meter o Rossio na rua da Betesga. Há sempre coisas escondidas. Guardadas, viradas para dentro. Há paredes povoadas, grandes muros com janelas pequenas, pátios resguardados. Diz-se que são as influências árabes. Na verdade é a cidade romana, que os árabes copiaram. A cidade mediterrânica."

José Sarmento de Matos foi um olisipógrafo muito particular, defende Anísio Franco, outro olisipógrafo de uma geração mais nova. “Ao contrário dos antigos olisipógrafos, que escreviam sobre o nome de uma rua ou sobre quem deu origem a essa rua, Sarmento de Matos pegava num caso e tomava-o como matriz para uma alteração urbana, como fez com Uma Casa na Lapa.” O palácio da FLAD serve ao olisipógrafo para falar da urbanização de toda a Lapa, a partir da divisão em lotes da cerca do Convento das Trinas do Mocambo. “Ele demonstra que a reconstrução pós-terramoto não coube só ao Estado mas também aos particulares”, explica Anísio Franco.

Numa entrevista que deu há um ano ao jornal Expresso, explicava a razão pela qual gostava que lhe chamassem olisipógrafo: "Muitos colegas da história de arte acham que é um delírio meu. Para eles, a olisipografia é uma coisa menor. [...] No contexto da história de arte, quando se começa a estudar um edifício, esse edifício tanto podia estar ali como noutro sítio qualquer. Mas o meu modo de olhar sempre foi diferente. Olhava para o mesmo edifício e tentava integrá-lo na cidade. Uma casa nunca é um gesto isolado."

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Na terça-feira, Manuel Salgado e Catarina Vaz Pinto, vereadores da Câmara de Lisboa, foram à sua casa na Rua Teófilo de Braga entregar-lhe a Medalha Municipal de Mérito Cultural

Um homem da Expo

José Sarmento de Matos nasceu a 8 de Junho de 1946, no mês de Santo António, mas também de Fernando Pessoa, os dois lisboetas mais ilustres, como gostava de notar. É o quarto filho de uma família de oito irmãos (é irmão da escritora Maria Roma, mulher de Diogo Freitas do Amaral) e nasceu perto do Bairro Alto, mudando-se depois para Sintra, onde viveu vários anos numa quinta — a Villa Roma. Passou por Direito, antes de se inscrever em História na Faculdade de Letras. Esteve mais de uma década a trabalhar num serviço público ligado ao património até decidir fazer uma especialização em história de arte com José-Augusto França, escolhendo a arquitectura civil como área de investigação. Colaborou com jornais, do Expresso a O Independente, dedicando-se intensamente à revista Oceanos, da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, de que foi coordenador editorial. Logo depois, esteve envolvido na concepção, com o seu amigo António Mega Ferreira, da Expo-98 — são dele os nomes das ruas do Parque das Nações. Nessa altura, estudou detalhadamente o património da zona oriental da cidade, publicando os guias Caminho do Oriente. Alguns anos depois, em 2003, publicou Casa Nobre do Braço de Prata.

“Passear pela Rua da Escola Politécnica e ter visões do rio ao fundo daquelas ruas estreitas. Ou chegar ao Largo do Camões e olhar para a Rua do Alecrim. Em baixo, só o azul. A cidade íngreme com o rio ao fundo”, disse José Sarmentos de Matos sobre a beleza da cidade que estudava numa conversa que teve com o PÚBLICO em 2012. 

Miguel Soromenho, como ele historiador da arquitectura, diz que Sarmento de Matos oferecia uma visão de conjunto da história da cidade, destacando a sua obra A Invenção de Lisboa, uma história da cidade em vários volumes que deixou inacabada. “Ele tinha uma coisa que os antigos olisipógrafos não tinham que era uma formação em história de arte. Ele tinha a erudição da olisipografia clássica, mas também o olhar do historiador da arquitectura e do urbanismo. Além disso, era um homem muito inteligente. Todos os livros dele são importantes, com visões novas para a história da cidade, ancoradas numa sólida erudição e pesquisa documental, mas também com uma visão analítica moderna que lhe dá o olhar do historiador de arte.” Recentemente, publicou Um Sítio na Baixa: a Sede do Banco de Portugal (com Jorge Ferreira Paulo), sobre o local onde se instalou o Museu do Dinheiro, bem como a obra colectiva Palácio Portugal da Gama/São Roque, que inaugurou a colecção Património da Misericórdia de Lisboa.

Na terça-feira, Manuel Salgado e Catarina Vaz Pinto, vereadores da Câmara de Lisboa, foram à sua casa na Rua Teófilo de Braga entregar-lhe a Medalha Municipal de Mérito Cultural. Com a saúde já muito debilitada, não foi possível organizar uma sessão na câmara. 

O velório é este domingo na Igreja das Mercês, em Lisboa, seguido de missa na segunda-feira, às 14h. O enterro será no Cemitério dos Prazeres.