Salamanca, cidade dourada

O leitor André Almeida Paiva partilha a sua experiência na cidade espanhola.

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A estrada ainda não deu entrada na cidade mas já se avista a torre da catedral. Alta e esculpida, de pináculos perfurantes, magnetiza-nos as atenções à medida que nos aproximamos, e quando a luz do sol lhe incide pelo ângulo certo a pedra de que é construída quase adquire um brilho de mel. Dão-lhe o nome de “cidade dourada” e o epíteto assenta-lhe bem, pois Salamanca é, sem sombra de dúvida, uma cidade cuja beleza nos encanta.

Por certo será por causa da riqueza edificada do seu centro histórico, que é património mundial da UNESCO. Para além das catedrais que se juntam nessa monumental peça religiosa — a catedral velha, mais gótica, à catedral nova, barroca, e cuja torre do relógio se entortou ligeiramente ao passar do terramoto de 1755 —, há todo um conjunto de recantos e fachadas por explorar, como se uma febre construtiva houvesse decorado, de uma vez só, todo o seu núcleo citadino. Há a capela de San Esteban, a famosíssima e elegante Plaza Mayor, a Clerencía e a pitoresca Casa das Conchas, decorada a quase 300 vieiras, e ainda o portal da Universidade — que é das mais antigas do mundo —, rendilhado de pormenores escultóricos e ainda de um batráquio que hoje é também símbolo de Salamanca e preenche as prateleiras das lojas de souvenirs. Mas toda uma história mais antiga a atravessa, de muçulmanos, bárbaros e romanos, e por certo se recomenda atravessar a ponte que estes últimos construíram sobre o Tormes, para que as torres, os campanários e as cúpulas nos desafiem o olhar uma vez mais…

Como seria, se substituíssemos a pedra de uma cidade por outra diferente? O xisto lasca-se, forra os telhados das aldeias de montanha que há espalhadas por esse miolo de Portugal, a alvura do mármore que só se encontra nesse triângulo do Alentejo quase ofusca o visitante num dia de Verão: o Porto é granítico, mais denso, de uma beleza austera e fortificada, Lisboa descansa à margem do Tejo, branca, calcária e luminosa, como alguém que se deita a apanhar sol… Pois que seria se trocassem a rocha de uma cidade por outra — se o Porto fosse sedimentar e Lisboa magmática?  

Pela tarde lenta: o sol cai morno, de viés, e as ruas salamanquinas enchem-se desse ruído bem castelhano, entregando-nos um convite para percorrê-las. De onde vem esta essência, esta beleza? Talvez seja da pedra, essa que é igual e repetida, revestindo todos os pormenores arquitectónicos. Chamam-lhe “Piedra franca” ou “arenisca de Villamayor”, é um arenito de quartzo com alguns feldspatos, vem (ou vinha) das pedreiras das imediações, serra-se e transporta-se com facilidade, é abundante e fácil de esculpir. Talvez seja por causa da pedra, desse seu castanho leve ou amarelo intenso, que a luz saia reflectida de outra maneira, com esse brilho aveludado…

É impossível percorrer uma cidade deste género sem tocar, nem que seja por distracção, nas pedras que lhe constroem as ruas. E em Salamanca, mais precisamente numa das portas da catedral, há mesmo uma pedra esculpida em que se deve pôr a mão, como promessa de boa sorte: não é uma rã — é sim um coelho — e de tantos homens já lhe terem tocado o seu brilho mudou, parecendo quase metálico.

André Almeida Paiva