Torne-se perito

O diabo à solta não assusta ninguém em Cidões

A Festa da Cabra e do Canhoto atrai milhares de pessoas à aldeia de Vinhais que, no resto do ano, não tem mais de 20 habitantes. A descoberta das origens celtas das festividades mudou a face da celebração que, durante décadas, era encarada como um simples magusto.

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Francisco Pinto (ao centro), com José Taveira e Maria Alice
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Os fatos estão prontos para sair à rua

A festa pode ser do diabo, mas Eugénia Moás faz os seus pedidos a outra entidade: “Deus queira que esteja mais frio”, pede a mulher de olhos azuis-claros, depois de mostrar os fogões que lhe vão ocupar todo o dia 3 de Novembro. É nessa data que, este ano, se celebra a Festa da Cabra e do Canhoto, na aldeia de Cidões, em Vinhais.

Nunca ouviu falar? Até há uns anos, estaria em pé de igualdade com quase todas as pessoas de fora da aldeia, mas no ano passado o povoado com menos de 20 habitantes permanentes recebeu quase três mil visitantes, chegados de todos os pontos do país e do outro lado da fronteira para participarem na festa. Foi tal a enchente que a comida acabou. Este ano, a organização — leia-se, as pessoas da aldeia — já se precaveu e tratou de reforçar a ementa. Agora, esperam que o tempo ajude. Que não chova, mas que não faça o calor do ano passado.

Porque, em 2017, a temperatura elevada que se arrastou Outono dentro, e os devastadores incêndios que galgaram o Centro do país, impediu que parte da tradição da festa fosse cumprida. Não se acendeu a grande fogueira em que é queimado o “cabrão”, nem se pegou fogo às estrelas espalhadas pelo caminho que o “diabo” há-de percorrer num carro de bois. Fazer fogo era, na altura, proibido, e Cidões cumpriu. Mas com pena. “Foi a festa mais triste”, lamenta-se Eugénia, de 61 anos. Logo ela que, confessa, quase não vê seja o que for da animação da noite, porque passa o dia fechada na cozinha, a braços com o caldo verde, a feijoada, as alheiras, a linguiça e o chouriço de carne, que hão-de juntar-se à cabra estufada cozinhada no exterior, em potes de ferro, pela mão experimentada de Francisco Pinto.

As iguarias da região são um dos chamarizes da festa, mas estão longe de ser as únicas. Maria Alice Pinto, 84 anos, lembra-se bem do que era a festa na sua infância, quando não passava de um simples magusto. No dia 31 de Outubro não se falava de Halloweens nem de noites de bruxas, mas era altura de assar castanhas ao relento, juntando todos os habitantes da aldeia. Assavam-se castanhas à fogueira, bebia-se vinho, os rapazes da aldeia levavam, para o largo onde todos se encontravam, um carro de bois escolhido entre os que “cantavam melhor” — entenda-se, “chiasse melhor”, traduz — e dançava-se. “Bailava-se toda a noite. Eu dançava muito bem”, sorri a mulher que, durante mais de 20 anos, foi a professora primária da aldeia.

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As estrelas são incendiadas à passagem do diabo

O lameiro de Alice

Depois, as coisas foram evoluindo, muito graças a habitantes de Cidões que saíram para estudar e se interessaram por conhecer as origens deste ritual. Um deles foi o filho de Maria Alice, Luís Castanheira, que seria um dos fundadores da Associação Raízes. Foi a associação que mudou o rosto da festa. Descobriu-lhe as origens celtas, a sua ligação às celebrações do início da chamada “estação escura”. O magusto de 31 de Outubro ganhou roupagens novas, ares de ritual e de mais animação. Cresceu a comida, cresceu a música, fizeram-se fatos para “as deusas” e o “druida”, arranjou-se alguém para se disfarçar de diabo, passou a queimar-se “o cabrão” e já não castanhas.

Durante alguns anos, ainda assim, a festa manteve-se mais ou menos um segredo bem guardado na aldeia, mas, depois, o passa-palavra mudou tudo. Primeiro vieram os jovens do concelho de Vinhais, depois, gente de todo o lado. José Manuel Taveira, originário do concelho de Almada — “não é de cá, mas é nosso”, sorri Maria Alice —, mas que é casado com uma mulher de Cidões, frequentando a aldeia desde 1975, é o actual presidente da associação, e explica as mudanças que a fama da Festa da Cabra e do Canhoto já introduziram nas festividades. A começar pela data.

A necessidade de permitir que os curiosos do Minho ao Algarve possam chegar a Cidões a tempo da festa impediu que a mesma se realizasse sempre a 31 de Outubro. “A festa começa às 19h, se for um dia de semana, quem vem de longe não consegue chegar cá a tempo. Por isso, agora ela é sempre no fim-de-semana antes ou após essa data”, explica José Taveira. O local também mudou. Deixou de ser no lameiro que Maria Alice cedia para a instalação das tendas que recebem a comida e os comensais, para se instalar ao longo da rua principal da aldeia, libertando o lameiro para o estacionamento de viaturas e resolvendo (desde que não chova) aquele que é o principal problema da festa: arranjar local para os carros de quem chega e que, sem lameiro, ficavam alinhados na estrada estreita que serpenteia monte abaixo até Cidões. Este ano, pela primeira vez, a venda das senhas que dão acesso às bebidas e comidas inteiramente confeccionadas na aldeia também vão arrancar mais cedo. Porque, até agora, tudo abria às 19h e a acumulação de pessoas era muita. No dia 3, a compra de senhas vai estar disponível logo a seguir ao almoço.

O horário da festa é que se mantém. Às 19h, começa o cortejo celta pelas ruas da aldeia (e os fatos estão todos prontos e pendurados à espera dos figurantes habituais). No largo, retira-se o grande sol pintado de amarelo e laranja e coloca-se a lua a substituí-lo e às 20h acende-se a fogueira que, mais tarde, há-de servir para queimar “o cabrão”, criado pelo Agrupamento de Escolas de Vinhais sobre uma estrutura de metal. Pelo meio há animação do grupo AndaCamino, do Teatro Filandorra e dos Gaiteiros do Zido; três esconjuros do druida de serviço e, lá para a meia-noite, chega o diabo, no carro de bois que a associação entretanto comprou, com receio que, um dia destes, já não houvesse quem emprestasse o transporte.

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O lameiro de Maria Alice será usado como parque de estacionamento

310 quilos de carne

Durante todo este tempo — e muito antes disto — Francisco Pinto, de 77 anos, vai estar no epicentro da festa a tomar conta dos potes de barro em que se cozinha, devagar, a cabra — símbolo da mulher do diabo. É o irmão de Maria Alice que trata desta iguaria há vários anos. No ano passado, os 280 quilos de carne acabaram antes da meia-noite. Por isso, este ano, a compra foi reforçada: 310 quilos vão ser temperados com antecedência em vinho, alho, louro e “muitas outras coisas” que Francisco não revela, e depois deixados a estufar nos dez a doze potes de ferro. “Sem mexer a carne, senão ela estraga-se. Só se vira o pote, mais nada”, diz o homem cuja fama é tanta que até já foi chamado a cozinhar na casa de “um ricaço espanhol” que passou por Cidões. “Já me disse que este ano vem cá e quer que eu vá de novo cozinhar a casa dele, que havemos de combinar na festa”, diz, sorridente.

A carne, promete, está sempre tenra. “Damo-la a provar à pessoa mais velha da aldeia. Se os dentes dela aguentam, então não está rija”, ri-se o homem. A ulhaque, aguardente de ervas fabricada em Cidões, também está mais do que pronta a aquecer as gargantas. Se for lá, não se esqueça de comer a cabra e de dar uma volta à fogueira, já que diz tradição alimentada pelos locais que “quem da cabra comer e ao canhoto se aquecer um ano de sorte vai ter”. Na aldeia, todos esperam ser desinquietados nesta noite. E fazem-no com prazer. “Para sossego, já chega o resto ano”, diz José Taveira.

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