Almaty: deixei o chapéu em casa, e agora?

A antiga capital do Cazaquistão tem aura de ser mais europeia do que asiática, apesar da localização geográfica no coração da Ásia. Situando-se algures entre aqueles dois pólos, Almaty é também a capital cultural do país e uma das maiores cidades da Ásia Central, a par de Cabul e de Taschkent.

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E se, por razões geopolíticas, ou outras menos explícitas, fosse decidida a transferência da capital portuguesa de Lisboa para Freixo-de-Espada-à-Cinta? Foi algo mais ou menos comparável o que aconteceu há exactamente vinte anos, quando, após a desagregação da URSS e a declaração de independência do Cazaquistão, se decidiu a mudança da capital do país para a vizinhança da pequena e anónima Akmola, mais de mil quilómetros para norte, no meio da estepe. Almaty, no extremo sul do território, vizinha das fronteiras com o Quirguízia e o Uzbequistão, perdeu o estatuto de capital, mas continua ser a maior cidade do Cazaquistão, a mais populosa (bastante mais do que Astana, a nova capital), e, sobretudo, mantém a estimável condição de reserva cultural do país, com os seus mais de trinta museus, incluindo o maior museu de belas artes do Cazaquistão e um outro dedicado a “livros raros” e com um impressionante acervo de cinco mil edições. Não menos relevante é a aura da cena teatral da cidade, que acolheu, durante a Segunda Grande Guerra, encenadores, actores e outra gente das artes e das letras de Kiev, Moscovo e São Petersburgo.

Transferiu-se a administração para a estepe e a mudança não parece de todo mal num país que foi de nómadas — Cazaquistão pode traduzir-se mais ou menos por terra de andarilhos. A história do que ficou para trás, uma correnteza de andanças por infinitas estepes e desertos que figuravam, também, nos intrincados mapas da Rota da Seda, guarda-a, em testemunhos materiais, artefactos e elucidações retrospectivas, o Museu Central do Cazaquistão, lá para as bandas do antigo palácio presidencial. Não que Almaty seja um(a) Velho(a) do Restelo, encafuado(a) em memórias de museu ou em reverenciais silêncios de sacristia. A Alma-Ata dos idos soviéticos vive no (e do) presente e se não se arma em futurista high-tech, como Astana, o que por ali se vive tem muito de labor hedonista. Os seus moradores articulam trabalho, geração de riqueza, estudam (é uma cidade universitária, com o seu elaborado teatro de livralhada e exames) e ainda arranjam tempo para artes, lazeres e copofonias — por (quase) toda a parte encontramos esplanadas, belos cafés e bares, menos estáticos ou revivalistas do que de franco timbre contemporâneo. E, por uma vez, uma manifestação de futurismo: o novíssimo Metro, para já com apenas uma linha, tem uma estação com uma atmosfera “espacial”. É a estação Baykonur, que evoca a famosa base soviética de lançamento de veículos aeroespaciais localizada no Sudoeste do país. Além das matérias arquitectónicas, os passageiros podem admirar continuamente numa projecção gigante, ao fundo da estação, filmagens do lançamento de foguetões.

Para o forasteiro, as atracções locais em Almaty são muito mais do que isso: têm cotação universal. E são meninas para seduzir sensibilidades variadas: pense-se no dedicado amante da natureza, no idólatra vagamente panteísta de panoramas de calendário com picos nevados e florestas nos sopés, no aficionado dos desportos de Inverno — esqui, patinagem, alpinismo, etc. —, mas também naqueles inveterados curiosos pelo legado arquitectónico soviético, apenas um pouco menos rico que o da sua congénere Bichkek, a capital do vizinho Quirguízia.

Na terra da grande maçã

Antes da colonização russa, Almaty era um lugar de exílio. Na verdade, as distâncias no Cazaquistão — frequentemente percorridas em viagens por terra que exigem quinze, vinte ou mais horas — ainda nos parecem rumo a lugares de exílio. Nada comparado, ainda assim, com os tempos em que Trotsky foi exilado de Moscovo e confinado ao ostracismo de Almaty, há exactamente 90 anos, em 1928. A capital da URSS ficava a muitos dias de viagem, a uns quatro mil quilómetros, e o lugarejo era um punhado de ruas enlameadas e cães vadios, afectado por malária e lepra, à espera de um milagre que lhe permitisse desafiar o destino — o que viria a acontecer sob a forma da instalação, ali, do governo do Cazaquistão soviético e da chegada da linha férrea, que até essa altura terminava em Frunze, como se chamava nessa altura a capital da Quirguízia.

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Nas imediações havia estepe, mas também terrenos férteis e uma variedade endémica e selvagem de maçãs (malus sieversii), de generosas proporções, que contribuiu para a renomeação  da cidade como Alma-Ata. “Alma” é a palavra cazaque para “maçã” e Alma-Ata poder-se-ia traduzir livremente como “terra de origem ou pátria das maçãs”. Não havia só estepe e macieiras selvagens. A vizinhança dos cumes nevados da Tien Shan, com ares de paisagem suíça, tornava menos penoso o exílio, contou Natalia Sedova, companheira de Trotsky e também revolucionária bolchevique.

Não se afigurava essa remota Almaty como uma terra promissora — Natalia Sedova resumia-a, desalentada, pouco depois de chegarem exaustos a uma decrépita estalagem (na Rua Gogol), como “uma terra de terramotos e inundações” (havia ocorrido anos antes um sismo de grandes proporções que destruiu a cidade anterior, fundada pelos russos no século XIX). Natalia acabou escrevendo mais tarde sobre aquele ano vivido em Alma-Ata com um pedaço de nostalgia, lembrando as montanhas, a estepe coberta de flores, amigos secretos corajosos e vigiados pela polícia política e... a preparação caseira de conservas de maçã para o Inverno.

Dombra e k-pop: sons do Cazaquistão

Gogol, Pushkin, Gorki: do tempo soviético ficaram também literários nomes de ruas e avenidas, a fazer companhia aos heróis e à nomenklatura das elites locais — como Kunaev, primeiro secretário do Partido Comunista do Cazaquistão, e Nursultan Nazarbayev, o actual e mais ou menos vitalício presidente do país. E ficaram também, zelosamente conservados, edifícios emblemáticos de estilos arquitectónicos aprimorados durante a era soviética, como o “cósmico” circo e o também redondo, a lembrar um OVNI um tanto anafado, Palácio dos Casamentos, ambos na avenida Abai, muito perto do (já pouco) brutalista Teatro Ayezov, obra tardia dos anos 1980.

A Gogol atravessa um dos epicentros de Almaty — se podemos conceber mais do que um, ideia legítima numa cidade em que predomina uma lógica de dispersão. Chama-se Zhibek Zholy e é a zona mais emblemática em termos de áreas pedonais, o que não é dizer pouco numa cidade que regurgita jardins e parques (e fontes: há bem mais de uma centena), herança grata do urbanismo soviético, preocupado em pôr cada coisa no seu lugar.

Esplanadas, parques infantis, gelatarias com compactas filas de clientes: a Zhibek Zholy é a primeira montra da face descontraída e epicurista de Almaty. E de subtis contrapontos que compõem o retrato cosmopolita de uma das mais agradáveis cidades da Ásia Central. À beira do Parque Panfilov, o Museu de Instrumentos Musicais glorifica uma panóplia de instrumentos — a colecção reúne mais de um milhar — que foram queridos por nómadas que já não existem. Há quem toque dombra, o instrumento de duas cordas ainda muito popular na Ásia Central, mas a música que mais se ouve parece ser a do K-pop local, bom imitador do original sul-coreano e de grande sucesso entre a juventude urbana cazaque, que a olho nu pouco se distingue das suas congéneres europeias — nos modos de vestir, nos comportamentos, nos gostos e padrões de consumo.

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A Gogol põe-nos à porta do parque Panfilov, onde um frondoso arvoredo lança sombra sobre os relvados. É um dos muitos parques e jardins que povoam Almaty e que são uma herança do urbanisno soviético. A sombra é, aliás, permanente companhia do caminhante, aqui como em Bichkek e Taschkent, outras cidades da Ásia Central marcadas pelo tipo de planificação urbana soviética e plenas de espaços verdes. Jamais se anda ao sol: paralelos às avenidas há amplos passeios sombreados por grandes árvores, e em praticamente todos os quarteirões, numa malha urbana desenhada em quadrícula, podemos caminhar, distantes do ruído do tráfego automóvel, por ruelas imersas em manchas generosas de sombra que separam os edifícios habitacionais. É uma das mais amáveis imagens de Almaty: com tanto arvoredo, podemos esquecer o chapéu em casa ou no quarto do hotel e ficar descansados, que só nos cruzamentos haverá razão para alguém se queixar do sol.

Mas sobrevém uma decepção neste passeio pelo parque Panfilov, famoso pelo memorial ao sacrifício cazaque na Segunda Grande Guerra, expresso sob a forma de uma chama “eterna” e de monumentais esculturas realistas: a ortodoxa Zhenkov, a Catedral da Ascensão, um dos ícones da cidade, está mergulhada em obras de renovação, coberta de andaimes. Só uma parte das cúpulas brilha ao sol. Os grandes painéis que durante a intervenção rodeiam o templo, franco exemplar da arquitectura religiosa russa, são uma modesta compensação para as expectativas do visitante. À volta, mantém-se o frenesim característico dos espaços públicos de Almaty, quiosques de fast-food, gelatarias, vendedores ambulantes, brinquedos para alugar e vender e criançada em júbilo, outra música que muito se ouve nos jardins e parques de Almaty.

Um bazar da Ásia Central

Ao bazar se pode ir caminhando pela Pushkin, a mesma rua que vai dar à mesquita central, cuja entrada reproduz um estilo arquitectónico popular na Ásia Central, conhecido sobretudo no Turkestan (uma cidade histórica do Sul do Cazaquistão) e, superlativamente, em Bukhara e Samarcanda, no Uzbequistão.

O bazar leva o adjectivo “verde”, assim vem escrito nos guias e no mapa oficial da cidade. Mas é muito mais do que uma exposição meticulosa de fruta e vegetais (muito fotogénico, embora um ícone à entrada avise sobre a proibição de fotografias, um interdito bizarro numa terra onde se pode fotografar praticamente tudo, incluindo interiores de mesquitas e de museus). Há queijarias, talhos, comida pré-preparada, kumiss (leite de égua fermentado), a muito apreciada carne de cavalo, o pão redondo e entrançado da Ásia Central, tudo no seu particularissímo lugar, arrumadinho e entre a mesma irrepreensível limpeza que caracteriza as ruas destas ex-repúblicas soviéticas.

O Green Bazaar é algo mais do que um lugar de compras; sem esforço, fazemos aquele exercício de olhar que os desenhos de Escher solicitam e logo fica à vista um quadro da multiétnica sociedade cazaque. É assaz curiosa a compartimentação profissional (e de género, já agora), que terá certamente uma ou mais explicações sociológicas. Salvas as excepções, as carnes frescas e a comida pré-preparada são assuntos com que se ocupam os cazaques, homens e mulheres, respectivamente. Já a secção de queijos e afins está nas mãos de circunspectas mulheres russas, de olhos claros e lenços floridos. As frutas e legumes são negócio de exuberantes e barbudos uzbeques. Maçãs muito vermelhas, uvas, peras, morangos e ameixas olorosas, graúdas cerejas do tamanho de nozes. E as avantajadas e dulcíssimas melancias que são citadas geralmente como originárias dos campos agrícolas do Uzbequistão.

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Nos mercados sentimos que falar russo nestas bandas das antigas repúblicas soviéticas tem muitas vantagens, ainda que não seja habilidade absolutamente imprescindível — enfim, para viajar, mesmo para paragens “remotas”, não tem que se ser sólido poliglota. Mas dá um certo jeito ter algumas “luzes” de russo, não bastam da e niet, não bastam spacibas e pajalstas, sob pena de a comunicação se estampar logo na primeira curva.

Estamos no Cazaquistão e, previsivelmente, há umas quantas vozes críticas do alegado predomínio da língua russa sobre o cazaque (ambas são línguas oficiais no país, a primeira, porventura mais oficial do que a segunda...). O caso é que, mesmo no interior de certas famílias cazaques, sobretudo urbanas, a comunicação se faz maioritariamente em russo. São, dir-se-á, consequências incontornáveis de um longo período histórico e de porventura persistirem no país , como acontece em Almaty, significativas comunidades russas. O viajante que se mete a jornadear por estas bandas do mundo cedo compreenderá que os territórios da Ásia Central permanecem inequivocamente na esfera da influência — cultural e económica, pelo menos — da Rússia.