Opinião

O futuro está a chegar à Medicina. Estará a Medicina preparada para o futuro?

Preparar a Medicina para o futuro: a Ordem dos Médicos está pronta para aceitar o desafio.

A Medicina é uma ciência de evolução constante, no qual a fusão entre arte, ciência, tecnologia e humanidades sempre se caracterizou pela inovação e a procura de melhores resultados.

O crescimento do saber tem sido exponencial. Durante os últimos 40 anos, fruto dos progressos científicos, a saúde da humanidade transformou-se. A esperança de vida subiu duas décadas, a qualidade de vida passou a ser um objetivo paralelo aos indicadores de mortalidade. Estamos a viver mais e melhor.

A maioria dos progressos da Medicina nos últimos 50 anos iniciaram-se na Universidade na avaliação dos mecanismos de doença e foram transpostos para a prática nos hospitais. Muitas doenças passaram a ter cura, outras previnem-se ou diagnosticam-se precocemente e, tratando-se mais cedo, têm menor impacto na saúde.

Criaram-se muitas especialidades e competências novas; a arte está a dar lugar à ciência, sendo a tecnologia preponderante. A relação médico-doente sofreu uma transformação a que a velocidade da sociedade atual e o advento da crise económica trouxeram algumas novas fragilidades. Este novo contexto, e o deficiente acesso à saúde para parte da população, rapidamente foi fértil para arautos da desgraça ou para novas-velhas profissões sem ciência nem pudor, que se aproveitaram de um acesso desorganizado à boa informação, notícias manipuladas ou mesmo fake news.

O futuro na Medicina

A participação de outras áreas do desenvolvimento tecnológico, como a engenharia, a robótica, nanotecnologia, novos materiais, inteligência artificial e as tecnologias de informação e comunicação só agora começam a ser percetíveis. O seu impacto é ainda diminuto, mas prevê-se uma autêntica revolução. A era digital está a chegar à Medicina e tudo vai ser mais rápido. E diferente.

A 26 e 27 de Outubro vai realizar-se o 21.º Congresso da Ordem dos Médicos. O tema é “O futuro na Medicina”. Os médicos vão iniciar uma discussão interna que se prevê longa. Não será um congresso para expor tecnologia, embora ela seja cada vez mais evidente. Será um ponto de partida para antecipar e programar uma nova Medicina.

A discussão do impacto, das vantagens e riscos desta nova realidade deve ser feita em todas as profissões, mas com ênfase especial na classe médica. As várias especialidades devem preparar-se para formar médicos com competências diferentes, os hospitais e centros de saúde devem adaptar a sua estrutura, as profissões devem reorganizar-se, sendo que do confronto das competências deve sobressair a qualidade técnica e não o menor custo.

O diagnóstico será mais automatizado, com sensores e dispositivos que permitem ao utente conhecer-se melhor e ao médico recolher informação de forma rápida e fidedigna.

No futuro, o tratamento médico das doenças complexas será personalizado, com tratamentos que avaliem as respostas individuais às doenças, ao invés de protocolos massificados.

As técnicas de diagnóstico e as intervenções cirúrgicas serão cada vez menos invasivas, mais dirigidas, mantendo a função e melhorando a qualidade de vida.

O cidadão, para ser o centro do sistema, também deve ser chamado a intervir e terá cada vez mais responsabilização. Com o acesso a mais e melhor informação, deve ser o principal decisor, mas necessitará também de mais apoio à decisão.

Para o médico, a sua função não vai mudar de forma radical.

Diagnóstico e terapêutica serão mais precisos e facilitados, mas a sua responsabilidade será maior. Ao lado do doente, com uma capacidade de integração de dados baseada numa sólida e longa formação científica e técnica, a sua função de consultor e de fulcro do sistema tem que ser mais valorizada. A relação médico-doente será mais importante e a confiança mútua tem que ser alicerçada e preservada. O seu papel na gestão clínica do doente ou de grupos de doentes terá que ser realçado, não por tradição, mas porque tem o mais vasto, amplo e profundo conhecimento da saúde e da doença em todas as suas vertentes.

Esta nova medicina tem riscos? Algumas chamadas de atenção:

1. A introdução do digital, da inteligência artificial, dos micro sensores e da robótica são muito aliciantes para a população, para os media e, sobretudo, para a indústria. Mas a tecnologia tem que ser um facilitador e não um fim, sob pena de estarmos apenas a construir um mundo de health gadgets sem melhoria dos indicadores de saúde.

2. Muitos dos avanços podem trazer custos económicos, nomeadamente os tratamentos personalizados e nos dispositivos cirúrgicos. Temos de garantir universalidade e equidade no acesso às novas tecnologias, em tempo e qualidade semelhante ao restante espaço europeu. A convergência não pode ser baseada apenas em critérios económicos, de PIB ou deficit. Aí estamos muito longe da média, e das oportunidades que estão a ser exploradas nos nossos “parceiros” europeus.

3. O acesso aos Big Data (repositório de toda a informação gerada pelos sistemas de informação) e a sua análise permite ganhos substanciais na forma de diagnosticar e tratar doentes. É um imperativo que o acesso seja regulado, mas aberto, para os vários intervenientes na investigação e decisão, e não estar reservado apenas para avaliações financeiras do sistema. Às universidades e aos investigadores, o acesso facilitado a este repositório de informação pode abrir possibilidades únicas para encontrar melhores formas de tratar velhas e novas doenças.

4. As entidades reguladoras estarão mais à prova no que concerne ao impacto de mais informação, mais dispositivos ou processos diferentes de conduzir a luta contra a doença. Os novos dispositivos devem ser introduzidos por processos de autorização semelhantes aos dos medicamentos. Ainda num passado muito recente, próteses e implantes foram retirados precipitadamente do mercado por não terem sido considerados adequadamente efeitos secundários ou riscos raros. Ao Infarmed, à ERS, às Ordens profissionais também serão colocados problemas novos que precisam de abordagens diferentes, para os quais a legislação e delimitação de competências não existe de todo.

5. Por fim, temos que ter a noção que a “velocidade do futuro” é algo para a qual não estamos ainda preparados. Numa sociedade mal preparada e sem regulação própria, podemos introduzir “necessidades artificiais”, consumos inapropriados, conflitos desnecessários e, com isso, atrapalhar a progressão para uma Saúde melhor, com mais vida de qualidade, fim único da Medicina.

Preparar a Medicina para o futuro: a Ordem dos Médicos está pronta para aceitar o desafio. 

Presidente da Comissão Organizadora do 21.º Congresso Nacional de Medicina; presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos