Sindicalistas: os agitadores contra Costa

Mário Nogueira, Guadalupe Simões e José Abraão são responsáveis por levar para a rua milhares de funcionários públicos. Hoje é o dia da prova.

Mário Nogueira
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Mário Nogueira LUSA/JOSÉ COELHO
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Enric Vives-Rubio
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Mário Nogueira vai deixar o lugar na Fenprof?

"Continuarei a dar a cara até 2019 e depois terei de ver. Pondero não continuar nesta função, isto exige muito de nós e quero pensar bem o que vou fazer". A afirmação foi feita pelo secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira, ao Campeão das Províncias, jornal ao qual acrescentou ainda: “Não vou dizer que já tomei uma decisão definitiva de não ficar, mas, se a decisão fosse agora, seria a de não ficar, não para ir para outro lado, apenas para voltar à minha escola e voltar a dar aulas. Manter-me-ei aqui até 2019 e depois logo veremos".

O PÚBLICO tentou falar com o sindicalista para confirmar se pondera ou não sair da Fenprof e voltar a ser professor do primeiro ciclo em Coimbra, mas o dirigente estava numa reunião e sem tempo para este tema, quando o que o ocupa e preocupa neste momento são, como há décadas, as lutas dos professores. A última batalha é a contagem integral do tempo de serviço dos docentes.

Mário Nogueira, 60 anos, foi eleito secretário-geral da Fenprof em 2007, mas já tinha actividade sindical antes disso, tendo sido mesmo um dos rostos mais mediáticos da contestação ao novo Estatuto da Carreira Docente. Um ano depois de ocupar o cargo de líder da Fenprof, conseguia juntar 100 mil professores na rua a manifestarem-se contra as políticas defendidas pela socialista Maria de Lurdes Rodrigues. Não deu tréguas a vários governos. Filiado no PCP e nascido em Tomar, o sportinguista que também chegou a ser escuteiro, acabaria a estudar em Coimbra, onde andou na Escola do Magistério do Ensino Primário.

Algarvia e senadora na Saúde

Aos 52 anos, Guadalupe Simões é dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) desde 1991. Nasceu no Algarve e ainda trabalhou como enfermeira no hospital de Faro durante cinco anos, onde foi dirigente regional do SEP, antes de se mudar para Lisboa em 1996. Desde então, foi sendo eleita e reeleita sucessivamente para a direcção do sindicato, tantas vezes que até já se lhe torna difícil contabilizar os mandatos.

Mais conhecida do que o próprio presidente do SEP,  talvez por ser responsável  pelo departamento de informação e pelos contactos com os jornalistas, Guadalupe coordena ainda os departamentos de relações internacionais e da acção reivindicativa do sector público. É  ela, aliás, que acompanha as reuniões no âmbito da Frente Comum.

Há tantos anos dirigente sindical, a enfermeira não se vê a fazer outra coisa, apesar de reconhecer que os tempos actuais não são fáceis – “hoje há muitas pessoas que vêem os sindicatos como um prestador de serviços", lamenta -, até porque continua a acreditar com veemência que é “no colectivo que se torna possível atingir os objectivos” individuais.  

O momento mais marcante do seu percurso sindical? O da aprovação do regulamento do exercício profissional, em 1996, quando "ficou consagrado que os enfermeiros desenvolvem intervenções que só dependem de si”. Pela negativa destaca o Governo de Durão Barroso quando foi ministro da Saúde Luís Filipe Pereira e se mudou a lei de gestão hospitalar, criando os hospitais SA (sociedade anónima) e as parcerias público-privadas (PPP). Ainda hoje, reflecte, a sua luta passa muito por combater os efeitos da "instalação dos grandes grupos económicos" na saúde.

O sindicalista que discute cara a cara com o PM

Na última comissão política do PS, logo a seguir à apresentação do Orçamento do Estado (OE) para 2019, José Abraão, dirigente da Fesap, não deixou escapar a oportunidade para lembrar ao primeiro-ministro de que “há vida para além do défice” e que os 50 milhões de euros disponíveis para aumentos salariais não são suficientes. Esta postura não é inédita.

O sindicalista, que se filiou aos 14 anos no antigo Sindicato de Escritórios de Vila Real e que aos 18 já era dirigente, aproveita todas as oportunidades para mostrar a António Costa e ao Governo “o que é o pulsar e o sentimento das pessoas”, como diz ao PÚBLICO. E é ouvido?  O primeiro-ministro, diz o membro da comissão política, concorda que é preciso resolver um conjunto de problemas na função pública. “A nossa discordância tem a ver com o ritmo a que achamos que as coisas devem ser feitas”, reconhece.

Na linha da UGT, Abraão privilegia o diálogo e os acordos com o Governo, mas quando à quarta reunião para discutir o OE para 2019 o ministro das Finanças não tinha uma proposta de aumentos salariais para lhes apresentar não teve dúvidas de que a greve era o caminho, juntando-se à CGTP.